Não é PR quem quer, mas sim quem pode

Claudio Fonseca
Claudio Fonseca
Consultor político e podcaster no Podcast Conversa

Num país onde o cargo de Presidente da República deveria ser o expoente máximo da representatividade, da visão estratégica e da capacidade de unir uma nação, olhamos para o leque de potenciais candidatos e somos confrontados com uma realidade desoladora. Não é Presidente da República quem quer, mas sim quem pode. E, ao que tudo indica, poucos podem.

Gouveia e Melo: o fenómeno das sondagens
O Vice-Almirante Henrique Gouveia e Melo emergiu como uma figura central no cenário político nacional, especialmente após a sua actuação na coordenação do plano de vacinação contra o Covid-19. Sondagens recentes indicam-no como favorito na corrida presidencial, com um potencial de voto de 57%, segundo um estudo da Pitagórica para o JN, TSF e TVI/CNN. No entanto, é crucial questionar a gestão logística de uma campanha de vacinação, o seu mérito só se evidenciou devido à má gestão e corrupta do Partido Socialista, de resto Gouveia e Melo foi dizer para onde iam os “packs”; se isso surpreende alguém, a mim isso não surpreende, qualquer dona de casa é capaz de fazer essa tarefa nos lanches dos filhos. O que fez ele de extraordinário? Não é uma epopeia heróica, mas uma tarefa administrativa e operacional que qualquer oficial de logística competente poderia ter desempenhado. A sua ascensão meteórica na opinião pública deve-se menos à substância do seu trabalho e mais à forma como foi vendida mediaticamente. Um herói fabricado, celebrado até em galas televisivas, como se tivéssemos assistido a um feito épico. Será que, em encontros com Chefes de Estado, o seu ar de “Generalíssimo” irá impressionar ou apenas evidenciar uma falta de diplomacia, tal como vimos em regimes onde o poder militar suplanta a inteligência política?
A sua visão política para o país permanece nebulosa. Quer “pôr o país a toque de caixa”, mas o que significa isso num contexto democrático? Liderar não é comandar tropas, é inspirar uma nação diversa e complexa. Será que Gouveia e Melo entende isso, ou será um líder que confunde disciplina com autoritarismo?
A presidência exige uma visão política abrangente, capacidade diplomática e uma compreensão profunda dos desafios sociais e económicos do país. Será que Gouveia e Melo possui esta visão ou limitar-se-á a uma abordagem tecnocrática e disciplinar?

André Ventura: o populismo gasto
André Ventura, líder do Chega, mantém-se como uma presença constante no debate político. Contudo, a sua retórica populista e divisiva parece estar a perder o impacto inicial. Sondagens indicam que Ventura surge com 16% das intenções de voto, posicionando-o como o segundo candidato mais forte. No entanto, a sua abordagem centrada em polémicas e a falta de propostas concretas para os problemas do país levantam dúvidas sobre a sua capacidade para exercer a magistratura suprema. A liderança de uma nação requer mais do que presença mediática; exige substância, integridade e uma visão unificadora.
Ventura já não surpreende, já não impacta. Fugiu de um confronto directo comigo no “Podcast Conversa”, nas Presidenciais de 2021, mostrando que o seu suposto destemor é, afinal, selectivo. É um político que prefere coreografias no “TikTok” e caçar “likes” do que apresentar soluções concretas. O rolo compressor que prometia ser transformou-se numa engrenagem gasta, dependente de oponentes fracos para parecer relevante.
Além disso, a sua estratégia de comunicação está esgotada. O discurso do “contra tudo e contra todos” tem um prazo de validade e Ventura já o ultrapassou. Em vez de evoluir, repete-se, agarrado a chavões que já não mobilizam como antes. O país precisa de líderes que construam, não de políticos que apenas sabem destruir.

Marques Mendes: o comentador político
Luís Marques Mendes, ex-líder do PSD e actual comentador político, é apontado como um possível candidato presidencial. Contudo, a sua carreira política é marcada por derrotas eleitorais e uma presença mediática que, embora constante, não se traduz em realizações significativas. Uma sondagem da Pitagórica indica que, numa hipotética segunda volta, Gouveia e Melo venceria Marques Mendes por 51% contra 30%. A presidência exige uma liderança assertiva e uma capacidade comprovada de mobilizar e inspirar a nação, características que parecem faltar a Marques Mendes.
Um nome que ressoa mais por estar presente nos ecrãs da televisão do que por feitos concretos na política. Um líder que perdeu eleições, um comentador que falha previsões com mais frequência do que acerta, alguém cuja relevância política se sustenta no espaço mediático, não no mérito. A sua carreira é um eco pálido do estilo de Marcelo Rebelo de Sousa, sem o carisma nem a agudeza intelectual.
Além disso, o seu papel enquanto comentador coloca em causa a sua isenção e capacidade de liderança. Alguém que passou anos a analisar e criticar o trabalho dos outros terá a capacidade de fazer diferente? Ou será apenas mais do mesmo, mascarado de “experiência”?
Precisamos de um líder que se imponha naturalmente, não de alguém que precise de uma cadeira especial para se sentar à mesa dos grandes líderes mundiais.

 

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