Tenho algum respeito pela competência de Elisa Ferreira e surpreendi-me com a recente entrevista dada ao Público, porque quando perguntada se gastámos mal o dinheiro de Bruxelas respondeu: “Essa ideia é absurda que bate na nossa própria cabeça. Esse é o argumento dos chamados frugais”.
Elisa Ferreira emigrou de vez, já não sabe o que se passa em Portugal e esqueceu tudo o que viveu, nomeadamente com o seu discípulo José Sócrates. Elisa Ferreira não lê jornais e já se esqueceu do empresário português que ficou célebre por aconselhar os seus colaboradores a: “roubem, mas não abusem”.
Também não conhece o processo de uma associação empresarial lá do seu Norte com cerca de oitenta acusados de desviar fundos europeus, ou as desgraças de décadas de má formação profissional, ou os casos das parcerias público-privadas das autoestradas, as compras dos helicópteros e dos submarinos, os contratos para a produção de energia eólica, esses sim com preços e prazos absurdos, que deu para enriquecer os amigos da política. Ou esta semana na Madeira, esquecendo as dezenas de desvios de fundos europeus que enchem a Procuradoria Geral da República.
Elisa Ferreira virou inocente, a responsabilidade do cargo não a leva a ver que os frugais sabem do que falam, quando melhor seria aprender alguma coisa com eles, por exemplo, sobre como governar, para que Portugal não tivesse de passar pela vergonha de ser ultrapassado pelos países da União Europeia que iniciaram essa caminhada muito atrás de nós e do facto de já termos pedido ajuda externa por três vezes em trinta anos.
Quem quer Elisa Ferreira defender? Portugal não é certamente, porque os paí-
ses não se defendem na base da mentira, do medo de desagradar aos chefes, ou a passar a vida a fazer fretes. Infelizmente, Elisa Ferreira tem neste ponto um longo currículo. Quem pensa ela que engana?
Os frugais
Existem profundas diferenças culturais e religiosas entre os países do Norte e do Sul da União Europeia. Os frugais são essencialmente os povos do Norte, que desde sempre souberam governar os seus países de forma mais racional e mais equilibrada. Quando no século XVI Portugal expulsou os judeus, muitos foram para a Holanda e contribuíram para que os holandeses tivessem aproveitado melhor do que nós o comércio do Oriente. Presentemente a Holanda, como todos os outros países do Norte europeu, beneficiam de um invejável nível de vida, com que os portugueses apenas podem sonhar.
Nestas circunstâncias, o que se justifica será perguntarmo-nos a razão por que isso acontece e não culpar os frugais pelos nossos erros de governação. Dizer, por exemplo, que a Holanda ou a Alemanha beneficiam com as suas exportações para Portugal, melhor valorizadas do que as nossas, ou que influenciam a gestão da União Europeia a seu favor, deveria ser motivo para aprender a governar melhor e não para diabolizar esses países. Infelizmente, tudo isso faz parte da tentação muito portuguesa de culpar os outros pelas nossas próprias fraquezas. Claro que os governos utilizam esses argumentos para justificar as suas próprias faltas, sem se darem conta de que estão a adormecer a vontade de superação dos portugueses e a criar cada vez mais dependentes do Estado e da União Europeia.
Quando Michael Porter chegou a Portugal para debater a nossa economia, aconselhou os empresários portugueses a privilegiar os clientes e os parceiros mais exigentes. Segui o conselho e nunca me dei mal, na medida em que todas as pessoas que trabalhavam na empresa, como eu próprio, fomos forçados a aprender com quem sabia mais do que nós e a trabalhar melhor. Esta é a forma de as pessoas, como os países, crescerem e se desenvolverem e não é com lamentações que isso se consegue.
Ainda sobre os frugais, espero que sejam suficientemente rigorosos acerca da forma como o Governo de António Costa vai gastar o dinheiro que chega de Bruxelas, essa é ainda a melhor forma de reduzir os erros e o dinheiro malgasto.
Investimento estrangeiro
Nas actuais circunstâncias de crise económica e do previsível aumento do desemprego, o investimento estrangeiro, nomeadamente na indústria, representa a mais desejável solução. Duvido que o investimento do Estado seja uma alternativa e as empresas portuguesas tentam sobreviver e não irão investir coisa que se veja.
Pois o que fazem o Governo e o Bloco de Esquerda? Entendem-se para obrigar as grandes empresas que temos, muitas estrangeiras, a não reduzir colaboradores, com a ideia de se oporem à liberdade de gestão que é a base da filosofia empresarial desses investidores. Ou seja, no momento em que mais precisamos de investimento e de exportações, o Governo e o Bloco de Esquerda não apenas hostilizam as empresas estrangeiras que cá temos, como fazemos o pior possível para atrair outros investidores internacionais.
Escrevi há tempo que a geringonça é inimiga da economia. Hoje penso que apenas os fanáticos da ideologia marxista podem não ver que assim é. Mais uns anos de geringonça e a economia portuguesa vai precisar de pedir novamente a ajuda externa e recomeçar um novo processo de austeridade. Só não vê quem não quer, ou quem acredita que a solução é não pagar as dívidas que o Governo do PS vai amontoando. Será bom que os marxistas que dominam o Governo expliquem aos portugueses como é que nessas circunstâncias de não pagamento da dívida, importaremos tudo o que precisamos para sobreviver: máquinas, peças de manutenção, medicamentos, energia, sistemas informáticos e tudo o resto. Seremos uma nova Albânia e os portugueses ainda não viram nada semelhante. Talvez que então aprendamos a valorizar a União Europeia e os frugais, já que não há nada como apreender à própria custa.
Presidenciais
É já em Janeiro que teremos eleições para a Presidência da República. E quando nada justifica a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa, que durante cinco anos não passou de um faz de conta e de um bom prestador de serviços à geringonça, as sondagens mostram que uma grande parte dos portugueses estão a gostar de ser enganados. Não é primeira vez que isso acontece, mas desta vez é ainda mais grave do que das vezes anteriores. Já não teremos rede e a queda será mortal para milhões de portugueses que vivem o dia a dia, sem recursos e dependentes do Estado para sobreviver.
Ainda é tempo de os portugueses pensarem a sério e votarem em algumas das alternativas que se apresentam ao próximo escrutínio. Nomeadamente os militantes do PS que não pertencem à família socialista dos interesses, como os eleitores do PSD e do CDS que vejam, finalmente, que Marcelo Rebelo de Sousa não é de esquerda nem de direita, é apenas um político do antigo regime, que passou a vida a criar factos políticos de que possa beneficiar com os seus amigos. Nada mais do que isso. ■




