Os cofres estão cheios e preparados para serem ‘derretidos’

Neste texto, bastante incisivo e notoriamente cáustico, devido à falta de paciência cada vez maior e à intolerância para escândalos e mais escândalos que todos os dias surgem a terreiro, debruço-me sobre não um, mas dois flagelos da nossa sociedade – impostores e impostos a mais –, dois elementos que andam de par em par, já que os segundos necessitam forçosamente de alimentar os primeiros de forma literal, para que estes possam sobreviver.

Duas palavras aparentemente tão distintas na sua interpretação, mas iguaizinhas nas causas, dado que estão na base dos muitos problemas que temos experienciado nos últimos anos e que a vida dos portugueses comuns é tão bem testemunha. Impostores que nos são postos à frente, de quatro em quatro anos através de eleições, e sobre os quais temos que pagar tributo, e que tributo, pessoas caras (e de que maneira) a todos nós, aparecendo em cartazes e todos os meios de comunicação social que lhes é permitido, criando uma plataforma para nos ludibriar melhor com os seus truques de prestidigitação e oratória.

Outros ainda, menos bem-falantes e com menor presença de palco e carisma, que nem os vemos ou sabemos quem são, inscritos numa qualquer fileira de partido, escondem-se dos holofotes da ribalta frequentemente e saltitam de poiso em poiso, com cada vez mais frequência e pomposos nomes que vão do assistente, passando pelo secretário até ao coordenador geral. Longe dos olhares indiscretos e escrutinadores do cidadão comum, mas fazendo-se bem presentes àqueles na leveza da carteira com que os deixam depois do pagamento do IRS, IVAs e todos os impostos encapotados que lhes vão colocando em cima para pagar no seu aparato. Leveza essa que, aliás, contrasta com a avultada carga do que o cidadão comum desconta, não para as suas vidas ou dos seus filhos e netos, mas antes para alimentar um conjunto de pessoas e entidades que, embora se julguem muito relevantes, mais não fazem do que perturbarem o desenvolvimento do país e daqueles que o habitam com os seus caprichos e mordomias, inaceitáveis num país que possui trabalhadores que não conseguem romper o círculo de pobreza, a que a ele estão condenados, mesmo que tenham trabalho, e de uma classe média em vias de extinção.

Um ciclo vicioso e retroalimentado, que é cada vez maior e mais descarado, já que os impostores são cada vez mais e o crescimento económico e a criação de valor que permita pagar, cada vez menos. Devido a esta realidade, a carga fiscal que temos suportado é das mais elevadas da Europa, estando ao nível dos países nórdicos, como Noruega e Suécia, sem que a mesma se traduza, como já referido, em serviços públicos de qualidade e ou benefícios para a população no geral. Como é bem de ver, os fenómenos estão interligados e tentar eliminá-los aqui não em sentido literal, claro, deveria ser parte de uma cidadania responsável se queremos ter futuro enquanto indivíduos e cidadãos no geral.

Mas, voltando aos sujeitos que motivaram estas linhas, e que são no fundo as estrelas desta peça jornalística – os impostores que cada vez proliferam mais em centros de decisão e corredores do poder – e que têm vindo a ser cada vez mais denunciados e desmentidos, quer na forma da sua retórica, quer no conteúdo intelectual e cultural que dizem ter, é fundamental referir que a sua permanência e sucedâneos precipitaram cada vez mais toda a riqueza gerada para que estes possam continuar, sem grandes sobressaltos, os seus currículos e carreiras, independentemente de diariamente mostrarem que são incapazes para executar qualquer tipo de função mais exigente, muito menos aquela para as quais foram predestinados e que todos nós pagamos.

Esses, sem qualquer ética, profissionalismo ou sequer competência, são cada vez em maior número e têm saturado sobremaneira as contas públicas, e porque não dizer a paciência, numa altura em que a inflação não pára de aumentar e os cofres do Estado estão cheios e preparados para serem “derretidos”, quer em palcos faustosos, quer em sorvedouros de capital que dão pelo nome de empresas públicas, ou PPPs, quer em indivíduos muito poucochinhos em que a sua incompetência entra no limite do ridículo, quer em prémios milionários para gestores, ajustes directos feitos à pressa pela ausência de capacidade de planeamento e gestão e agora, a cereja em cima do bolo, avultadas indemnizações, mesmo que os tais impostores sejam eles próprios a denunciar por livre e espontânea vontade o contrato que os vincula.

Tudo isto enquanto se tentou, felizmente sem sucesso, renovar uma frota para as tais mordomias dos que fingem que trabalham, que são competentes, que são éticos, irrepreensíveis, puros, honestos e um sem número de adjectivos que eles ou os seus advogados proferem no banco de uma comissão de inquérito, quando confrontados com as mentiras que nos vão contando com tamanha desfaçatez, julgando que todos somos idiotas para acreditar em tamanho onirismo que roça um qualquer argumento de “stand up comedy”.

Tudo isto, e o que é pior, com o alto patrocínio do Presidente da República actual, que assiste a casos e casinhos sem que tome uma atitude peremptória, ao invés disso faz visitas de campo e estudo a tudo o que é quinta, lambuza pratos e rostos de senhoras ou assiste na bancada VIP a jogos de futebol e ao circo que se tornou a política portuguesa, e da qual ele participa simultaneamente como protagonista e como espectador, tal como todos nós, enquanto o custo de vida vai aumentando e as exigências e caprichos, assim como os estratagemas daqueles que consomem o país vão crescendo e tornando-se cada vez mais complexos e elaborados.

Destas linhas se depreende que a proporcionalidade, assim como a causa efeito existente entre estas duas realidades concorrentes entre si para a estagnação, se não mesmo a destruição do país, como está bem de ver, é directa e resolver qualquer uma delas reduzirá forçosamente o impacto que a outra tem na nossa carteira e na nossa vida. Já que a correlação existe e está explicada, tenhamos, pois, a coragem de mudar esta realidade para que possamos, de uma vez por todas, ter um país menos despesista, pois é aqui e não na aposta da qualidade dos serviços públicos, ou dos funcionários, que reside o grande problema de endividamento e de despesismo deste país, aos quais o PSD na altura da “troika” não soube ou não quis pôr cobro, pois enquanto isto tudo se passar, e porque há de facto imposto(re)s a mais neste país, quer nos esforcemos ou façamos algo mais, iremos sempre deparar-nos com a dura realidade que o dinheiro não chega para alimentar tanta mordomia e exigência por parte daqueles que nem deles próprios têm qualquer exigência.

Fica o aviso!

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