Estou quase a chegar. Até já vejo o aceno da outra margem e o rio já não é apenas uma paisagem muda, que o oiço cantarolar um ofertório de graças. Tenho a tentação de apressar o passo, mas percebo que o olhar me engana o horizonte, tanto e tão bem quanto a minha ânsia.
Estou mesmo a chegar, já vejo distintamente a ponte e os barcos já não são pequenos traços com velas. Avisto os resfôlegos dos remos e dentro deles umas figurinhas que o sol ofusca. Adivinho o espadanar e a orla de espuma sobre os seixos e o vaivém da água na areia que não tarda me vai ser chão.
Avisto o vale do outro lado e a serra verde, verde, que se recorta naquele fundo imenso e azul, repleto de asas – duas cegonhas valsam de regresso a casa e fazem-me procurar a chaminé arrefecida há mais de um século onde fizeram o ninho.
Trago os pés magoados e duas feridas latejam, aprimorando-me o compasso da passada como se trouxesse o coração nos pés e um mantra invulgar no corpo inteiro.
Apetece-me cantar ao ritmo das veias, mas não ouso porque tudo à minha volta entoa esse cântico dos cânticos que a natureza conhece bem melhor do que Salomão, que a noiva traz grinaldas nos cabelos, pombas no colo, romãs nas faces e mel de rosmaninho a celebrar-lhe os lábios.
O noivo, esse, tece sedas nas harpas do arvoredo, atapeta o átrio com flores de laranjeiras e recolhe orvalhos tisnados de zimbro e de avelãs para que ela neles se afague e se remoce.
Chega-me um som de um hino ou de uma súplica e um cheiro a alfazema tolda-me os sentidos para tudo o que não seja a percepção daquele aceno.
O cansaço toma-me, a luz ofusca-me e três árvores frondosas oferecem convites de sombra e refrigério. Hesito. Tenho tanta pressa de chegar… parar, assim tão perto?… está já ali mesmo o outro lado… mas, se não parar, será que chego?
Mas, se não parar, será que vivo?
O coração espanta-se-me no peito, os pulmões solfejam só poeira, a boca estiola-se-me de sede, os pés já se rasgam no arrasto. E as árvores ali e o rio além, tão perto, e o aceno a reclamar-me que me cumpra.
De súbito uma aragem. Um pio de mocho, ao longe, atrasa o tempo. Um campo de papoilas acorda a vista e um sino ecoa na distância as horas que não conto. Tiro do bolso um lenço e limpo o rosto.
Arranho as mãos nas silvas e como amoras, como quem percebe que a noite se anuncia. No lusco-fusco o aceno é um gesto branco e já oiço a cantilena dos barqueiros e já lhes vejo as boinas e já sinto nos pés o bálsamo da espuma.
Estou mesmo quase a chegar. Encosto-me, por míngua de um arrimo, às canas que as auras não vergaram. Nos pés, o coração ainda late e no corpo a pulsação ainda entoa. Levanto o braço todo num aceno de encontro ao aceno inteiro da outra margem.
Num ponto bem além do infinito, nesse Aleph que o Borges tão bem disse, as pontas dos meus dedos tocam as pontas dos teus dedos.
Estou a chegar… estou a chegar… amanhã… amanhã… talvez haja amanhã…. Shhhhh…




