diaboHUGO NAVARRO

PARTE I
PARTE III

Muitos talvez não soubessem que o Presidente do Conselho guardava todos os papéis que lhe enviavam – e que um dia alguém haveria de encontrar, entre o pó dos arquivos, as suas cartas pedindo empregos ou dinheiro, metendo empenhos, confessando o seu apoio entusiástico ao Estado Novo ou dizendo mal dos rivais…

Embaixador reformado, Fernando de Castro Brandão é autor de extensa obra historiográfica e cronológica, a que O DIABO se tem gostosamente referido. Sobre o antigo Presidente do Conselho publicou já “António de Oliveira Salazar/Uma Cronologia”, “Salazar/Citações” e “Salazar/Uma Bibliografia Passiva”. O seu último livro, “Cartas Singulares a Salazar”, saiu em edição do Autor e é distribuído pela Europress.

O tom das cartas compiladas por Fernando de Castro Brandão é invariavelmente obsequioso, com a excepção dos raríssimos que com Salazar tinham intimidade ou à-vontade. A grande maioria dos remetentes subscreve-se “admirador de sempre”, “muito devotado, dedicado e gratíssimo”, “atento, venerador e obrigado”, “humilde servidor”, “admirador certo”, “muito afeiçoado”, “seu devoto”. Quase todos protestam “a mais alta consideração, respeito e lealdade”. Falsa ou verdadeira…

Uma boa parte das “Cartas Singulares a Salazar” é constituída por agradecimentos, pedidos e “cunhas”, uns mais descarados do que outros. Alguns casos:

  • O pianista e compositor Vianna da Motta, que ficara com uma reforma de 811 escudos, pede em 1940 a Salazar “a concessão dum benefício análogo ao que V. Exª generosamente dispensou a Mestre Columbano” Bordalo Pinheiro.
  • Lente de Direito e antigo colega de Salazar em Coimbra, Paulo Merêa escreve-lhe em Maio de 1934 dando conta de que oferecera a biblioteca musicológica de seu pai ao Conservatório Nacional – e pedindo-lhe que o Governo contribua para as despesas logísticas com 12 contos de réis.
  • “Por conhecer a grandeza de coração de V. Exª”, o locutor Fernando Pessa pede a Salazar “o favor de apadrinhar” o seu desejo de obter “uma eventual colaboração” nos programas da Emissora Nacional. Em Fevereiro de 1954.
  • O historiador João Ameal escreve a Salazar em 17 de Dezembro de 1934. Por entre muitos circunlóquios e mesuras, lá chega ao que pretende: “meter uma cunha” para voltar a escrever editoriais no jornal governamental ‘Diário da Manhã’, em vez de ficar confinado a “uma simples e obscura colaboração literária”. Numa outra carta de duas décadas mais tarde, o tom de Ameal mantém-se, mas o objectivo é ainda mais prosaico: tendo sido afastado da Comissão Executiva da União Nacional (que Salazar pretendia entregar a gente mais nova), o Visconde do Ameal declara-se “ainda com energias para prestar outros serviços”, desde que possa “assegurar a minha vida e a dos meus”. E pede implicitamente uma reforma: “No caso de V. Exª encontrar qualquer função […] que me liberte desta estiolante escravatura quotidiana, muito apreciaria que se lembrasse de mim”, já que “tenho certo direito moral a outra espécie de aposentação”.
  • O engenheiro químico Charles Lepierre, que longamente viveu em Portugal (“minha segunda Pátria”) e cujo nome seria dado ao Liceu Francês, escreve em Novembro de 1937 a Salazar agradecendo a pensão vitalícia que lhe fora atribuída pelo Governo. Faleceria oito anos depois, na Lisboa que tanto amava.
  • Pretensão mais inusitada apresenta, em Novembro de 1965, o editor e livreiro portuense Edgar Lello: pede o empenho de Salazar para que o falecido sogro possa, como deixara expresso no leito de morte, ser enterrado junto à Barragem do Carrapatelo.

Quem diria?

Os elogios políticos e as declarações de lealdade a Salazar são constantes. Três cartas típicas:

  • Em 1935, o capitão Henrique Galvão era Inspector Colonial, director da Emissora Nacional e deputado (só 20 anos mais tarde descobriria a sua incompatibilidade com o regime, passando-se com estrondo para a Oposição). Em Outubro daquele ano, escrevia a Salazar: “Não quero deixar de manifestar a V. Exª, perante a surda campanha de boatos e intrigas que se tem levantado, os meus mais calorosos aplausos pela política de V. Exª, única que tem valor e pode conduzir este país ao rumo que nos convém. Fazendo pois os melhores votos pela conservação de V. Exª no alto posto que ocupa para bem da Nação, subscrevo-me com a maior consideração, muito atento admirador e obrigado”.
  • Nos anos 50, o escritor e ensaísta António Sérgio procurava captar subtilmente o Presidente Craveiro Lopes para o lado oposicionista. O Chefe do Estado desabafava com Salazar, em Agosto de 1954: “Também sou da opinião que nada se ganha em manter correspondência particular com os senhores da oposição. O Senhor Sérgio tem uma maneira especial de se aproximar. Velha raposa e matreiro, quase que é ‘terno’ ao evocar um vago passado de marinheiro, mas como obtém resposta, vá de por à mostra o continuado rosário das suas gastas – mas sempre eruditas! – ideias políticas. Em tempos também me escreveu uma missiva, alegando antigas ligações das nossas famílias, mas eu não respondi”…
  • O Conde de Barcelona (avô do actual Rei de Espanha), que estava exilado em Portugal por discordar da política do Generalíssimo Franco, concordava contudo com a de Salazar, como se percebe na carta de Fevereiro de 1961. Nessa missiva, o Conde de Barcelona felicita o Presidente do Conselho “pela serenidade e prudência”, “valor e firme energia”, “insuperável autoridade moral”, “lucidez e eficácia”. E confessa estar “a seguir de forma apaixonada as incidências da luta de Portugal contra a conjura internacional que pretende a secessão dos seus territórios ultramarinos”.

 

D. Juan de Borbon
D. Juan de Borbon

Sem adulações

Nem todos os correspondentes de Salazar se limitavam a adular ou a pedir. Em algumas missivas encontra-se nobreza ou altruísmo. Por exemplo:

  • O padre Américo, activista da Sopa dos Pobres e das Casas do Gaiato, escreve em 7 de Janeiro de 1948 pedindo ajuda para as suas obras solidárias e convidando Salazar a visitá-las. Diz o padre Américo: “Se vier de surpresa, melhor conhecerá a Obra. Se me não encontrar, mais me ficará a conhecer”. E, com a sobriedade dos grandes, subscreve-se apenas “respeitosamente”.
  • Em carta de Setembro de 1945, o matemático Diogo Pacheco de Amorim alerta lealmente Salazar, seu antigo colega em Coimbra, para a necessidade de aumentar os salários dos funcionários públicos mais humildes.
  • A grande actriz Palmira Bastos agradece, não algum favor que Salazar lhe tenha feito, mas o facto de o Presidente do Conselho se ter associado a uma homenagem pública à memória do Rei D. Carlos. Monárquica convicta, Palmira recordava em carta de Setembro de 1963: “Tive a honra de privar com a nossa Família Real, a quem fiquei devendo provas de carinho e de estima que nunca se apagaram do meu coração”.
  • O escritor Júlio Dantas, que alguns acusavam de ser apenas uma figura decorativa na vida pública portuguesa, mostrava em carta de Agosto de 1955 a rectidão do seu carácter – ao interceder por um oposicionista junto de Salazar. Tratava-se do insigne médico e professor catedrático Fernando da Fonseca, que fora exonerado de cargos públicos na sequência das suas actividades contra o Estado Novo. Pergunta Júlio Dantas: “Vossa Excelência – vontade forte que tudo pode, coração sensível que tudo compreende – levar-me-á mal se eu lhe solicitar o favor da sua benevolência e do seu alto patrocínio para este meu amigo, o maior clínico português do nosso tempo, que eu tanto desejaria ver restituído à cátedra de que as circunstâncias o afastaram?”. E conclui: “Confio no seu coração magnânimo e na infinita bondade com que sempre me ouviu, atendeu e tratou”.

 

Júlio Dantas
Júlio Dantas

 

  • Kaúlza de Arriaga, que acabara de demitir Humberto Delgado da Força Aérea, sugere a Salazar que “o filho do ex-General, capitão piloto aviador, que se tem comportado muito bem, seja designado para a TAP”. Assim, “o aumento de vencimento reporia os meios de vida” afectados pela demissão do pai. A carta de Kaúlza é de Junho de 1960.
  • Horácio Assis Gonçalves foi o primeiro secretário particular de Salazar, tanto no Ministério das Finanças como na Presidência do Conselho. Tendo-se depois retirado para Vila Real, os dirigentes locais da União Nacional, talvez para ficarem bem vistos aos olhos do Presidente do Conselho, insistiam com Assis Gonçalves para que aceitasse ser deputado. Este escreve a Salazar em Novembro de 1934, dando conta das pressões e rejeitando sinecuras: “Tudo isto para dizer a V. Exª que não quero ir para o Parlamento”. E não foi!

Discurso directo

Poucos podiam gabar-se de poder escrever a Salazar sem os salamaleques do costume. Casos interessantes:

  • O Duque de Palmela, então proprietário do Convento da Arrábida, informa Salazar de que instalou um portão na estrada de acesso à propriedade, remetendo-lhe cópia da chave para que usufrua à sua vontade das magníficas vistas do local. Com a mesma carta de Fevereiro de 1955 seguem quatro queijinhos de Azeitão, que “devido ao tempo anormal de chuva e falta de frio, só agora estão razoáveis”.
  • O Conde de Stucky de Quay não se conforma com as pudicas leis portuguesas sobre a indumentária permitida nas praias. E desabafa com Salazar, em Agosto de 1951: “Como a Lei não foi revista, terei de passar as minhas férias em Biarritz, onde toda a gente pode tomar banho sem o cabo do mar às costas. Turismo em Portugal!…”.
  • A fadista Amália Rodrigues, empolgada com a grandeza da Ponte Salazar (hoje “25 de Abril”), acabada de inaugurar, escreve ao Presidente do Conselho em Agosto de 1966: “Não resisto à vontade que tenho de lhe gritar o meu bem haja! O meu orgulho e o de todos os portugueses é quase tão grande e tão bonito como a Ponte!”.
  • O cineasta francês François Truffaut, que filmara em Lisboa as primeiras cenas do seu filme “La Peau Douce”, escreveu a Salazar pedindo directamente que fosse levantada a proibição de exibição da película em Portugal. “Compreendo perfeitamente que para a apresentação em Portugal será oportuno praticar cortes e ajustamentos no filme”, escreve Truffaut, “mas a interdição total afigura-se-me demasiado severa tendo em conta que as palavras do filme são extremamente elogiosas em relação a Portugal e à sua hospitalidade”. Carta de Setembro de 1964.
  • Já é conhecida, mas vale sempre a pena transcrever a carta que o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, amigo desde a juventude, enviou a Salazar nas vésperas do 79º aniversário do Presidente do Conselho, em Abril de 1968 (escassos meses antes da fatídica queda que o afastaria do poder): “António, não quererias dar-me as tuas sopas no jantar do próximo dia 28? A Providência já me levou o Carneiro Mesquita, cujo aniversário da morte passou ontem. Estamos sós os dois, e podemos dizer como os discípulos de Emaús que está a cair a tarde. Se não destinaste ainda o teu dia, não seria bom aquecer-nos à fogueira antiga? Teu sempre, Manuel”.
  • Em Março de 1964, um obscuro cidadão sírio, Chahinian Zareh, escreve atrevidamente a Salazar: “Vou casar no próximo dia 24 de Maio. Queria passar a lua-de-mel em Portugal, mas veja que não posso oferecer-me esse luxo. Seria muito simpático da sua parte se encontrasse uma solução para realizar este meu sonho”. Salazar encaminhou o assunto e ao casal Zareh foi oferecida uma estadia de cinco dias numa das Pousadas de Portugal…

 

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