Portugal, a Europa e a guerra

HENRIQUE NETO
HENRIQUE NETO
Henrique José de Sousa Neto é um empresário e antigo deputado à Assembleia da República, eleito pelo Partido Socialista.

Depois da guerra de 1939-1945 a Europa viveu um longo período de paz, uma paz garantida pelos vencedores através das instituições então criadas para o efeito, como é o caso da ONU – Organização das Nações Unidas. De facto, a paz na Europa deveu-se todo estes anos aos regimes democráticos e ao poderio militar conjunto dos Estados Unidos e dos países europeus, Além das restantes democracias, que durante mais de meio século souberam em conjunto gerir com sabedoria o extremismo soviético.
Durante este longo período existiram erros evitáveis, nomeadamente da parte dos Estados Unidos, como o caso do Vietnam e do Iraque, como da Europa no caso da ex-Jugoslávia, mas sempre resultou claro que as ameaças de guerra resultavam principalmente dos regimes de ditadura. Anos em que a NATO se manteve como uma aliança defensiva, e se cresceu com o tempo isso deve-se principalmente a haver países inseguros relativamente aos seus vizinhos, em particular a Rússia.
Existe hoje muita gente que racionaliza as razões da invasão da Ucrânia pela Rússia como devidas à aproximação da NATO às fronteiras russas e que tal avanço pudesse colocar em causa a soberania e a independência da Rússia.
Como é óbvio, trata-se de uma falácia cujo objetivo é justificar o militarismo russo, o atraso económico e social do país e as suas fragilidades políticas relativamente aos países democráticos. Porque vejamos:
1- Quem se atreveria a atacar um país que possui o maior arsenal nuclear do planeta?
2- Como se sabe, a NATO durante todos estes anos nunca atacou nenhum país, ou mesmo exerceu qualquer pressão sobre os países de fora da aliança.
Os países que aderiram à NATO fizeram-no de livre vontade por decisão dos seus Parlamentos, isto é, por decisão democrática dos povos.
Podemos, pois, concluir sem margem para dúvida, para além da habitual demagogia dos sectores políticos da permanente certeza, que as guerras resultam quase sempre dos regimes políticos de ditadura, onde a opinião dos povos não é considerada, e são as democracias que lhes sofrem as consequências.
O caso da guerra da Ucrânia é um exemplo evidente, porque não há dúvida de que o governo da Ucrânia foi escolhido pelo seu povo em eleições livres e que o regime russo, apesar do periódico simulacro de eleições, é uma ditadura com prisões e assassinatos dos líderes oposicionistas.
Dito isto, também não é possível duvidar de que o presente ataque ao Irão é obra de um louco eleito democraticamente, como o foram antes as guerras do Afeganistão e do Iraque em que a democracia americana é hoje um campo de batalha entre os apoiantes de Donald Trump e as instituições democráticas do País.
Como também não há dúvida da dimensão antidemocrática dos regimes da Venezuela, do Afeganistão, do Iraque, da Coreia do Norte, de Cuba e agora do Irão, bem como do sofrimento que esses regimes provocaram e provocam aos seus próprios povos, o que, todavia, não justifica a guerra.
Foi por isso mesmo que as democracias vencedoras da ditadura hitleriana criaram a ONU, para gerir os conflitos entre os povos e defender a Paz e a Democracia no planeta. Ou como herdámos de Winston Churchill: a democracia é ainda o menos mau de todos os regimes políticos.
O que pretendo com este texto é apenas fazer a demonstração de que é através de mais democracia e do método de negociação democrática que podemos reduzir os perigos constituídos pelas ditaduras de um homem só, como das ditaduras de uma classe política organizada, como foi o caso da União Soviética e é hoje o caso da China. Igualmente, é ainda na ONU e na negociação que podemos colocar a nossa esperança de paz nas nossas vidas e de fazer recuar todas as formas de fanatismo, tanto político como religioso.
Dito isto, não há dúvida do perigo que Donald Trump representa para a democracia americana e para as democracias de todos os países, nomeadamente da União Europeia. Acredito, contudo, no poder das instituições democráticas dos Estados Unidos para vencer tanto as guerras internas como as externas, provocadas por Donald Trump.
A União Europeia não pode ter dúvidas sobre isso, nomeadamente na defesa da democracia ucraniana e sobre o método de negociação suportado na capacidade militar europeia contra os perigos constituídos pelos regimes de ditadura. Ao fazê-lo defendemos os povos europeus, tanto quanto defendemos os povos de todo o mundo. ■

Notas: no meio da enorme confusão geoestratégica que abala o planeta, temos também pela frente as diversas confusões caseiras que abalam a democracia, desde o julgamento de José Sócrates às leis do trabalho, da saúde à incapacidade de os partidos políticos chegarem a acordo no Parlamento sobre aa nomeações para cargos de algumas instituições, como é o caso do Tribunal Constitucional.

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