Barões socialistas em pé de guerra

A sucessão de António Costa na liderança do PS está transformada numa luta de galos, com Pedro Nuno Santos e Fernando Medina em disputa pelo có-ró-có-có mais estridente. Aproveitando o ruído na capoeira, Ana Catarina Mendes bate as asas, tentando voar…

António Costa já disse que “ainda não meteu os papéis para a reforma”, mas os seus putativos sucessores na chefia do Partido Socialista estão sem paciência para esperar. A guerra entre eles já começou – e aproveitam todos os pretextos para se bicarem mutuamente na praça pública. As claques deliram, aplaudindo ou vaiando nos corredores do partido e nas redes sociais.

O último episódio desta autêntica telenovela é sintomático. Quando Fernando Medina, herdeiro de Costa na Câmara de Lisboa e herdeiro presuntivo na liderança partidária, foi apanhado “descalço” num escândalo de contornos internacionais envolvendo a Rússia de Putin, logo a “ala esquerda” do partido tratou de apanhá-lo nas pinças da tenaz. Por um lado, o ultra-esquerdista Pedro Nuno Santos fazia o papel de “bonzinho” e afirmava que “ninguém tem dúvidas da adesão incondicional de Fernando Medina aos valores da liberdade e da democracia”, mas logo acrescentando: “Façamos todos o mesmo que ele fez: reconhecer o erro”. Por outro, a secretária de Estado Alexandra Leitão, próxima dos meios socialistas de esquerdas oriundos do comunismo, fazendo de “má”, veio lembrar as responsabilidades das Câmaras em casos semelhantes.

Para Costa, contudo, o episódio não podia ficar por aqui. Antes mesmo de ver condenado ao pelourinho o seu “favorito”, o primeiro-ministro encarregou a sua adjunta no secretariado-geral do PS, Ana Catarina Mendes, de responder indirectamente a Pedro Nuno Santos, chamando-lhe “truculento” e recomendando-lhe “sensatez”, “recato” e “bom senso” no caso TAP. Ao que o desbocado ministro das Infraestruturas respondeu com uma meia verdade: “eu seria incapaz de criticar em público um camarada”.

São estes os três protagonistas, para já, de uma bulha que mobiliza as respectivas hostes de “peões de brega” nas fileiras partidárias, que se expressam com veemência nas reuniões partidárias e mais ainda nas redes sociais, onde podem camuflar-se sob identidades inventadas.

À esquerda, Pedro Nuno Santos, de formação extremista e paladino de alianças com o PCP e o BE, afirma ter por si grande parte do “aparelho” partidário, sobretudo a Norte – o que já lhe valeu a alcunha de “o aparelhómetro”. Nas fileiras moderadas do PS, um galo e uma galinha disputam o poleiro: Fernando Medina, que chegou a autarca por herança, reclama o apoio da grande massa amorfa que segue Costa enquanto este puder distribuir “o bolo”; e Ana Catarina Mendes, que com Eduardo Cabrita domina grande parte do “aparelho” em Lisboa e a Sul, espera aproveitar do desgaste provocado pela guerra Santos-Medina e, com sorte, surgir como alternativa de terceira via.

Todos têm desvantagens: o extremismo de Santos torna-lhe impossível ganhar a confiança da classe média para poder um dia vir a governar; Medina tem-se mostrado um fraco de segunda linha, sempre na sombra de quem o “inventou” para os altos voos da política; e Mendes tem um vocabulário limitado a 100 palavras, metade das quais são ‘slogans’ requentados e vazios. Em suma: Costa está sem sucessor à altura.

• Leia este artigo na íntegra na edição em papel desta semana já nas bancas •

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