Somos todos iguais… mas uns são mais iguais que outros

O actual presidente da Assembleia da República, que nos anos 70, como dirigente do Movimento de Esquerda Socialista, vociferava “contra as eleições burguesas”, “pela Assembleia Popular” e pelo “poder operário”, transformou-se este ano no bombo da festa burguesa “de Abril”. A sua teimosia, levada à insensatez, embaraçou os seus próprios camaradas e foi tão gritante que dividiu as hostes esquerdistas. Ferro, o azelha-mor do reino, levou a sua avante – mas manchou com arrogância e fanatismo uma festa com que ele diz querer comemorar “a democracia”. Enquanto uma centena de privilegiados “comemora”, o povo continua impedido de sair de casa…

Num tempo em que o Governo e as autoridades de saúde pública obrigam o cidadão comum a permanecer fechado em casa e impõem sérias reservas à circulação e ajuntamento de pessoas, a obstinação de Ferro Rodrigues em realizar festejos políticos na Assembleia da República indignou o País. Cego e surdo à evidência e aos argumentos do mais elementar bom-senso, o presidente do Parlamento começou por exigir uma sessão com 130 deputados presentes; mas depois, pressionado pelo Governo, pela Direcção-Geral da Saúde e por uma opinião pública escandalizada, lá acabou por ceder um pouco no número de participantes, embora sempre repetindo: “O 25 de Abril tem de ser e vai ser celebrado na Assembleia da República”.

A incoerência foi, porventura, o que mais chocou o povo anónimo. Não se pode sair de casa. Não pode haver ajuntamentos. Nos supermercados, fazemos fila com distâncias de dois metros entre pessoas – e à nossa volta o alarme está sublinhado pelas máscaras, pelas luvas protectoras, pelo gel de álcool com que esfregamos as mãos depois de cada contacto. As igrejas estão fechadas e as missas proibidas. Não se pode participar em funerais. Casamentos e baptizados estão suspensos. As lojas, restaurantes e cafés continuam fechados. E coisas tão inocentes como um concerto do músico popular José Malhoa, dado a partir de uma varanda de um prédio suburbano em Fânzeres, foi interrompida por uma força de intervenção da GNR porque havia cinco basbaques na rua a ouvir…  

O país está em estado de emergência. Todo? Não. No bairro lisboeta de São Bento, uma centena de senhores superiores à lei e à ordem podem juntar-se, por exigência de um antigo dirigente marxista-leninista hoje presidente do Parlamento “burguês” e “fascista”, para celebrar uma data política. Bem pode, a partir de agora, a Drª Graça Freitas falar em máscaras, distâncias e confinamento, que ninguém acredita que a lei se aplique a todos.     

O mais irónico de tudo isto é que a cerimónia do 25 de Abril no Parlamento se destina, teoricamente, a celebrar “a democracia” – um interessante conceito segundo o qual somos todos iguais perante a lei.   

O jornalista e escritor José Milhazes, por certo reflectindo a opinião de muitos portugueses, ainda sugeriu que, “em vez de celebrar de forma atabalhoada o 46º aniversário do 25 de Abril, seria mais sensato transferir as comemorações para quando a pandemia estiver dominada, e realizá-las no dia 25 de Novembro”. Mas 25 de Novembro é uma data de que a extrema-esquerda não quer sequer ouvir falar – pois foi nesse dia de 1975 que os Comandos puseram fim à trágica palhaçada do PREC e calaram os fanáticos dos partidos marxistas-leninistas que abominavam a “democracia burguesa” e defendiam, contra a Assembleia da República, um “parlamento popular” constituído por “operários”, “camponeses”, “soldados” e “marinheiros” que os dirigentes desses partidos haveriam de nomear. Um deles chamava-se Eduardo Ferro Rodrigues. ■

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