T
emos observado ao longo dos últimos dias um aumento muito significativo da pandemia do COVID-19 em Portugal e no Mundo.
De facto, esta pandemia, apesar de muita desinformação, tem causado muita infelicidade no Mundo, por diversas razões.
A primeira razão é a capacidade mortífera do vírus Sars Cov-2. Apesar de nos falarem da fome, da malária, do SIDA ou da tuberculose, como causas de morte mais severas, essas observações são rotundamente falsas. A doença COVID-19 é a doença infecciosa que mais gente mata no Mundo.
As doenças infecciosas que mais gente matavam por ano eram o SIDA e a tuberculose, em ambos os casos com mais de um milhão de mortos por ano. O COVID-19 matou até hoje, quarta-feira, dia em que escrevemos, cerca de um milhão e setenta e cinco mil pessoas. Até ao final do ano matará no mínimo um milhão e meio de pessoas.
Apesar das medidas de confinamento, estes números superam largamente os números anuais das doenças que mais gente matavam no Mundo. O principal problema é que os óbitos estão a acelerar. Os mais de cinco mil que morrem por dia no Globo têm tendência a subir, o que se tem notado sobretudo no Hemisfério Norte, onde o Outono começa a fazer-se sentir.
Se compararmos os números do
COVID-19 com os da gripe sazonal encontramos, mesmo com severíssimas medidas de confinamento, higiene e de segurança, mais do dobro dos piores anos de gripe sazonal dos últimos 50 anos, em que seiscentos mil mortos eram um número catastrófico raramente alcançado.
Há quem diga que esta doença apenas afecta pessoas idosas. Há algum fundo de verdade: estatisticamente, a COVID-19 mata sobretudo a partir dos setenta anos de idade, aumentando muito a partir dos oitenta anos. No entanto, afirmar como Henrique Raposo,“Haverá um momento em que teremos de travar o presente sacrifício de uma geração de crianças e dos seus pais, ainda novos. Para salvarmos algumas vidas de doentes crónicos com 70, 80 e 90 anos, qual é o grau de destruição escolar, social e médico (sim, médico) que podemos infligir aos mais novos? A meu ver, esse limite está a ser ultrapassado neste momento” (Expresso, em 13/10/2020), que esta doença apenas abrevia a vida de idosos condenados a uma morte mais ou menos certa é ignóbil, como se a vida humana fosse relativa ao crédito de anos que cada pessoa tenha para viver, sendo superiores os jovens, como putativamente Henrique Raposo se afirma.
Estas observações de eugenia evidente, são um sintoma de uma enorme corrupção moral das sociedades contemporâneas, uma decadência do valor da vida que acabará inapelavelmente em outras eugenias, uma espécie de nazismo do politicamente correcto que sacrifica alegremente primeiro doentes e velhos, e depois deficientes e desconformes dos padrões de juventude e beleza, mas não de género, que essa ideologia é sagrada.
A doença COVID-19 é mortal, é grave, também mata mais jovens. É a doença infecciosa mais mortal da actualidade. A imunidade de grupo, que tanta gente discute, nem de perto nem de longe se aproxima, como os dados de zonas muito afectadas, como Nova Iorque, indicam. A pandemia continua a desenvolver-se em zonas já muito causticadas, mostrando com fortes evidências que a pandemia ainda está muito longe da taxa de infecção da população entre 70 e 80%.
Esta doença, com as medidas tomadas agora, sem fecho de fronteiras, sem o recurso generalizado ao tele-trabalho, sem aumento significativo dos transportes públicos, sem desfazamento generalizado de horários de trabalho, mantendo festas familiares, como casamentos, até 50 pessoas, o que é criminoso, e as novas medidas do estado de calamidade, anunciadas esta quarta-feira conduzirão ao aumento gradual de óbitos. Dentro de alguns dias, a partir de 20 de Outubro, teremos certamente mais de vinte mortos por dia. A partir de meados de Novembro teremos mais de trinta mortos por dia.
Responsabilizar apenas as pessoas pela protecção contra a doença, sem campanhas pedagógicas sobre uso de máscaras, sem campanhas sobre o distanciamento social, não conduzirá a nenhuma redução das taxas de contágios.
O cansaço e a falsa sensação de segurança que uma pandemia destas acarreta (não se vêm mortos na rua, os óbitos dão-se, quase secretos, nos hospitais, a catástrofe vive-se no recato e no desespero das relações familiares, sem acesso aos entes queridos que partem) facilitam o abrandar da vigilância individual.
Dar às pessoas, e apenas às pessoas, o principal papel no combate a uma epidemia deste calibre é desconhecer a história. Sempre os Estados tiveram de fazer cumprir as regras de forma extremamente severa. O egoísmo perante a morte de outros é a norma do ser humano. Sem confinamentos, sem cercas sanitárias, as pestes teriam ceifado ao longo dos séculos muito mais gente do que acabaram por dizimar.
Portugal, com este desnorte, com falta de confiança nos números, sem vacinas generalizadas, terá até Março de 2021 entre 3.000 a 6.000 mortos. E a responsabilidade não será das pessoas mas do desgoverno e desnorte dos que deveriam governar o país mas que apenas se sabem governar a si mesmos e aos seus amigos. ■




