Rio sempre se quis apresentar como um líder do PSD que dava o essencial do seu esforço político à questão das autárquicas, mas as críticas são imensas. E quando as estruturas locais não concordam com as escolhas, resvala-se para um boicote ou uma greve de zelo em tempos de campanha eleitoral. Rio sabe que as coisas são mesmo assim e que o apoio das bases aos candidatos é sempre indispensável nas campanhas eleitorais, onde as relações de proximidade entre candidato e eleitor são muito maiores do que em legislativas.
A concelhia do PSD de Castelo Branco acusou mesmo a direcção nacional do partido de desrespeitar os estatutos, ao escolher o nome de João Belém para candidato àquele município, contra a escolha dos órgãos locais.
Em comunicado, aquele órgão social-democrata de Castelo Branco refere que esta decisão e todas as consequências que a mesma terá no futuro “são da integral e exclusiva responsabilidade do presidente do PSD, Rui Rio”.
A Comissão Política Nacional do partido anunciou recentemente o nome do professor jubilado João Belém como o candidato do PSD à Câmara Municipal de Castelo Branco nas eleições autárquicas deste ano.
“A Comissão Política Nacional, em claro desrespeito pelos estatutos do PSD, optou por escolher, unilateralmente e discricionariamente, o nome de João Belém para candidato do PSD à Câmara Municipal de Castelo Branco”, lê-se na nota.
A concelhia afirma ainda que o órgão local, responsável pela escolha do candidato, “votou, por unanimidade, o nome do Carlos Almeida”, actual vereador e presidente da Comissão Política Concelhia do PSD de Castelo Branco.
“O mesmo sentido de voto, por unanimidade, foi acompanhado, igualmente, pela Comissão Política Distrital do PSD Castelo Branco”, sublinha.
No comunicado, o PSD Castelo Branco evoca “plena confiança no trabalho que tem vindo a ser realizado pela equipa que ganhou as eleições internas à concelhia em 2020, a qual tinha toda uma estratégia delineada para as eleições que se avizinham e que neste momento sofreu um revés comprometedor”.
Nas eleições de 2017, o PS, liderado por Luís Correia, conquistou cinco mandatos, enquanto o PSD elegeu dois vereadores.
Caso Amadora
Outra das escolhas inexplicáveis é a de Suzana Garcia, advogada e antiga comentadora de televisão na TVI, para a Amadora.
O secretário-geral e coordenador autárquico do PSD, José Silvano, anunciou a homologação de mais 53 candidatos do partido a Câmaras Municipais, num total de 294 nomes já escolhidos e entre os hoje divulgados está o de Suzana Garcia, na Amadora – aprovada por unanimidade pela Comissão Política Nacional.
Segundo Silvano, Suzana Garcia é “candidata mais indicada para ganhar” a Amadora. “O PSD é um partido onde cabem todos, desde que não ponham em causa os valores essenciais da social-democracia. Convivemos bem com a diferença de opiniões e não condenamos ninguém por delito de opinião”, começou por dizer, acrescentando que a direcção do partido analisou as posições públicas de Suzana Garcia.
“Não vimos nelas algo que não pudesse ser admitido no âmbito da pluralidade de opiniões deste partido”, afirmou.
José Silvano considerou ainda que a advogada tem “um perfil adequado ao concelho a que se candidata” e defendeu que tem “fortes possibilidades” de ganhar a autarquia.
Questionado se as posições da candidata sobre castração química a aproximam do Chega, o secretário-geral do PSD frisou que a posição do partido em relação a este tema é claramente contra e já foi expressa no Parlamento.
“A posição da Suzana Garcia – que não se candidata à Assembleia da República para legislar, mas para a Câmara da Amadora – é uma posição que, no entender do PSD e que ela própria explica, não é de castração química, mas uma terapia medicamentosa de controlo da líbido e apenas para reincidentes pedófilos”, disse.
Leiria em pé de guerra
Um grupo de 132 simpatizantes e militantes sociais-democratas de Leiria considerou que a escolha de Álvaro Madureira como cabeça de lista à Câmara é um “péssimo serviço” ao partido e ao concelho.
“A escolha do presidente da Comissão Política de Leiria para encabeçar a lista candidata à Câmara Municipal constitui um péssimo serviço ao PSD e a Leiria, quer porque tal pessoa não reúne as características mínimas para dignificar uma candidatura do Partido Social Democrata, quer porque o seu passado revela que não tem qualquer noção do que seja serviço público, quer, ainda, porque é o melhor serviço que se poderia prestar ao PS”, lê-se numa missiva tornada pública.
O documento destaca que “é impossível ficar indiferente perante esta lamentável escolha, que não serve os interesses do PSD e, acima de tudo, de Leiria e do seu concelho”.
Os subscritores salientam, igualmente, que “não foi valorizada, como era expectável, a vitória alcançada nas anteriores legislativas, prova evidente de que os valores da social-democracia têm acolhimento maioritário em Leiria”, além de que foi “ignorada a fragilidade da candidatura socialista e as reservas que suscita em largos sectores da comunidade”.
“Uma candidatura social-democrata forte, prestigiada junto da comunidade e com um programa claro de desenvolvimento do concelho – que contrastasse com o ‘pão e circo’ socialista – suscitaria certamente a adesão de largos sectores da sociedade leiriense”, refere a missiva.
Boicote activo
Manifestando “absoluta indisponibilidade” para suportar a candidatura, militantes e simpatizantes sociais-democratas comprometem-se “a desenvolver, no tempo devido, todos os esforços para devolver o PSD de Leiria à sua matriz social-democrata, pondo fim a esta lamentável deriva em que os interesses de alguns anulam e substituem o interesse comum”.
Já em Fevereiro, um grupo de 56 militantes e simpatizantes do PSD, incluindo nomes da carta agora divulgada, exortou o líder nacional do partido, Rui Rio, a acelerar a escolha do candidato à Câmara de Leiria e acusaram o presidente da Concelhia de ter como interesse primordial a notoriedade social.
Na missiva, os subscritores expressaram a Rui Rio a “esperança no seu esclarecido empenhamento no processo de escolha da candidatura social-democrata à Câmara de Leiria”, exortando-o “a acelerar a escolha de uma personalidade com reconhecimento local, com ideias claras quanto ao futuro do concelho, suficientemente afastada das ‘tricas’ e ‘guerras’ que têm marcado o passado recente do PSD”, e que “dê garantias de encarar o desempenho do cargo como fim último e não como ‘trampolim’ para outros ‘voos’”.
Mas o PSD anunciou que Álvaro Madureira é o cabeça de lista do partido à câmara, candidatura que já tinha liderado nas eleições autárquicas de 2013.
No mesmo dia, o presidente da Distrital de Leiria do PSD disse que esta estrutura partidária “não acompanha a decisão da direcção nacional” da candidatura de Álvaro Madureira.
No sufrágio de 2009 o PSD perdeu a Câmara de Leiria para o PS, que ganhou sem maioria absoluta. Os socialistas conquistaram cinco mandatos, o mesmo número dos do PSD, e o CDS-PP um.
Nas eleições seguintes, em 2013, o PS passou a ter maioria absoluta (sete mandatos), enquanto o PSD sentou na câmara quatro vereadores.
Já nas últimas autárquicas, em 2017, o PS aumentou para oito mandatos e o PSD desceu para três. ■




