O ministro do Interior de Moçambique, Amade Miquidade, anunciou há dias que as Forças de Defesa e Segurança infligiram “baixas significativas” aos grupos armados que protagonizam ataques na província de Cabo Delgado, no Norte daquela antiga Província Ultramarina portuguesa, país independente desde 1975.
Miquidade adiantou que as tropas oficiais mataram alguns líderes terroristas e destruíram meios de circulação usados nos seus ataques. O ministro lamentou que a operação militar lançada pelo Governo do Maputo contra os terroristas islâmicos esteja a provocar deslocamentos da população, mas considerou que o contra-ataque governamental “é uma acção necessária para a sua própria segurança”.
A província de Cabo Delgado é há três anos palco de ataques armados desencadeados por forças terroristas que se afirmam seguidoras do Estado Islâmico. Já morreram vários milhares de moçambicanos e o número de pessoas deslocadas das suas casas supera 400 mil. Só nas duas últimas semanas, mais de dez mil habitantes de Cabo Delgado fugiram para Pemba – primeiro para escaparem aos terroristas, depois para não ficarem no fogo cruzado.
Contudo, a comunidade internacional continua altamente intrigada pelo facto de os ataques só terem começado quando novas perspectivas de desenvolvimento económico se abriram na região de Cabo Delgado. Até então, o interesse de grupos de inspiração religiosa por Moçambique era nulo, e mesmo que existisse não se manifestava de forma visível, e muito menos violenta. O enigma adensa-se quando se verifica que os ataques dos supostos fundamentalistas se limitam à província moçambicana mais rica em gás natural…
Território cobiçado
Há, neste caso, teses para todos os gostos. Na cena política internacional, com destaque para algumas potências da região, surgem cada vez mais defensores de uma intervenção armada multinacional, argumentando que Moçambique não tem, por si só, meios de combater eficazmente forças ligadas ao Estado Islâmico. Os apologistas desta tese consideram que a região enfrenta um ataque islâmico de cunho fundamentalista contra o cristianismo e o animismo e afirmam recear que se trate de uma campanha global que poderá estender-se a países como a África do Sul. Esta tese, porém, cai pela base quando se verifica que, após três anos, os ataques e atentados continuam limitados a Cabo Delgado.
Segundo outros, os terroristas muçulmanos limitar-se-iam a aproveitar-se da miséria económica da região para espalhar o terror e dessa forma impor o islamismo pela força. Os defensores desta tese sustentam que os ataques terroristas apenas reflectem uma “guerra civil” provocada pela marginalização da região em relação ao resto do país. Mas nada disto faz sentido quando se verifica que nem uma só mesquita tenha sido erguida pelos atacantes, nem uma só escola corânica funcione em Cabo Delgado para impor a tal “islamização pela força”.
É possível, em todo o caso, que uma parte de cada uma destas duas teses corresponda à realidade – mas apenas como pretexto para uma acção que visa, mais profundamente, o domínio de um território subitamente cobiçado. Quem poderá estar por detrás dos grupos terroristas – essa é ainda uma outra questão, que possivelmente não será esclarecida nos próximos tempos.
Frelimo corrupta
A corrupção generalizada em Moçambique ganhou foros ainda mais escandalosos em Cabo Delgado, onde caciques da Frelimo têm vindo a fazer uma sangria de dinheiros públicos desde há mais de vinte anos. Como escreveu o académico Joseph Hanlon, especialista em estudos moçambicanos da Open University do Reino Unido, os cifrões não saem dos seus olhos desde que se descobriram enormes reservas de gás natural na região – e sobretudo desde que, há poucos anos, surgiram empresas interessadas na sua exploração.
A Justiça, embora ainda dominada em parte pelos “donos daquilo tudo”, já foi forçada a concluir que os dois biliões de dólares da “dívida oculta” moçambicana foram distribuídos pela “elite” frelimista no poder, e que uma boa parte desses ganhos ilegais esteve relacionada com os negócios em torno do gás natural em Cabo Delgado.
Filhos do ex-presidente Armando Guebuza já foram acusados de corrupção e presos, mas é difícil dizer se chegarão a ser julgados, tantas são as “influências” em jogo. O antigo ministro Manuel Chang continua preso numa cadeia da África do Sul, aguardando extradição, mas também não é certo que venha a sentar-se no banco dos réus. Todos eles “sabem demais”.
O súbito interesse das multinacionais por Cabo Delgado tem tido como consequência a completa desorganização do tecido social da província. Toda a economia passou a concentrar-se exclusivamente no gás natural, criando largas bolsas de excluídos onde medram a fome e a desigualdade. Milhares de famílias ficaram sem recursos de sobrevivência ao serem desalojadas de áreas tradicionalmente agrícolas agora cobiçadas pelas empresas de mineração e extracção. Os mais jovens são contratados para os trabalhos pesados no gás natural, mas são miseravelmente pagos enquanto funcionários estrangeiros enriquecem rapidamente.
Injecção de dinheiro
É neste quadro explosivo que as células terroristas islâmicas vêm agindo, explorando ao máximo desigualdades e injustiças e criando um clima de desespero que tudo permite, desde ocupar casas para alojar técnicos estrangeiros a “requisitar” terrenos ricos em gás. No campo oficial, os mini-oligarcas da Frelimo controlam as terras e a distribuição de dinheiros internacionais. Num segundo nível, ‘capangas’ de confiança ocupam-se dos aspectos práticos das concessões de terras e da contratação de mão-de-obra. Polícia recebem subornos.
Enquanto isso, a comunidade internacional parece mais interessada em fazer negócios do que em pôr ordem em Cabo Delgado. Ainda recentemente oito agências financeiras de crédito juntaram-se aos bancos para garantirem juntos uma injecção de mais de 4 mil milhões de dólares no projecto do gás. Curiosamente, estão também a injectar “donativos” na liderança da Frelimo.
Dados os muitos interesses que se cruzam no xadrez moçambicano, ainda não foi possível determinar sem margem para dúvida qual a relação que existe entre os estranhos ‘comandos’ terroristas islâmicos e os mais visíveis negócios em torno das fontes energéticas. Mas o mundo começa a ter uma ideia… ■




