Getúlio Vargas também não consegue morrer

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Getúlio Vargas foi presidente do Brasil por 19 anos. Oito dos quais como ditadura, de 1937 a 1945, o que deu paz interna ao Brasil nos anos que antecederam e durante a Guerra Mundial.

Houve muita especulação sobre a demora do Brasil em romper com o eixo. Mas, neste episódio, não havia interesse no envolvimento no conflito – nem de Salazar, em Portugal, Franco, na Espanha, e Peron, na Argentina. No caso do Brasil, apenas os alemães se precipitaram e, para interromper o comércio com a Europa e os EUA, começaram a afundar navios mercantes, causando a revolta nos brasileiros.

Getúlio, que já havia autorizado o uso de uma base aérea em Natal, como Salazar tinha feito com os Açores, ao perceber que precisava reagir aos ataques alemães, negociou com os americanos e conseguiu o financiamento para a grande siderúrgica em Volta Redonda, até hoje a maior do país.

A declaração de guerra foi em 1942, mas os brasileiros só chegaram à Itália, para se incorporarem às forças americanas, sob o comando de Eisenhower, em Agosto de 1944. Foram dez mil brasileiros, do Exército e da Força Aérea, sendo que cerca de mil ficaram no campo de batalha.  O país foi, portanto, pouco atingido pela guerra e teve benefícios importantes para o seu processo de industrialização e aproveitamento de suas imensas reservas de minério de ferro.

Vargas, com muita sensibilidade e habilidade, foi aproveitando o que julgava moderno e socialmente importante para valorizar o trabalhador, retirou do governo de Mussolini, então cercado da admiração de parte do mundo, e instituiu as leis laborais no Brasil, tendo como base a Carta do Trabalho, a primeira legislação de protecção ao trabalhador, criada pelo dirigente italiano. Foi ainda o governo do Duce que inspirou a construção dos primeiros conjuntos habitacionais dedicados aos operários, especialmente no Rio de Janeiro.

Getúlio Vargas, como Salazar, só fez uma viagem ao exterior e, mesmo assim, de um dia, para visitar a vizinha Argentina – no caso português, a Espanha, de Franco. Mas o Brasil foi relevante na política das Américas e a diplomacia contou com notáveis entre os seus quadros. A criação da ONU teve, na sua primeira reunião, a presidência do brasileiro Oswaldo Aranha.

Getúlio viu notáveis homens públicos serem revelados nos anos em que liderou, especialmente nos estados, como no caso de Juscelino Kubitscheck, que foi prefeito nomeado de Belo Horizonte, quando levou para a cidade os traços de Oscar Niemeyer, no conjunto da Pampulha, por ele construído. JK depois foi eleito governador de Minas e presidente do Brasil. Em São Paulo, revelou aquele que, talvez, tenha sido o mais importante realizador do século passado, Ademar de Barros. Também inspirado em Mussolini, construiu as primeiras autoestradas brasileiras nos anos 1930, quando interventor nomeado por Vargas em São Paulo. Este homem, médico formado no Rio, com mestrado na Alemanha e residência na França, construiu o maior hospital do Brasil, o das Clínicas, em São Paulo, até hoje o maior do país, centro de referência, como são os institutos Emílio Ribas e Adolfo Lutz, também obras suas. No Estado do Rio, o seu assessor e genro Amaral Peixoto, depois eleito governador e senador por dois mandatos, realizou o que até hoje existe na região, a seu tempo com presença na agricultura inclusive.

A inteligência brasileira esteve no radar de Vargas. Foi eleito para a Academia Brasileira e, no seu tempo, o mundo editorial formou-se e consolidou-se. Apoiou a implantação da indústria do papel e celulose, no grande projecto, hoje de relevância mundial, da Klabin, que visitou, no Paraná, mais de uma vez.

Alvo de uma implacável campanha liderada pelo grande orador e agitador Carlos Lacerda, no mandato constitucional, Getúlio foi levado ao gesto extremo do suicídio para, como deixou escrito na sua carta-testamento, “sair da vida para entrar na história”. Mas entrou também no coração dos brasileiros mais humildes.

Vargas, vive na recordação dos brasileiros, desde os empresários que viram na sua política as bases do crescimento, inclusive com o banco de fomento BNDE, que teve o S de social acrescentado por José Sarney, aos mais humildes. Governou com austeridade e dignidade. E deixou a sua marca nas lideranças que fizeram a política brasileira nos 30 anos seguintes à sua morte.

O tempo tem-se mostrado propício para que, serenados os ânimos do momento, se faça o devido reconhecimento dos homens que a seu tempo fizeram história. ■