Há vários acontecimentos recentes, nacionais e internacionais, que me chamaram a atenção e pelas más razões. Vejamos alguns, na esperança de que sejam clarificadores do meu pensamento, que espero seja hoje tão verdadeiro com o foi ao longo de muitos anos. Pensamento a que tenho chamado a procura da verdade, isto é, a verdade que sobrevive ao tempo, através da comparação entre as previsões feitas e os resultados apurados anos depois.
Bruxelas acaba de ameaçar levar Portugal ao Tribunal da Justiça da União Europeia por não ter feito a transposição de uma directiva de 2018. Bruxelas enviou ao Governo português um parecer exigindo saber o que foi feito para a implementação da 5ª Directiva antibranqueamento de capitais que deveria ter sido transcrita para a legislação nacional até Janeiro de 2020. Segundo as autoridades europeias, Portugal mentiu ao dizer que foram adoptadas todas as medidas previstas e detectaram que várias não foram transpostas, o que, segundo Bruxelas, coloca em causa a estabilidade financeira da União Europeia. Ou seja, Portugal tornou-se um centro europeu de branqueamento de capitais sob a protecção da burocracia portuguesa, nada que os portugueses não saibam por experiência. Muitos dos processos em curso de corrupção, sem fim à vista, e os impostos dos portugueses que andam há anos a pagar a falência do sistema financeiro são parte do branqueamento de capitais feito das mais diversas formas por cidadãos nacionais e estrangeiros, capitais branqueados pela inacção conivente do Governo. A grande família socialista silencia e agradece.
O primeiro-ministro António Costa tem sido muito elogiado por na sua recente visita a Kiev ter seguido a linha dura da Europa, no que diz respeito à adesão da Ucrânia à União Europeia. Trata-se de uma visão burocrática e mostra uma certa incapacidade para aquele golpe de asa que nos ensina que na vida, como na gestão política, há momentos que são o tempo certo dos estadistas e não dos burocratas. A guerra da Ucrânia não é um acontecimento vulgar, coloca em causa todas as democracias europeias e mundiais e a consciência dos povos, pelo que não pode ser uma questão tratada com as regras habituais dos contratos feitos para outras realidades, tanto passadas como futuras. António Costa é um burocrata incapaz de compreender isso, o que também não é uma grande novidade.
Uma outra incapacidade semelhante reside em António Guterres, incapaz de lançar, em nome da Assembleia Geral das Nações Unidas, um programa para a paz na Ucrânia, igual ou semelhante ao que foi esta semana anunciado pela Itália, mas com melhores condições de sucesso, porque respaldado nos mais de cento e quarenta países que na Assembleia Geral das Nações Unidas condenaram a invasão da Ucrânia pela Rússia. Mas não só, forçando também a clarificação da posição chinesa nesta guerra, através do convite para a China encabeçar um comité das Nações Unidas destinado a negociar a paz. O governo chinês poderia aceitar ou recusar, mas não poderia continuar a esconder a sua real posição em relação a este conflito, em que de um lado está a ditadura de Putin e do outro a grande maioria das democracias mundiais. Mais uma vez, trata-se de uma questão de distinguir os estadistas dos burocratas.
Existe um conflito latente entre os países do Leste Europeu, como a Polónia e a Hungria, que defendem que a questão da paz deve ser deixada à decisão dos ucranianos, e alguns outros estados da União Europeia, como a Alemanha e a França, que defendem a obtenção da paz à custa da cedência de alguns territórios ucranianos à Rússia. Aqui, também, trata-se da escolha típica dos burocratas pela via do menor risco e a visão dos estadistas que quase sempre são defensores dos valores e dos princípios em confronto, com a assunção dos riscos inerentes. Neste caso confesso a minha dúvida sobre a melhor via, mas não tenho a menor hesitação em admirar e apoiar o povo e o Governo ucranianos na sua decisão de continuar a lutar por aquilo em que acreditam.
Uma outra questão da guerra da Ucrânia: não hesito em preferir a posição brutal e claramente inaceitável do PCP, partido que corre o risco das devidas consequências, relativamente a outras posições de uma certa esquerda caviar, posições quer partidárias, quer individuais, que apostam na hipocrisia da defesa de tudo e do seu contrário, evitando, tanto quanto podem, dizer o que verdadeiramente pensam, refugiando-se no discurso palavroso do sim e do mais que também. Neste processo, usam citações em abundância para apregoar uma cultura que não vem para o caso e procuram afincadamente igualar os dois lados da questão, não poucas vezes de forma simplista ou apenas mentirosa. De notar que enquanto o PCP tem sido atacado sem dó nem piedade pela comunicação social, a esquerda caviar é aceite com amor e devoção em quase todas as redacções.
Esta questão da uma certa esquerda ser bem aceite, quando não dominante, em muitas redacções é um fenómeno de grande importância política e mal avaliado entre nós. Nas televisões e nos jornais há inúmeros comentadores residentes bem pagos, em alguns casos há dezenas de anos, cujo objectivo só pode ser tornar confuso e complexo qualquer tema por mais simples e evidente que seja. Nas televisões em particular, onde as palavras morrem rapidamente e a ignorância dos temas tratados é menos avaliada do que nos jornais, sobra em alguns casos a risada e a piada coxa e as referências vagas aos poderes que pagam o esforço. As perguntas feitas, quando as há, são regularmente inócuas e servem para orientar as notícias do dia, ou os temas preferidos. A preferência é usualmente dada a comentadores cuja origem, verdadeira ou falsa, tanto faz, é o chamado mundo da cultura, pessoas aptas a fazer as citações mais variadas e a queixarem-se da indiferença pagante do Estado, que geralmente defendem politicamente com convicção.
Aproximamo-nos da aprovação final do Orçamento do Estado, sem um verdadeiro debate das razões da ausência de crescimento económico ao longo de mais de vinte anos e das razões porque a economia portuguesa se atrasa relativamente aos países da antiga “Cortina de Ferro”. Como habitualmente, há festa na família socialista e na comunicação social pelo crescimento da economia este ano ser superior aos outros países europeus, mas isso para esconder que esse crescimento é o mais baixo desde 2019, período anterior à pandemia. Como sempre, são vendidas aos portugueses as mentiras mais convenientes em cada momento, na tentativa de mostrar uma realidade inexistente.
Com este Governo do PS, Portugal vive num mundo de fantasia baseado numa certa realidade paralela que apregoa todo o tipo de bem-aventuranças. Infelizmente, a ausência de crescimento económico e o empobrecimento dos portugueses é bem real e aí estão os anteriores partidos da “geringonça”, os velhos amigos do PS, para o evidenciar nas suas demonstrações de rua. Enquanto isso, a economia sofre e o empobrecimento cresce. ■




