Embaixadores do Brasil, notáveis em Portugal

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Embora as ligações de Portugal e Brasil ainda sejam referentes, sobretudo, às identidades das duas sociedades, na cultura e na história, e menos nas relações comerciais efectivas, o posto de embaixador em Lisboa é dos de maior prestígio na diplomacia e na política brasileira. Isso pode ser atestado, por exemplo, pelo apoio popular às manifestações nas ruas quando da visita dos presidentes Craveiro Lopes, em 1958, e Américo Tomás ao Brasil, em 1972. O segundo foi levando, em embarcação da Marinha de Portugal, os restos mortais do Imperador Pedro I e Rei de Portugal Pedro IV, por ocasião dos 150 anos da Independência do Brasil, feita pelo Regente, na qualidade de Príncipe herdeiro de D. João VI. Na verdade, o 1922 foi a separação de Portugal, já que o Brasil já era Reino Unido desde 1815. 

Juscelino Kubitscheck (JK) também foi alvo de manifestações carinhosas quando de sua visita oficial e depois quando veio a morar no exílio e casar sua filha em Portugal. Mais tarde, os presidentes Médici e José Sarney também mereceram demonstrações afectuosas dos portugueses. E cabe recordar, antes de lembrar os dois mais marcantes titulares da Embaixada do Brasil nos últimos 70 anos, Francisco Negrão de Lima e José Aparecido de Oliveira, que o Brasil foi o único país a participar, em 1940, da Exposição do Duplo Centenário e do Mundo Português, ao lado de Portugal e dos Estados Ultramarinos.

No governo JK, que tinha grande apreço por Portugal e os portugueses, para cobrir um lamentável equívoco ao enviar um desastrado intelectual para Lisboa, o presidente foi buscar no próprio ministro das Relações Exteriores o novo ocupante da embaixada. Negrão de Lima, diplomata e homem público de referência. E este permaneceu nos governos Jânio Quadros e João Goulart. 

Negrão de Lima fez inúmeros amigos em Portugal, ficou muito ligado a toda a comunidade e, depois do 25 de abril, foi um porto seguro para os refugiados, recebendo e procurando ajudar dos mais modestos aos mais ilustres. Foi ele quem encaminhou o professor Marcelo Caetano à Universidade Gama Filho, onde o ilustre estadista e professor foi dar aulas na Faculdade de Direito, fundando o Departamento de Direito Comparado. Negrão manteve uma longa e forte ligação de amizade e amor com uma ilustre portuguesa, Fernanda Pires da Silva, recentemente falecida. Foi um período atribulado nas relações bilaterais, com o infeliz voto do Brasil na ONU na questão dos Estados Ultramarinos, mas a sua habilidade e a amizade com o chanceler Franco Nogueira amenizaram o inconsequente acto do presidente Jânio Quadros e de seu chanceler, Afonso Arinos, para efeitos na política interna de agradar às esquerdas. Tendo na ocasião conhecido o Laboratório de Engenharia de Lisboa é que Negrão de Lima realizou das suas maiores obras como Governador do Rio que foi o alargamento da Av. Atlântica, a praia de Copacabana, com tecnologia portuguesa. Obra fundamental para a cidade, como se sabe. 

Nos governos José Sarney e Itamar Franco, as relações entre os dois países talvez tenham chegado a seus grandes momentos pela integração dos presidentes brasileiros com Mário Soares e a presença marcante de José Aparecido de Oliveira, criador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), depois embaixador em Lisboa. Integrado na vida cultural do país, ele movimentou a embaixada de tal maneira que, ao sair, mereceu a observação de seu número dois, embaixador Luís Henrique, de que a Embaixada nunca mais seria a mesma.

Da carreira diplomática, o Brasil colocou tradicionalmente nomes de muito prestígio, como Luís Felipe Lampreia, que veio a ser ministro dos Negócios Estrangeiros, Heitor Lira, biógrafo de referência do Imperador Pedro II, Dário Castro  Alves e Alberto Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras e que teve como cônsul honorário no Algarve o empresário luso-brasileiro André Jordan. Este, aliás, por quase 20 anos, assegurou por sua conta a presença do Brasil no Sul de Portugal.  E agora Carlos Alberto Simas Magalhães, filho, marido e pai de diplomatas. Fora da carreira, o país teve um ex-presidente da República, Itamar Franco.

Infelizmente, houve equívocos, além do indicado por JK, Sr. Lins, o anti-diplomata, o afilhado da sra. Ruth Cardoso e seu companheiro de militância esquerdista, José Gregory, um estranho no ninho, pois nada tinha com Portugal e muito menos com a diplomacia. Aliás, Fernando Henrique Cardoso, em memorável entrevista à jornalista Maria João Avilez, no Expresso, reconheceu o erro de não ter prestigiado a CPLP e não ter indicado José Aparecido para secretário-geral, abrindo mão para Angola, que colocou um homem polémico no cargo. ■