“Portugal não acabou. Tenho a certeza”

“O nosso século de grandeza vai de 1415 a 1515, da conquista de Ceuta à morte de Afonso de Albuquerque”

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O actual conflito na Ucrânia anuncia um confronto maior?

Pode degradar-se. Se não tivermos cuidado em reduzi-lo, isolá-lo e resolvê-lo, num diálogo aberto e franco com Moscovo, e reconhecendo que a NATO, com os seus entusiasmos pós-Guerra Fria e o seu apostolado democrático, perturbou o equilíbrio europeu às portas da Rússia, pode mesmo degradar-se. Não perceber que Putin não podia perder a Crimeia, é não perceber nada de História nem de Cultura da Europa e da Rússia.

Há quem fale numa nova Guerra Fria. Concorda?

Não. Na Guerra Fria, a União Soviética e os seus satélites queriam impor um modelo político-social ao resto do mundo e contavam com os partidos comunistas. Hoje não existe nada disso.

O papel dos EUA e da NATO como “polícias do mundo” está hoje fragilizado? Considera que a administração Obama mudou o paradigma norte-americano de actuação internacional?

Obama é, acima de tudo, um retórico que cultiva a forma. Tem uma oratória sedutora, mas, na maioria das vezes, ou até de conteúdos contraditórios, desprovida de conteúdo. Depois do apostolado democrático de George W. Bush, com as guerras do Iraque e do Afeganistão, perturbadoras, perdidas mas consequentes, Obama não quer nenhum tipo de intervenção.

Nessa medida, o caso da “linha vermelha” na Síria foi paradigmático e preocupante. O governo de Damasco trespassou-a e Washington aproveitou a intervenção russa para não cumprir o prometido. Há um modelo de “melhor governo”, a democracia liberal que os Estados Unidos conhecem e querem exportar, mas, ao mesmo tempo, há a preocupação de não correr o risco de ter guerras e de ter baixas. Como toda a contradição, numa grande potência, esta é preocupante.

Qual deve ser a posição de Portugal na força geopolítica que é a lusofonia?

Portugal está na posição, nem sempre fácil, de ser o pai ou a mãe que os outros, para se afirmarem, têm de matar ou, pelo menos, de tratar mal. Tem também, por força da História e da Geografia, condicionamentos constitucionais e políticos que os outros não têm.

Precisa, por um lado, de manter uma respeitabilidade de velho senhor, mas não pode dar-se ao luxo de, ao querer impô-la a todos, desencadear a crise e a ruptura.

E depois há o Brasil, muito grande para a CPLP, e que tem dificuldade em aceitar a igualdade de desiguais que ela pressupõe.

A importância das relações de Portugal com os países lusófonos deve sobrepor-se às relações europeias?

Fomos sempre – desde o século XV que o somos – europeus, marítimos e luso-africanos. Temos que equilibrar estas faces históricas, políticas e culturais da nossa realidade. A cegueira europeísta dos dirigentes da “jovem democracia” dos anos oitenta causou-nos muitos problemas. Hoje, na Europa, tem que se coexistir inteligentemente com outras faces e realidades do nosso modo de ser e estar no mundo. Equilíbrios estratégicos, coerentes e guiados por uma inteligente razão de Estado.

Como vê o papel da CPLP? É preciso outro modelo?

Os modelos são o menos. Este serve para fazer coisas boas, coisas más e coisas assim-assim. Até pode servir para não fazer coisa nenhuma. O importante é o espírito e a substância da política.

Há muitos países não-lusófonos que têm interesse na CPLP. A entrada da Guiné Equatorial pode anunciar uma nova fase desta organização?

A entrada da Guiné Equatorial foi polémica, como não podia deixar de ser. É bom ter capacidade e plasticidade para explorar novos caminhos, mas tem sempre que haver um certo decoro, um princípio director, algumas regras elementares. Dito isto, pode haver uma geometria variável de estatutos de participação a negociar e desenvolver, mantendo um mínimo ético de referência.

Voltando ao seu “Portugal – Ascensão e queda”, há um fio condutor que nos faz crer numa nova ascensão. Acredita que os defensores da “inviabilidade de Portugal” estão errados e que no futuro possamos afirmar-nos de novo como Nação?

Citando um português que muito admirei pelo seu patriotismo e pelo modo coerente e corajoso como viveu e defendeu as suas ideias, Alberto Franco Nogueira, não posso nem quero admitir um princípio de suicídio colectivo, a inviabilidade nacional.

Contra mim falo, ou contra o que fui em certo momento trágico da vida do país, no desfazer do Império, quando disse “Portugal acabou”. Penso que não acabou. Tenho a certeza. O que é interessante na modernidade é a prolixidade com que vemos reformularem-se e reformarem-se eternas categorias como o Bem e o Mal, o Útil e do Inútil, a Verdade e a Mentira e as possibilidades de recriação e renascimento quase das cinzas que se oferecem às comunidades. Vimos, há vinte e cinco anos, comunidades e nações da Europa Oriental submetidas e escravizadas pelo comunismo soviético, levantarem-se bruscamente, outra vez livres.

Com a lucidez de quem viu e viveu muitos desastres e tragédias, colectivas e pessoais, posso dizer que a esperança fica sempre, como aquela centelha esquecida no rescaldo da água e das cinzas, que animada, volta a pegar e a propagar o fogo. Caímos tão fundo, que as leis da física hão-de levar-nos para cima.