Petróleo: a semana negra de Nova Iorque

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Pela primeira vez na história, o preço do petróleo atingiu na última semana valores negativos na Bolsa de Nova Iorque. Com o mundo parado, a procura de crude baixou para níveis insignificantes e os produtores já não têm onde armazenar o “ouro negro”, cuja extracção tem prosseguido, embora a um ritmo aligeirado: na segunda-feira, os grandes produtores chegaram ao cúmulo de pagar a quem lhes “comprasse” petróleo.

Desde que o Covid-19 começou a espalhar-se, imobilizando a economia de países e continentes, o preço do barril do petróleo WTI (West Texas Intermediate) caiu dos 65 dólares para os 40 dólares negativos. Em termos práticos: quem quisesse comprar petróleo que os produtores n~´ao conseguem escoar, recebia 40 dólares por barril.

Nem o anúncio, pela OPEP, de um corte na produção da ordem dos 9,7 milhões de barris por dia, nem a redução abrupta na produção norte-americana resolveram o grande problema do armazenamento, que em certas condições chega a ser tão caro como o próprio petróleo. No início da semana, a maior parte dos produtores já esgotara a capacidade dos seus armazéns em terra e ocupara já 70% da capacidade dos navios-tanque. 

Um dos bons negócios do sector consiste em armazenar petróleo quando ele é barato, para o vender mais tarde, quando os preços subirem (o que inevitavelmente acontecerá dentro de algum tempo, quando o mundo voltar à “normalidade”). Simplesmente, desta vez, a diminuição no consumo é grande e persistente demais: os produtores estão a atingir o limite máximo absoluto de armazenagem. O crescimento do excedente de ‘stocks’ agravará ainda mais a baixa dos preços – por isso, para os produtores, é preferível pagarem para que o petróleo em excesso “desapareça”.

Esta crise, embora acabe por ter consequências em todo o mundo, não afecta especialmente o nosso País, pois o petróleo que serve de referência a Portugal é o Brent do Mar do Norte cotado na Bolsa de Londres. Embora o barril tenha desvalorizado mais de 70% nos últimos tempos, o Brent tem sobrevivido com um mínimo de estabilidade. Esta semana, o Brent do Mar do Norte continuava em positiva, ainda que o seu preço não ultrapassasse os 25 dólares por barril.

Em todo o caso, a GALP já anunciou que vai parar a maior refinaria do País, em Sines, pelo período de um mês, a partir de 4 de Maio. As razões são as mesmas: a capacidade de armazenagem do “ouro negro” está a esgotar-se. A queda do valor do Brent poderá possibilitar, nas próximas semanas, novas reduções no preço da gasolina e do gasóleo nas bombas de abastecimento portuguesas, mas a gradual retoma da economia a nível mundial fará com que o crude venha em breve a revalorizar-se. 

O petróleo representa ainda quase 40% das fontes de energia em todo o mundo. ■