Portugal corre o risco de sair da crise de saúde pública do Covid-19 apenas para enfrentar a maior recessão dos últimos 50 anos. O último boletim de análise do Banco de Portugal admite, na pior das hipóteses, a possibilidade de se registar uma quebra de 5,7% na actividade económica do corrente ano.
Dois são os cenários traçados pelo BdP para a economia nacional em 2020. Se tudo correr bem (ou o melhor possível, com os actuais condicionalismos), a queda da economia nunca será inferior a 3,7%. Este cenário, o melhor dos dois, concretizar-se-á se o impacte económico da pandemia for “relativamente limitado” e se as medidas de socorro adoptadas pelo Governo e pela União Europeia forem “bem sucedidas na contenção dos danos sobre a economia”. Pelo contrário, se o impacte da pandemia na vida económica se prolongar e as medidas de socorro se revelarem ineficazes, a recessão poderá chegar aos 5,7%, o pior registo desde 1970.
Em qualquer dos casos, o Banco de Portugal não esconde o cenário sombrio que nos espera: nunca sairemos ilesos da pandemia de Covid-19. O impacte desta crise “tem uma natureza muito persistente, associada à destruição de capacidade produtiva instalada”, assinala o BdP, que prevê que o choque atinja o seu pico no segundo trimestre deste ano, tendendo para uma relativa normalização a partir do primeiro trimestre de 2021. Ainda assim, mesmo depois dessa relativa normalização, o choque da pandemia vai ter “efeitos muito significativos e potencialmente prolongados no tempo em termos do bem-estar dos cidadãos e da actividade das empresas”.
A análise do Banco de Portugal é minimamente consoladora na comparação com o período recente em que a “crise do Euro” fez a economia encolher 4% em 2012 (mais do que a actual previsão de 3,7% em cenário menos mau). Com uma vantagem suplementar: enquanto durante a “crise do Euro” a economia nacional sofreu os efeitos ao longo de três anos consecutivos (2011 a 2013), agora prevê-se uma retoma relativamente rápida, embora gradual.
Se se verificar este ano um cenário mais benigno (queda de 3,7%), a economia terá “um crescimento ainda fraco em 2021 (0,7%)”, “recuperando mais notoriamente em 2022 (3,1%)”. Num cenário pior (recessão de 5,7% este ano), paradoxalmente, a actividade económica recuperará mais depressa, “prevendo-se um crescimento de 1,4% em 2021 e de 3,4% em 2022”.
Também a taxa de desemprego tenderá a variar de cenário para cenário: na melhor hipótese, essa taxa deverá subir para os 10,1% este ano (foi 6,5% em 2019), baixando depois progressivamente (9,5% em 2021 e 8% em 2022); na hipótese mais negativa, o desemprego chegará aos 11,7% ainda este ano, com a recuperação posterior a depender “crucialmente da configuração e magnitude das medidas de política que possam ser implementadas de imediato” pelo Governo.
De 1970 até hoje, o mais alto pico de recessão foi registado em 1975, com uma quebra de 5% em resultado da política de “terra queimada” da extrema-esquerda no poder durante o PREC. ■




