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JOÃO VAZ

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Desde que Saint-Simon teorizou a doutrina da “moral dupla”, as coisas nunca mais ficaram na mesma. Se, até à data, um hipócrita não era mais do que isso, a partir de então passou a poder ser considerado, assim preenchesse uma série de requisitos. A seita maligna representada por este senhor, Rousseau, Fourier, Marx, Engels e sucessores tem vindo a envenenar o espírito, sobretudo de toda uma casta de infelizes que, ainda que preguem a necessidade do iluminismo e da autonomia, muito pouco ou nada lhes devem.

Dizia Nietzsche que um filósofo deve dar o exemplo se quiser ser levado a sério. Não só um filósofo, diria eu. Mas, para esta gente de esquerda (seja caviar ou ‘foie gras’ – atum é que não, porque enlatado é comida de pobres), a coerência e a seriedade são conceitos de reaccionários. E o intelectual quer-se progressista, como o pai Rousseau, esse tremendo bandalho que deu os filhos para a roda enquanto pregava sobre educação dos outros. Ou como o canalha Marx, que emprenhou a criada e a manteve em casa sem prestar a mínima atenção ao filho entretanto nascido. Ora, este é um dos pontos em que discordo da perspectiva de Rodrigo Constantino. Diz ele que devemos separar o autor, o criador, das opiniões políticas.

Que o actor pode ser um bom actor mas as suas opiniões desprezíveis. Certo, por sinal já pensei assim, hoje não. Não considero a possibilidade da separação entre as coisas, na medida em que vejo a pessoa como uma totalidade e como pertencente, para mais, a uma comunidade. Não existe um indivíduo em parcelas, uma para a política, outra para o palco, outra para o dia-a-dia, etc. Tudo faz parte do todo. É também essa totalidade que tem de ser desmontada. E que não é, muitas vezes (para não dizer todas), pelos escritores liberais.

Uma coisa que me espanta cada vez mais é a dos painéis de comentadores de programas políticos (que não vejo, felizmente). Supostamente com indivíduos de direita e de esquerda (embora mais de direitinha politicamente correctos do que outra coisa), todos muito amigos, muito simpáticos uns com os outros, provavelmente continuando o convívio depois da gravação.

Nesse aspecto, tenho de concordar com o Che, quando afirmava que não podia ser amigo de quem não partilhasse as suas ideias. Como ele, sinto-me cada vez mais assim: precisamente porque não posso separar as coisas, não posso estar a debater a existência dos ‘gulags’ com um comunista e depois ir tomar café com ele como se nada fosse. É uma questão moral, embora esta esteja hoje fora de moda.

Voltando à obra: é uma desmontagem da mentalidade da esquerda caviar, da tal dupla moralidade, da hipocrisia dessa gente, desses novos gnósticos que proclamam a salvação. Não para as massas, que dizem defender, mas para eles próprios. Por uma série de factores, sejam eles o medo, a ignorância, a canalhice pura e simples, a distorção de personalidade.

Uma coisa é certa: estes, dos nossos dias, não têm desculpa. Sabido o que se sabe hoje acerca dos malefícios do comunismo e das ditaduras de esquerda é indefensável a apologia de tais regimes. Ou de outros que se lhes sucedam. Porque, se durante muito tempo a esquerda caviar olhava com desvelo para a URSS e derivados (ou para a China e afins) hoje contemplam com admiração o totalitarismo islâmico, novo substituto de um ideal perdido ou reciclado. Roger Garaudy foi o protótipo, nos anos setenta, quando abandonou o PCF e se converteu. Hoje, os intelectuais de esquerda proclamam a liberdade mas aplaudem o islão militante, o tal que está na primeira linha do combate anti-ocidental. Mas como a vontade desta gente é a morte de pai, nada é de espantar.

Rodrigo Constantino fala-nos disso, fala-nos da situação brasileira – que consegue ser ainda pior do que a nossa, fala-nos de como esta trupe conseguiu o controlo das universidades, dos media e de muitas instituições. O retrato aplica-se a Portugal, em boa parte. E ao mundo ocidental, esse mundo doente de valores e de carácter. Um mundo onde a proliferação de personagens como as retratadas na galeria da parte final do livro é esclarecedora. Não só da fatuidade daqueles, mas da responsabilidade de todos na situação. Estes eruditos de trazer por casa só se alcandoram a tais píncaros porque a maioria silenciosa consente.

Porque os outros, os indiferentes, a direita, os que pensam a sério, seja quem for, perde por falta de comparência. Tem sido assim de há muito. Uma minoria barulhenta a impor as suas regras à maioria submissa. Até quando?

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