Parece que, de repente, Portugal ficou na miséria.
Bastaram dois meses, dois simples mezinhos, para que milhares de empresas se declarassem à beira do colapso e para que aos portões das Misericórdias, como na Idade Média à porta lateral dos conventos e mosteiros, fizessem fila os pobres de pedir, estendendo para o cozinheiro a tijela da caridade. Condoído, o governo dos socialistas fez soar as trombetas para que se soubesse que vai distribuir 90 mil cabazes por famílias em situação de pobreza extrema. Agradecemos a esmola, mas não sabíamos que os kamaradas da esquerda andavam a esconder de nós 90 mil famílias (que são 300 mil pessoas) com fome. Independentemente da ninharia que é um cabaz de alimentos, que uma família devora num par de dias como migalha caída na cova de um dente, importa saber onde estavam estes 300 mil portugueses declaradamente miseráveis, que a gente não os via. E digamos 300 mil por bondade de argumento, pois se o governo confessa este número é porque certamente já vai no dobro. Pelo menos.
Sim, onde estavam escondidos os 300 mil miseráveis, mais os 800 mil a passar muito mal, mais os dois milhões a apertar o cinto, mais os seis milhões a fazer contas à vida? Não sendo plausível que um quadro social destes tenha surgido do nada em dois meses, só podemos concluir que todos eles, todos nós, já cá estávamos. Simplesmente, cobria-nos o manto diáfano da fantasia. Estávamos escondidos pela mistificação esquizofrénica dos números de Centeno, pelo cenário malabar do chefe Costa, tudo abençoado pelo pontífice-mor do reino. Todos eles trabalham a prazo, não esqueçamos: o horizonte de Marcelo é a reeleição; o horizonte de Costa é a legislatura; o horizonte de Centeno é o ciclo financeiro. Portugal não faz parte desta equação. Salve-se quem puder.
A miséria que agora surge de repente à vista desarmada, a fragilidade de vidro barato desta economia colada com cuspo, a dependência indigente – tudo isso já cá estava. Apenas era coberto pelo lençol da mentira e empurrado com a barriga, até que outrem viesse para carregar as culpas. E apagar a luz.
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Portugal é uma economiazinha de brincar às casinhas e jogar ao monopólio. Metade do país funciona sem uma factura, um recibo, um desconto para a segurança social, um pagamento ao fisco. Compre-se um candeeiro no ebay, um livro no custojusto, uma grafonola no olx, faça-se uma reparação no carro, chame-se um canalizador: quem passa um papel?
No mundo dos negócios, são centenas de milhar as empresas microscópicas, criadas “na hora” com nomes grotescos pré-fabricados para saírem a preço de saldo, meio tostão furado de capital social e uma assoalhada arrendada a custo, todas fossangando para facturar uma ridicularia ao ano, embebidas em “esquemas”, “conhecimentos” e atalhos, não valendo todas juntas dez réis de mel coado. Os “patrões” destas empresas de gargalhada são míseros escravos armados em “empresários” de vão de escada, pomposos “sócios-gerentes” que nem sequer descontam para a segurança social e se vêem, agora que os chineses nos presentearem com o vírus, na mais completa falência. Após dois meses de contracção da economia, o pouco que facturavam evaporou-se e muitos já nem têm verba para pagar as duas assoalhadas arrendadas. Algum trabalhador que estas mini-empresas pudessem “empregar” está agora em idêntica situação: atirado para casa com os bolsos vazios e as mãos a abanar, não pode sequer recorrer aos Centros de Emprego – porque, oficialmente, este trabalhador não existe.
Nas casas de pasto, então, esta fórmula terceiro-mundista já era levada ao extremo muitos anos antes de os chineses nos presentearem com o vírus. A mulher na cozinha auxiliada por uma prima desocupada, o marido ao balcão acolitado às mesas por um miúdo sem escolaridade e de unhas sujas, a contabilidade feita pelo sr. zé da esquina nas horas vagas, metade dos géneros a entrarem para debaixo do balcão sem registo e metade das refeições a saírem sem recibo – tudo com a preocupação única de manter aquietado o agente da ASAE, os seus tampos de fórmica e a sua cubicagem frigorífica. Neste estranho mundo, em que “patrões” e “empregados” vivem das notas que caem na caixa, a paragem da economia significa para muitos a falência certa: a “empresa”, quase sempre unipessoal, não tem sequer fundos para renovar a pescada congelada que ficou fora de prazo, quanto mais para reatar uma actividade que em qualquer outro ponto da Europa civilizada requer tesouraria, reservas e garantias.
Sim, o vírus chinês veio complicar tudo isto. Mas tudo isto já cá estava, mascarado debaixo da prestidigitação do jovem algarvio Centeno, da esperteza saloia do jovem malabar Costa e da baratice tonta do não tão jovem assim Rebelo de Sousa, o beijoqueiro-mor.
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O desemprego vai passar em breve a marca dos dez por cento, mas esse desemprego já cá estava muito antes de os chineses nos presentearem com o vírus.
Desempregados eram os muitos portugueses sem trabalho que, ao fim de um certo tempo gasto em fantasias e inutilidades nos Centros de Emprego, desapareciam automaticamente das estatísticas. Oficialmente “deixavam de ser desempregados”, mas na verdade estavam ainda mais desempregados do que anteriormente, pois já nem sequer podiam frequentar os “cursos” disto e daquilo, as tais fantasias e inutilidades que ainda lhes davam 200 ou 300 euros por mês.
Com estes engodos de miséria, com estas migalhas cínicas, o governo dos socialistas enganou os desempregados e enganou os outros portugueses que acreditaram nas estatísticas do malabarista.
Desempregados eram também os desgraçados a recibo verde que trabalhavam uns meses e, um dia antes de passarem a contrato, desapareciam misteriosamente do mapa para reaparecerem uma semana depois, para mais um período de ludíbrio.
Desempregados verdadeiros eram ainda os muitos e muitos trabalhadores da economia paralela, aquela economia onde não há registos nem papéis nem fisco nem segurança social, gente que um dia era chamada a ganhar uns cobres e no outro estava em casa à espera de que o telefone tocasse.
Desempregados, por fim, eram os muitos e muitos portugueses que nunca tinham sequer entrado no mercado de trabalho, que entre os 20 e os 30 anos andaram de entrevista em entrevista e continuavam na esperança quando os chineses nos presentearam com o vírus. Sem terem sequer entrado algumna vez nas estatísticas.
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Toda esta mentira vem agora à superfície.
Não é, por isso, de estranhar que aos portões das Misericórdias façam fila os muitos pobres de pedir. E que em casa, mordidos pela vergonha e pelo desespero, vegetem muitos e muitos mais pobres que não pedem. ■




