SOARES MARTÍNEZ

José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos (1867-1955), militar e colonialista, promovido ao posto de major em 1912, nesse mesmo ano iniciado na Maçonaria, da qual chegou a ser grão-mestre, e nomeado governador-geral de Angola, foi figura de muito relevo da 1ª República, em cujos governos desempenhou as funções de ministro das Colónias e da Guerra. Nesta qualidade lhe coube preparar as forças militares enviadas para França, no decurso da 1ª Grande Guerra, especialmente o Corpo Expedicionário Português, cuja preparação se realizou em Tancos e cujas dificuldades deram lugar à designação publicitária de “milagre de Tancos”.

O seu autoritarismo e a aspereza do seu trato muito contribuíram para as muitas hostilidades que o visaram, tanto na carreira militar como na política, nas funções coloniais e nas relações maçónicas internas. Talvez não fosse muito exagerada a imagem dele deixada por Cunha Leal na obra epigrafada “Calígula em Angola” (Porto, 1924).

Sob o Sidonismo, Norton de Matos exilou-se em Londres, onde foi administrador de uma empresa de navegação marítima que fora compradora, ou arrendatária, dos navios alemães que se achavam em portos portugueses e tinham sido expropriados. Mas, com o regresso dos “democráticos” ao poder, foi aquele oficial promovido, por distinção, ao generalato, nomeado alto-comissário em Angola e embaixador em Londres. Em 1948 ainda foi candidato à Presidência da República.

A obra de Norton de Matos – “Memórias e Trabalhos da Minha Vida”, Lisboa, 1944-1945 – da qual se transcrevem seguidamente algumas passagens, revela bem, só por si, a dureza de Norton de Matos, mas também a firmeza do seu indomável patriotismo, reflectido na tese, por ele defendida, de uma Pátria Una, cujas províncias, europeias, africanas e asiáticas, haviam de fundir-se num vastíssimo plano assimilador.

“ A Alemanha aparece-nos hoje, 1935, como uma nação ansiosa por uma révanche. Talvez todos nós, homens do mundo inteiro, tenhamos culpa deste estado de coisas. Talvez se tenham praticado actos de humilhação, sempre contraproducentes, e violências, sempre desnecessárias. Quanto teria sido melhor, se os vencedores tivessem procurado dignificar os vencidos, desde a primeira hora… Hoje, mais do que nunca, temos de ser, no nosso íntimo, apenas portugueses, orgulhosamente portugueses, com as nossas qualidades e os nossos defeitos, com a nossa mentalidade própria, diferente de todas as outras” (Ob. Cit., II, pp. 97-98).

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“A África é para a Europa uma questão de vida ou de morte. À expansão comercial e económica dos europeus só resta uma região no globo – a formada pelas terras de África” (Ibidem, p. 101).

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“Sou absolutamente partidário da liberdade religiosa e dos cultos, e sendo Portugal um país católico, será um tremendo erro perseguir a religião católica… Não poderá existir na Democracia portuguesa o menor vislumbre de poder clerical. As missões religiosas são absolutamente necessárias nos territórios portugueses de África” (Ibidem, III, p.55).

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“Notei desde logo que em Roçadas [Tenente-Coronel que comandava as tropas enviadas para o Sul de Angola em Setembro de 1914] predominava a convicção de que os alemães não desejavam ter connosco a menor contenda. Mais tarde verifiquei que era essa a convicção que predominava entre os oficiais expedicionários” (Ibidem, IV, p. 173).

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“Fiz embarcar para Lisboa todos os alemães que se encontravam em Angola e entre eles o cônsul e o vice-cônsul alemão e as tripulações dos navios alemães. Que deles fizessem lá o que quisessem. Apoderei-me dos navios alemães e das propriedades rurais alemãs. Reagi contra as ordens em contrário que me vieram de Lisboa” (Ibidem, pp. 221-222).

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“As expedições que desde o início da Grande Guerra mandámos para África e principalmente as que seguiram para Moçambique não podiam ter sido pior organizadas do que foram” (Ibidem, p. 228).

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“Não temos sabido ocupar e dominar em Angola. As nossas campanhas têm-se limitado à organização de colunas que infligem ao gentio revoltado, ou cujo território se quer ocupar, castigo mais ou menos severo, e que, terminada a sua missão militar, ganhos alguns combates, feitos alguns prisioneiros, mortos ou fusilados alguns indígenas, retiram e se dissolvem, deixando aqui e além um pequeno forte, mal artilhado e pior guarnecido, que o gentio em breve considera como inofensivo. A ocupação administrativa intensa, apoiada nos núcleos de forças europeias durante um longo período – cinco anos, pelo menos – a seguir à acção violenta e indispensável do combate, da destruição de culturas e povoações, do aprisionamento e do fusilamento dos chefes indígenas, tendo por fim a escolha e manutenção de chefes novos que saibamos transformar em criaturas absolutamente nossas, o desarmamento geral, a obrigação de trabalho remunerado em obras do Estado, a facilitação do angariamento inteiramente voluntário de trabalhadores, bem pagos, para trabalhos particulares, o recrutamento militar, o desenvolvimento agrícola e comercial da região, a cobrança do imposto de cubata e a transformação necessária do regime de administração militar, ou de capitania-mor, no regime de circunscrição civil, constituem um sistema racional de ocupação, apenas iniciado nos últimos anos, e que ia sendo posto em execução, só eu sei através de quantas dificuldades, de quantas relutâncias, de quantas resistências passivas” (Ibidem, pp. 253-254).

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“Se não fosse a minha situação de governador demissionário, teria… dado ordens terminantes… para a entrega de todas as armas dentro do prazo de dois meses, sob pena de recomeçar com mais violência na execução do severo castigo que em Dezembro de 1913 determinei se levasse a efeito em todo o distrito do Congo” (Ibidem, p. 257).

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“Todo este gentio devia ser desarmado, não se deixando nas suas mãos uma única arma, branca ou de fogo, confiscando-lhe a quasi totalidade do seu gado, como pagamento de contribuição de guerra e tendo em vista transformá-los de pastores guerreiros, que são, em agricultores pacíficos que devem ser, obrigando-os à construção de estradas que permitissem o trânsito de automóveis” (Ibidem, p. 268).

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