183189_192161620808568_6202532_nHUGO NAVARRO

PARTE I
PARTE II

Muitas senhoras escreviam a Salazar com afecto e admiração. O tom é geralmente franco e descontraído. Muitas contam-lhe trivialidades do quotidiano, outras partilham reflexões, outras ainda colocam problemas. No capítulo da intriga, os homens levam a primazia…

  • Guidinha Botelho era apenas uma jovem de 20 anos quando conviveu com Oliveira Salazar, na década de 60. A carta recenseada por Castro Brandão no seu livro de missivas a Salazar (Setembro de 1964) revela uma indisfarçável devoção pelo Presidente do Conselho. Guidinha dirige-se a Salazar com um descontraído “meu querido amigo” e, em jeito de desabafo doméstico, fala-lhe do seu dia-a-dia.  Telefonara-lhe nessa tarde, mas Salazar não pudera atender. “Fiquei tão triste por o não ouvir”, escreve Margarida, filha do 3º Visconde de Botelho. “Sou demasiado egoísta, penso que o tenho sempre livre para mim, sinto-o o meu maior amigo, a minha única confiança”. Despede-se com uma pergunta: “Nunca tem saudades minhas?”. E acrescenta, em post-scriptum: “Quando estiver farto de mim diga-me”…
  • Em Abril de 1947, a escritora Fernanda de Castro estava preocupada com a acumulação de cansaço de que dava sinais seu marido, António Ferro, director do Secretariado Nacional de Informação e génio da propaganda do Estado Novo. Muito em segredo (“meu marido não me perdoaria estas linhas se viesse um dia a conhecê-las”), Fernanda de Castro escreve a Salazar, a quem estava ligada por sólida amizade. Nos bastidores da Situação falava-se já na eventual designação de Ferro para um cargo diplomático e a escritora sabe-o. Sugere, por isso, a Salazar que nomeie o marido Embaixador em Paris. Sabe que, formalmente, não deve fazê-lo, mas “a razão vale menos do que o coração”. E explica: “É que Paris, para ele, é o sonho de toda a vida, a única ambição que sempre lhe conheci”. Oliveira Salazar responde-lhe (a nomeação para Paris recaíra, afinal, em Marcello Mathias) e Fernanda de Castro volta a escrever: “Tenho pena pela pena que meu marido vai sentir”. Mas agradece a “bondade e simpatia humana com que acolheu a minha carta tão pouco diplomática”. Dois anos depois, António Ferro seria nomeado Embaixador de Portugal em Berna.
  • Confessando-se “esta a quem o tempo, as distâncias e os acontecimentos transformaram na sua amiga e admiradora mais respeitosa”, a actriz Beatriz Costa felicita Salazar pelo seu 73º aniversário, em Abril de 1962: “Peço licença para lhe enviar a minha parcela de ternura num abraço carinhoso, pedindo a Deus que lhe prolongue a sua vida”.
  • Filha do escritor e Embaixador António Feijó, Mercedes era uma mulher desempoeirada e cosmopolita quando, nos anos 40, conheceu Salazar, através de António Ferro. Vivendo entre Estocolmo e Paris e conhecendo meio mundo, vinha uma vez por ano de visita ao país de seu pai e encontrava-se invariavelmente com o Presidente do Conselho. Entre visitas, Mercedes Feijó e Oliveira Salazar correspondiam-se (em francês). O à-vontade revelado nas cartas de Mercedes reflecte uma personalidade livre dos formalismos protocolares que então caracterizavam a epistolografia nacional, toda cheia de vénias e Excelências. São da filha de António Feijó as missivas mais descontraídas seleccionadas pelo Embaixador Fernando de Castro Brandão. Nelas, Mercedes chama “anjo e amor” a Salazar, confessa o seu pavor de viajar de avião, descreve cenas corriqueiras da vida doméstica e usa frases de grande coloquialismo e espontaneidade. Numa carta de Abril de 1952, chega a escrever: “Agora acho que já lhe disse tolices suficientes e termino”. Castro Brandão, profundo estudioso do dia-a-dia de Salazar, desmente categoricamente a alegação de que Mercedes e o Presidente do Conselho pudessem ter tido uma relação amorosa: “tolice ou infâmia, vai dar ao mesmo – lixo especulativo e desonesto”.

 

Realeza

  • Da Rainha D. Amélia foram recenseadas duas cartas, ambas dos anos 40. Em Março de 1944, vivendo exilada em Versailles, a viúva do Rei D. Carlos agradece (e declina delicadamente) a oferta que Salazar lhe fizera para se instalar em Portugal, fugindo assim aos horrores da guerra. Em Junho de 1949, informa o Presidente do Conselho de que acabara de fazer uma adenda ao testamento, pela qual legava tudo o que possuía em Portugal a D. Duarte Pio (actual Duque de Bragança), tal como Salazar lhe pedira. D. Amélia termina desejando que “Deus o conserve muitos anos à testa dos destinos do nosso querido Portugal”.
  • A Infanta D. Filipa de Bragança, mais embrenhada na vida política portuguesa, escreve a Salazar em 25 de Abril de 1961 sobre o abortado golpe de Estado de 13 desse mês: “Quem havia de pensar que o Botelho Moniz fosse capaz de tanta traição? Eu estava ultimamente a desconfiar dele, mas não a esse ponto; ambição pessoal sim, mas não coisa comum com [Humberto] Delgado e [Henrique] Galvão; parecia-me inteligente demais para não compreender que os dois macacos vaidosos e raivosos se tornaram há muito joguetes do Comunismo internacional sem o saberem e que, aliando-se a eles, não escaparia à mesma sorte”. A Infanta despede-se com “muitas e muitas saudades da sua sempre amiga”.

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Intriga

Também o “diz que disse” da intriga política portuguesa atravessa as “Cartas Singulares a Salazar”. Por vezes, são queixumes de correligionários. Por exemplo, em epístola de Dezembro de 1955, o jornalista Marques Gastão, do governamental ‘Diário da Manhã’, conta a Salazar que, por não pertencer a “grupos e grupinhos”, vários artigos que escrevera sobre os Estados Unidos não tinham sido publicados. Queixando-se de “obstrução”, pede a intervenção pessoal do Presidente do Conselho.

Mas o campeão dos equívocos e mal-entendidos é, sem dúvida, Mário de Figueiredo, amigo de Salazar dos tempos de Coimbra e figura grada do regime, mas sempre susceptível e impressionável. Em Janeiro de 1933, Figueiredo está no centro de uma intrigalhada que o leva a escrever longas e torturadas missivas a Salazar.

Dera-se o caso de Afonso Lucas, destacado nacional-sindicalista, ter dito a alguém, a propósito do célebre “caso dos sinos”, que Salazar considerara Mário de Figueiredo “um caceteiro”. Figueiredo não se ficou e pediu explicações ao Presidente do Conselho, requerendo-lhe um desmentido formal. Salazar pede-lhe, em resposta, que identifique o seu informador. E Figueiredo acaba por confessar que fora José Carlos Moreira quem lho contara, que o ouvira a Rolão Preto, que por sua vez o escutara a Afonso Lucas. O enredo não tem fim, com remoques, ofensas, citações e mágoas.

Numa outra carta de 1941, típica do seu temperamento, Mário de Figueiredo (que tratava Salazar por tu) demite-se do cargo de ministro da Educação Nacional com uma seca missiva dirigida a Sua Exª o Senhor Presidente do Conselho. Mas, também tipicamente, acabou por não sair: manteve-se no cargo ainda mais três anos, sempre fiel a uma amizade que era tão caprichosa como sólida e autêntica.

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