Seguro não é moderação. É método

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Chamam-lhe moderação, mas é método. Um método testado, eficaz e com memória histórica suficiente para não poder ser tratado como coincidência. António José Seguro não representa um risco pelo que diz, mas pelo que permite: a utilização de Belém como instrumento político para reconfigurar o poder e devolver o socialismo ao centro do regime, com luvas brancas e discurso conciliador.

A história recente portuguesa oferece um precedente demasiado claro para ser ignorado. Também Jorge Sampaio chegou à Presidência envolto em consensos, brandura institucional e promessas de neutralidade. O resultado foi tudo menos neutro: a partir de Belém, um governo legítimo em funções foi derrubado e abriu-se caminho a uma hegemonia socialista que durou mais de uma década. Chamaram-lhe responsabilidade institucional. Na prática, foi engenharia política com selo presidencial.

Seguro surge como a segunda edição desse mesmo guião. Não para governar, mas para condicionar. Não para confrontar, mas para preparar terreno. Belém deixa de ser símbolo de equilíbrio e passa a ser plataforma estratégica. O método não é novo — apenas mais discreto, mais aceitável e, por isso, mais perigoso.

O que verdadeiramente desconcerta, porém, é a atitude de setores da Direita. O apoio — explícito ou envergonhado — a Seguro, revela não pragmatismo, mas desistência ideológica. Votar ao lado da esquerda não é maturidade democrática, é insanidade política. É abdicar dos próprios valores em nome de um consenso confortável, mediaticamente premiado e politicamente estéril.

Esta Direita domesticada confunde convergência com virtude e capitulação com responsabilidade. Prefere ser aceite a ser alternativa. E depois surpreende-se quando deixa de representar quem nela vota.

Entretanto, André Ventura continua a ser tratado como ameaça à democracia. A acusação é conveniente, mas intelectualmente desonesta. Ventura não é antidemocrático; é um produto acabado do processo democrático. Surge precisamente onde a Direita deixou de existir e onde o eleitor deixou de se sentir representado. Não ameaça o regime — expõe-lhe as fissuras. E isso incomoda muito mais do que qualquer rutura declarada.

O verdadeiro perigo para a democracia não está no confronto político — esse ainda exige ideias, coragem e convicções. O perigo reside na convergência permanente, nesse abraço pegajoso onde esquerda e Direita votam juntas e depois fingem surpresa quando o eleitor já não distingue ninguém. Chamam-lhe maturidade; na prática, é desistência com pose institucional.

Quando todos se entendem em nome do consenso, alguém fica sempre sem representação. Mas não faz mal: dir-nos-ão que é para o bem da democracia. E enquanto Belém sorri, a Direita aplaude e o socialismo agradece, resta ao eleitor aprender a lição que insiste em ser ignorada — em política, os beijos moderados costumam ser os mais venenosos.

Beijinhos D´O Diabo