Na senda das sucessivas demissões e escândalos que o Governo vem coleccionando, o Conselho de Ministros descortinou uma solução mágica, sob a forma de questionário prévio, com vista a avaliar a capacidade do putativo membro para o exercício de funções governativas. Para além do ridículo com o qual Costa e a sua “entourage” parecem bem conviver, o que ressalta é a manifesta inutilidade do mesmo. Lembro-me, há uns anos, entre petizes, brincarmos às invenções estapafúrdias, ou seja, ver qual de nós seria capaz de inventar a coisa mais estúpida, sem qualquer utilidade, mas sob a capa da genialidade. De todas, a ideia vencedora, foi, seguramente, a mais simples: a água em pó, à qual bastaria apenas juntar água! Foi mais ou menos isto que Costa nos ofereceu: água em pó!
Não deveríamos olhar para o questionário (que deve ter custado uma noite mal dormida a um qualquer assessor a fim de fazer capa de jornais do dia seguinte), como uma solução, antes como a manifestação visível de diversos problemas, criados por um Partido Socialista que tomou conta do Estado e que dele seca as tetas, de forma sôfrega, e de uma esquerda maniqueísta que o permite, até porque, a espaços, bebe do mesmo leite. A primeira questão que deveria merecer reflexão profunda é, o que é que permitiu chegarmos a este ponto, inédito em quase meio século de democracia. O que é que está tão errado, quer no sistema democrático, quer – e nomeadamente – no actual Governo e no primeiro-ministro que permita esta sucessão de escândalos no que respeita aos escolhidos e à falta de condições políticas, pessoais e éticas para o exercício das funções para as quais são nomeados. O que é que falhou para que apenas esta gentalha se mostre disponível para tais cargos, sem qualquer pejo em aceitá-los, ainda que sabendo não terem condições para tal? Qualquer pessoa de bem, faria um auto juízo prévio e, encontrando-se em condições que o pudessem comprometer, ou comprometer quem o convida, declinaria. Esta tropa não. Esta tropa confia na impunidade do sistema judicial, na inoperância dos mecanismos de fiscalização, acredita num jornalismo cúmplice e, quando tudo falha, conforma-se com o escândalo, a exposição, o opróbrio e a ridicularização, sabendo que, logo que o fogo acalme estarão na calha para a nomeação de qualquer outro cargo público, menos visível, mas, seguramente, mais bem remunerado…
Independentemente das cores governativas, tivemos, no nosso processo de amadurecimento democrático, quer políticos, quer pessoas da sociedade civil, impolutos, de elevado sentido de Estado e de responsabilidade e, sobretudo, de valor(es) e conspícuo espírito de missão, muitas vezes, em prejuízo das suas vidas pessoais e com manifesta perda de ganhos. Pessoas que colocavam o País (com a letra maiúscula que aqui se impõe) acima de quaisquer outros valores e que se dispunham a servi-lo para um bem comum. Sócrates inicia uma era mista, numa aparente comunhão entre estes notáveis e alguns apaniguados (dos quais Costa fez parte). Já Costa entende o Governo não como uma pluralidade de pensadores, mas como meros seguidistas e capachos, apenas capazes de abanar a cabeça em permanente anuência, daí um recrutamento, quase em exclusivo, a carreiristas partidários detentores de um cartão rosa que é quase equivalente ao “você está livre da prisão” do Monopólio…
É penoso olhar para o elenco governativo e tentar descortinar as raras excepções que detêm currículo e méritos reconhecidos para os cargos que ocupam e deveria ser preocupante que as pessoas competentes e sérias da sociedade civil não estejam dispostas a contribuir para o país. Não se diga, porém, que este é um mal generalizado da política, porquanto Passos Coelho, ainda não há muito, conseguiu tal desiderato. O problema é de quem encabeça os projectos políticos e da credibilidade que eles merecem. No caso de Costa, nenhuma, bem se vê. Em processo de crise governativa, Costa oferece ao país Galamba e Marina Gonçalves, ambos vindos da juventude partidária e sem outro mérito que não o carreirismo político. Para além de Costa entender que os ministros devem estar ao seu serviço e não ao serviço de Portugal, a verdade é que, não há hoje quem arrisque a sua carreira e bom nome ao lado do primeiro-ministro, com excepção daqueles que têm uma ambição maior do que a noção das suas limitações e que, grosso modo, se traduz na definição de perfeito idiota…
O questionário que agora se propõe mais não é do que um jogo de fumos e espelhos, destinado a ocultar os verdadeiros problemas e a mascarar responsabilidades. Pense-se no caso Alexandra Reis, que sai de empresas tuteladas pelo próprio Governo… O não conhecimento da situação por parte de Medina, Pedro Nuno Santos e até do próprio Costa, a ser verdade, é bem representativo da sua incompetência. A existir – como nos dizem as regras da experiência que deveria ter existido – é caso de polícia e apenas demonstra o regabofe a que estamos vetados. Não seria, seguramente, nem será no futuro, um questionário que afastará casos idênticos no futuro…
A outra pergunta que se impõe é: então essa verificação prévia não era feita antes? Claro que era. Aliás, vários dos nomeados estavam a contas com a Justiça, em processos que eram públicos e anteriores à sua nomeação e nunca foi óbice à mesma até estar escarrapachado na primeira página do “Correio da Manhã”. O que Costa pretende, uma vez mais, é atirar areia para os olhos dos portugueses, furtando-se a responsabilidades e ofertando uma solução que para nada serve. A promiscuidade das nomeações foi bem patente no seu primeiro governo e teve o expoente máximo com Carlos César nos Açores ao empregar quase toda a sua família. Nunca se tratou de competência, antes de impunidade.
Num questionário degradante e humilhante para os candidatos (com excepção dos jotinhas e dos medíocres), o Governo passa a responsabilidade das nomeações para quem responde, sob compromisso de honra. A tal honra que se tivessem os levaria a declinar de imediato o convite antes de passar pelo crivo de um qualquer terceiro… Ninguém sabe quem avaliará as respostas, nem quais aquelas que determinam a rejeição liminar do candidato e, menos ainda, quais as consequências para a mentira. O que se sabe é que, por artes mágicas, parece deixar de existir a figura da responsabilidade do comitente, assinando o comissário uma declaração que lhe permite ser flagelado em praça pública por quem, estupidamente e num exercício de crença, o nomeou.
A pergunta que se impõe é: se o questionário é tão eficaz assim e se é a solução de todos os problemas, porque não estendê-lo aos ministros e secretários de Estado em funções ou até ao primeiro-ministro? A piada faz-se por si mesma…
O que proponho – e com as receitas a reverterem a favor do Estado – é que se institua o “TotoMinistro”, em que cada um de nós, a troco de uns míseros euritos, pudéssemos apostar quem seria o próximo membro do Governo a cair. Isso sim, seria um jogo e tanto… ■




