Precisamos de uma Europa independente (dos EUA)

Tiago Matos Gomes
Tiago Matos Gomes
Tiago Matos Gomes é especialista em Comunicação, formado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou quase duas décadas no Diário de Notícias, onde foi redactor e editor, assumindo papéis de destaque neste jornal centenário. Europeísta convicto e conhecido defensor do federalismo europeu, foi fundador e presidente do Volt Portugal, partido pelo qual se candidatou à presidência da Câmara de Lisboa em 2021 e à Assembleia da República em 2022. Neste mesmo ano deixou o Volt para criar o Partido Democrata Europeu, prosseguindo o seu compromisso com uma Europa mais integrada, democrática e soberana.

O que é ser patriota em 2025? O que significa amar e defender Portugal no mundo de hoje? Claramente, já não é – nem pode ser – da mesma forma que em 1965 ou em 1985. Num mundo globalizado, marcado por riscos difusos, inimigos próximos e ameaças tecnológicas que ignoram fronteiras, a defesa da nossa liberdade e da nossa cultura só pode ser feita dentro de um quadro europeu robusto. Ser patriota, em 2025, é perceber que a soberania portuguesa só se preserva através do reforço estratégico do poder europeu.
Vem isto a propósito do quase total abandono dos Estados Unidos relativamente à Europa, evidente no documento publicado há uma semana pela Casa Branca, o National Security Strategy. Nele se lê, preto no branco, que a Europa deve tratar da sua própria segurança, ao mesmo tempo que se pede que os mercados europeus se mantenham, ou se tornem ainda, mais abertos aos produtos norte-americanos. A mensagem é clara: deixem a defesa para vocês, fiquem o consumo para nós.
O mesmo documento tece críticas duras às políticas europeias de imigração e a medidas associadas à regulação do espaço digital, como o combate ao discurso de ódio e à desinformação. Washington interpreta-as como limites injustificáveis à “liberdade de expressão”, ignorando que a Europa procura equilibrar direitos individuais com protecção democrática. Mais surpreendente ainda é a referência explícita à ascensão dos partidos de extrema-direita na Europa, que a Casa Branca qualifica como motivo de “optimismo”, considerando-os aliados naturais da actual estratégia norte-americana. Não pode haver maior aviso.
Perante isto, que deve fazer a Europa? O que faz um continente quando a administração norte-americana quer, por um lado, deixar de sustentar a defesa europeia e, por outro, apoiar forças políticas que pretendem destruir o próprio projecto europeu? A resposta não pode ser complacência nem ingenuidade. É evidente que os Estados Unidos não querem uma Europa forte: seria mais um concorrente económico, político e militar. E isso colide com os seus interesses estratégicos. Não desejam um parceiro, desejam um continente dócil.
Entretanto, deste lado do Atlântico, continuamos alegremente instalados na nossa condição de colónia cultural. Consumimos marcas norte-americanas, séries norte-americanas, filmes, música norte-americana e redes sociais norte-americanas, como se o mundo só existisse na projecção cultural dos EUA. Esta admiração infantil, herdada do pós-guerra e reforçada pela hegemonia mediática norte-americana, está tão entranhada em nós que, só por apontarmos esta dependência, logo surgem acusações de censura ou anti-americanismo primário. Não é disso que se trata, trata-se de lucidez.
Está na hora de a Europa e os europeus despertarem para a necessidade de um patriotismo continental. Um patriotismo que não nega as pátrias, mas que as protege através da união. Basta lembrar que a União Europeia tem cerca de 450 milhões de habitantes, contra os 330 milhões dos EUA. E que, contabilizando toda a Europa sem a Rússia, ultrapassamos os 600 milhões. Uma eventual federação europeia seria o terceiro maior país do mundo em população, após a Índia e a China, com uma economia comparável à dos EUA e com uma capacidade científica, tecnológica e cultural sem precedentes. É isto que inquieta Washington.
Não é por acaso, também, que os EUA nunca olharam com entusiasmo para o euro e que desconfiam profundamente de um aprofundamento federal. Dentro da Europa, há até quem faça o jogo combinado de Washington e Moscovo, atacando a integração europeia por razões que variam entre o oportunismo eleitoral e o puro nacionalismo míope. Também a Rússia não deseja uma Europa forte: uma União capaz politicamente, robusta militarmente e assertiva diplomaticamente seria um obstáculo a qualquer ambição russa no continente.
A resposta ao quase ultimato implícito no National Security Strategy é simples e urgente: mais Europa. Mais integração. O caminho natural, que devia ter sido iniciado logo após a criação do euro, é claro: uma União Federal da Europa. Não avançámos porque faltou coragem às lideranças europeias, sempre receosas das opiniões públicas e do cálculo eleitoral imediato. Mas uma liderança que teme o eleitorado não merece liderar.
É urgente democratizar a União: eleger um Presidente Europeu; ter um Governo Europeu resultante das eleições europeias; criar um Senado Europeu onde todos os Estados tenham voz equilibrada; avançar para umas Forças Armadas Europeias, capazes de garantir a defesa comum; e instituir finalmente um Ministério dos Assuntos Exteriores europeu que fale pelos 27 com autoridade real. Esta arquitectura não elimina os Estados, reforça-os, protege-os e capacita-os num mundo onde ninguém, isoladamente, vale grande coisa.
E cada um de nós tem uma responsabilidade individual: devemos consumir mais produtos europeus, ler autores europeus, ver cinema europeu, ouvir música europeia. Precisamos de contrariar um condicionamento cultural que nos foi sendo imposto desde o fim da II Guerra Mundial. Ser patriota, hoje, é lutar por uma Europa soberana, respeitada e capaz de se defender.
Quem não entender isto, não entende absolutamente nada.

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