O descalabro

“O primeiro-ministro apenas quer salvar a sua imagem, enquanto se manda profissionais de saúde trabalhar sem terem testado negativo, para acabar de infectar mais gente. Não se fazem cercas sanitárias, não se alteram horários de forma a desfasar entradas e saídas, não se reforçam os transportes públicos e, pior de tudo, não se percebe que o serviço nacional de saúde vai saturar e colapsar dentro de pouquíssimos dias”

A gestão da pandemia de COVID-19 por parte do governo trouxe-nos a uma situação terrível, com dezenas de mortos por dia, sempre a subir até ao Natal, se novas medidas severas não forem tomadas imediatamente. 

Depois de um confinamento terrível, acabámos por relaxar as medidas de protecção da população mais vulnerável, sobretudo os idosos dos lares. Visto agora à retrospectiva, o discurso vergonhoso de Marcelo Rebelo de Sousa a 16 de Abril, em que teve o desplante de falar do “milagre” português, foi tremendamente contraproducente, deu uma falsa sensação de segurança e foi o sinal para o descalabro que se vive hoje. 

Recordamos as palavras do presidente desta miserável república: “Estamos a ganhar a segunda fase [do combate à pandemia]. Se isto é um milagre, o milagre chama-se Portugal”.

Era evidente que celebrar vitória nesta altura de Abril era prematuro, como não existia qualquer segunda fase: a segunda fase está a acontecer agora, como qualquer estudioso do assunto e conhecedor da história das epidemias poderia ter percebido imediatamente. 

Todas as grandes pandemias da história tiveram diversas vagas; o presidente e os seus conselheiros deveriam saber isso. Sacrificámos as pessoas, a economia, as poupanças da segurança social, onde a almofada de 10 anos para pagar reformas e pensões desapareceu alegremente em poucos meses. Isso foi feito em nome do combate à pandemia. 

Mas depois o que aconteceu? Não fomos consequentes, a paciência das pessoas foi testada e não resistiu, o governo não soube dar o exemplo, protestaram ministros contra a cerca feita a Portugal pelos ingleses, como se as hordas de turistas infectados com COVID-19 fossem indispensáveis ao país e não, pelo contrário, um foco de infecção que acabaria por arruinar o resto da economia que não desapareceu em Março e Abril de 2020. 

Os agentes económicos pediram abertura, abriu-se. Foram primeiros de Maio, foram festas do Avante, foram Fátimas, Touradas, Futebóis, restaurantes, festas e festinhas, borgas e borguinhas, festas de estudantes e feiras populares, feiras do livro e políticos na rua, alegremente apelando ao desconfinamento.

Um vírus não é sensível a campanhas de marketing. O povo engana-se com publicidade, com papas e bolos se enganam os tolos, mas o vírus SARS COV-2 não se deixa enganar pela propaganda, não tem cérebro, nem sequer é um ser vivo, é apenas material genético que se aproveita da fraqueza das nossas células para se replicar até nos destruir. 

Os discursos inflamados dos políticos não resultam contra um vírus. O habitual esquema da manipulação dos números, do maquilhar dos desastres, a conversa para a qual os políticos estão treinados não funciona quando acontecem grandes catástrofes, e estamos na presença de uma grande catástrofe. Agora pouco há a fazer para a evitar.

Pouco há a fazer para lutar pela defesa dos mais idosos e dos menos idosos que vão morrer aos milhares neste Inverno.

A estratégia do governo e do presidente, de uma insensibilidade atroz, é a de deixar correr a pandemia, tentar salvar o défice e esboçar uma campanha de culpabilização dos portugueses, tentando salvar a face arranjando bodes expiatórios em culpas externas, em calamidades impossíveis de conter.

As medidas do tipo que têm sido tomadas recentemente em Portugal não vão evitar o descalabro semelhante ao de Itália, Espanha ou Suécia nos primeiros tempos da pandemia.

São medidas que vão, todas, no sentido de deixar espalhar ao máximo a pandemia. Os decisores sonham que isto seja feito de forma controlada, mas enganam-se: estamos na presença de um fenómeno exponencial. Querer apagar o fogo com uma proibição de viajar entre concelhos a um fim-de-semana é simplesmente anedótico.

Enganam-se, também, os que pensam que a pandemia pode ser controlada apenas pela vontade e comportamento das pessoas. Sem uma organização, sem sistemas de informação, sem uma direcção firme e, neste caso, centralizada, como Ricardo Jorge combateu a gripe espanhola e as últimas vagas de peste, não se consegue vencer um vírus muito silencioso. 

Durante os meses de acalmia entre a primeira vaga, que nunca se extinguiu completamente, e a segunda, pouco ou nada foi feito; parece que os políticos estavam à espera do “segundo milagre português”. Todavia, os milagres dão muito trabalho a realizar, como provou a primeira-ministro de Nova Zelândia, Jacinta Ardern.

Deixar correr eventos como a fórmula 1
em Portimão com medidas de segurança, mais uma vez, anedóticas, e proibir as pes-
soas de irem homenagear os seus mortos no próximo fim-de-semana é uma contradição imoral que roça a obscenidade.

Tudo é contraditório, sem direcção, sem método, sem informação séria e coerente. O primeiro-ministro apenas quer salvar a sua imagem, enquanto se manda profissionais de saúde trabalhar sem terem testado negativo, para acabar de infectar mais gente. Não se fazem cercas sanitárias, não se alteram horários de forma a desfasar entradas e saídas, não se reforçam os transportes públicos e, pior de tudo, não se percebe que o serviço nacional de saúde vai saturar e colapsar dentro de pouquíssimos dias.

Enfim, a grande descrença que tínhamos nestes políticos e nesta directora-geral de Saúde tem aumentado cada dia que passa e não tem qualquer retorno possível.

Numa situação em que alucinados irresponsáveis, a par dos terraplanistas e dos negacionistas do COVID, onde até pontificam pessoas com conhecimentos como a matemática Gabriela Gomes e outros, têm mais tempo de antena do que os responsáveis que deveriam ser o exemplo e o farol para toda a sociedade, pouco há a fazer para além de usar as máscaras de má qualidade que os chineses põem em Portugal enquanto o vírus continuar a memória viva da sociedade.

Estamos entregues aos bichos. Resta a vã esperança de um verdadeiro milagre de Fátima e rezar pelo aparecimento da vacina em quantidades industriais que não seja desviada pelos países mais ricos. Tudo o resto, neste momento, é inútil sem medidas a sério. ■

- Advertisement -spot_img
- Advertisement -spot_img

Últimos artigos