Eleições legislativas: começou a contagem decrescente

Eleições legislativas: começou a contagem decrescente

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A política regressou em força à praça pública. Passos Coelho ensaia o tom da campanha eleitoral para as eleições do próximo ano. O PS continua a pedalar em seco, dividido por dentro e desgastado por fora. E o CDS volta a demarcar-se da política dura do governo e a defender o alívio da carga fiscal sobre as famílias.

“Escapámos a todas as pragas que nos rogaram”. “Tudo o que conseguimos alcançar foi sem a ajuda da oposição, mas com o empenhamento dos portugueses”. “O desemprego não continuou a aumentar, baixou. O investimento tem estado a recuperar devagarinho, e nós fechamos estes três anos com a consciência de que fizemos o que era preciso fazer”.

Assim falou em Castelo Branco, na semana que findou, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Ou seria o líder do PSD? Fosse quem fosse, garantiu não estar em campanha eleitoral: “As eleições ainda vêm longe”. Mas apressou-se a acrescentar: “O PSD está bem preparado para os desafios que aí vêm. Aqueles que pensam que ao fim de três anos estamos cansados, estão enganados”.

Está dado o tom: daqui até às eleições legislativas de Outubro de 2015, Passos Coelho não desperdiçará uma só oportunidade de enaltecer o trabalho do seu governo, respondendo taco a taco à campanha socialista que, a pretexto de eleições internas, tem vindo a ocupar grande parte da agenda política nacional.

Na sua digressão de há dias pelas Beiras, Passos Coelho bateu sempre nas mesmas teclas: não evita o contacto com o eleitorado, não tem qualquer problema em assumir o que faz, o País está a melhorar. Numa visita à Feira de São Mateus, em Viseu (cidade que em tempos chegou a ser considerada “a capital do Cavaquistão”), o primeiro-ministro submeteu-se mesmo a “contactos imediatos de terceiro grau” com o povão que o esperava para lhe contar as últimas do desemprego e da emigração.

Sempre com os holofotes da comunicação social por perto, Passos não se furtou ao confronto. Uma mulher, que o esperava em cima de um banco para melhor ser ouvida, contou que a empresa onde trabalha vai fechar no final do mês e que irá mais gente para o desemprego. “Não deixe fechar tanta empresa, ponha um ponto final nas empresas a fecharem. As pessoas estão a morrer de fome”, apelou.

Passos Coelho explicou-lhe que, “desde o início do ano, o número de empresas que tem aberto supera o número de empresas que tem fechado” e que, portanto, Portugal tem conseguido “criar mais postos de trabalho do que aqueles que são destruídos”.

Outra mulher queixou-se de não conseguir emprego e de estar a ser discriminada por ter 46 anos. “Dizem que já estamos velhas para trabalhar. Mas para a reforma não estamos”, lamentou.

No final da visita, Passos Coelho admitiu aos jornalistas que o desemprego é “uma chaga grande” em Portugal, mas aludiu a situações piores, como a de Espanha, que tem uma taxa de desemprego de quase 25 por cento, e a da Grécia, “onde o desemprego não consegue baixar dos 26 por cento”.

“Nós estamos a reduzir a taxa de desemprego. Sabemos que muitas pessoas tiveram de sair, como saíram na Irlanda, na Grécia e algumas também em Espanha”, afirmou. No entanto, considerou “um motivo de esperança” o facto de estarem a ser criados “mais empregos do que aqueles que são destruídos”.

Sempre jurando que não está em campanha eleitoral…

Soares fala em “sarilho”

O PS, por seu turno, não precisa de se esforçar para ter visibilidade na comunicação social: a “luta de galos” que opõe António Costa a António José Seguro na corrida à liderança da oposição assegura aos socialistas uma presença constante nos lares dos portugueses. Mas não pelas melhores razões: o espectáculo não tem sido edificante e a guerra que divide o PS em dois terá, necessariamente, pesados custos eleitorais.

Marinho Pinto confirma novo partido e MPT diz que foi “barriga de aluguer”

Marinho Pinto vai criar um novo partido. A informação foi confirmada pelo antigo bastonário da Ordem dos Advogados. Em reacção, o líder do Movimento Partido da Terra (MPT) diz que fica triste com a saída de Marinho Pinto e admite que o MPT foi uma espécie de “barriga de aluguer”.

O eurodeputado, cabeça de lista do MPT nas últimas eleições europeias, revelou que a “separação” foi concretizada há uma semana, numa reunião da comissão política.

Marinho Pinto conta que entendeu que só com um novo partido será possível “contribuir para resolver os problemas dos portugueses, da democracia e do Estado de Direito”.

As próximas eleições
  • 2014, 19 de Outubro: eleição intercalar da Assembleia de Freguesia de São Pedro (Figueira da Foz).
  • 2014, 9 de Novembro: eleição intercalar da Assembleia de Freguesia de Fornelos (Fafe).
  • 2015, Outubro: eleição da Assembleia da República (mandato de 4 anos).
  • 2015, Outubro: eleição da Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira (mandato de 4 anos).
  • 2016, Janeiro: eleição do Presidente da República (mandato de 5 anos).
  • 2016, Outubro: eleição da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (mandato de 4 anos).
  • 2017, Setembro/Outubro: eleição dos órgãos das Autarquias Locais (mandato de 4 anos).
  • 2019, Maio: eleição dos deputados ao Parlamento Europeu (mandato de 5 anos).

Sempre atento, Mário Soares veio na semana passada em auxílio dos seus camaradas – desviando a bola política “para canto” ao pronunciar-se sobre o “caso BES”. Para Soares (que, recorde-se, no passado teve um importante papel no regresso da família Espírito Santo aos negócios em Portugal e na re-privatização do seu banco), o governo “meteu-se num grande sarilho” recusando auxílio de emergência a Ricardo Salgado e fazendo o Banco de Portugal intervir no banco. E avisou: “Quando ele [Salgado] falar, e vai falar, as coisas vão ser diferentes”.

Enquanto o hipotético “grande sarilho” do BES é cozinhado nos bastidores, o “grande sarilho” socialista, esse, parece já garantido. A lutar em duas frentes, o PS arrisca-se simplesmente a perder as próximas eleições – contra todas as promessas de vitória que desde a queda de José Sócrates têm sido reiteradas até à exaustão.

O PS apresenta-se hoje sem capacidade para alcançar uma maioria absoluta. E o “histórico” Jaime Gama até tem dúvidas sobre se o seu partido conseguirá uma vitória eleitoral relativa que lhe permita liderar uma coligação de Governo. Foi isso mesmo que o antigo presidente do Parlamento e fundador do PS disse, na sexta-feira à noite, no debate organizado pelo CDS sobre política de alianças, em que também participou Marcelo Rebelo de Sousa.

“Temos um sistema político que tem um elevadíssimo limiar eleitoral de formação de maiorias. Para um partido atingir uma maioria é muito difícil. O PS teve essa possibilidade em circunstâncias únicas, não me parece que tenha capacidade para o repetir. E o PSD, depois de Cavaco Silva, já o perdeu também”, disse Jaime Gama, em resposta às perguntas dos jovens que participam na Escola de Quadros do CDS, que decorreu até domingo, em Peniche.

CDS demarca-se

A um ano das eleições legislativas, o CDS volta a posicionar-se como “terceira via” – uma opção que no passado lhe garantiu lugares em governos de coligação com o PS e desde 2011 fez do partido o inevitável aliado governamental do PSD.

Em Peniche, o vice-presidente do CDS-PP, Nuno Melo, defendeu abertamente que, passada a “excepcionalidade” da intervenção externa, os centristas devem “afirmar mais” as suas políticas e aquilo em que acreditam, neste período de final da legislatura. “Não será aceitável que Portugal viva nessa excepção permanente e é por isso que também entendo, entendemos no CDS, que o CDS terá, neste próximo ciclo, pelo menos neste termo de legislatura e no próximo ano, que trabalhar legitimamente no sentido de afirmar mais as nossas políticas, aquilo que somos e em que acreditamos”, afirmou Nuno Melo, que muitos apontam como o mais provável sucessor de Paulo Portas na liderança dos centristas.

Melo afirmou que a decisão de o CDS integrar o Governo em 2011 não terá sido a “mais popular, mas foi seguramente a decisão mais patriótica”. E foi “por patriotismo”, sublinhou, que os centristas tiveram que “sacrificar” algumas ideias e propostas, dada a “situação de emergência nacional”. Mas “o CDS, até ao fim da presença da ‘troika’ em Portugal, procurou sempre representar e temperar a governação com um humanismo social-cristão que só nós representamos”, concluiu.

Significativas foram também as palavras do actual ministro da Economia, o centrista António Pires de Lima, que adoptou o discurso da “moderação fiscal”. A actual carga tributária deve ser considerada “transitória”, disse Pires de Lima. A reforma do IRS deve dar “um sinal que defenda casais que têm filhos, que estimule o empreendedorismo, que também possa significar um sinal de moderação das taxas do IRS”.

E, antecipando-se a críticas que pudessem surgir na coligação a propósito das suas palavras, o governante afirmou em tom cândido: “No PSD também há vozes que defendem a descida fiscal o mais depressa possível”. Para bom entendedor…