Que socialismo é este?

“ Os socialistas de António Costa não perdem uma oportunidade de se servirem a si próprios”

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Num debate parlamentar recente, António Costa afirmou, mais ou menos, o seguinte: que os deputados da Iniciativa Liberal tinham de crescer muito para se compararem com o Chega. Ou seja, para o considerado esperto primeiro-ministro António Costa o adversário é a Iniciativa Liberal, de quem o PS tem algum medo, e o aliado é o Chega. Aliás, o Partido Socialista tudo tem feito para manter o partido de André Ventura nas notícias e na Assembleia da República as diatribes de Augusto Santos Silva não fazem outra coisa. Para um partido do protesto não há nada melhor para favorecer o seu crescimento do que as chamadas injustiças do sistema político a seu respeito.

Nas últimas semanas, em que o Governo e o PS estiveram sob o escrutínio público, que se verificou, sem margem para dúvida, quem são hoje os socialistas que governam o país. Nestas semanas foi mostrado de forma clara que o Partido Socialista de António Costa, de Carlos César e de Augusto Santos Silva, nada tem a ver com o PS de Mário Soares, de Salgado Zenha e de Jorge Sampaio. Basta olhar para os seus passados, para os seus percursos políticos e, principalmente, para a qualidade das pessoas que os rodeavam ou rodeiam para ver um abismo de diferença. Os socialistas de Mário Soares serviram o país com dignidade e, como verificámos nestas últimas semanas, os socialistas de António Costa não perdem uma oportunidade de se servirem a si próprios.

Por isso, a verdadeira questão hoje não é ser a favor ou contra o PS, a questão é que a actual casta dirigente do PS tem muito pouco a ver com os ideais do socialismo de Mário Soares, com a sua história e com as suas gentes. São essencialmente um grupo de arrivistas, que tendo tomado o poder partidário nas condições conhecidas e tendo perdido as eleições, assumiram, com a participação da máquina de propaganda criada por José Sócrates, todos os recursos do Estado. O resultado são sete anos de facilitismo, de incompetência governativa e de sucessivos erros económicos e financeiros que nos colocaram na cauda da Europa. O ideal de Mário Soares de uma Europa para o desenvolvimento, tornou-se, com António Costa, na árvore das patacas da sua sustentação partidária, cujos fundos contribuem para alargar o poder do actual PS sobre a sociedade, sem desenvolvimento e sem futuro.

A incompetência dos governos de António Costa, a escolha desastrada de ministros e de secretários de Estado, a seguir aos anos negros de José Sócrates, de que António Costa é o continuador, destruíram o sistema financeiro a favor da Espanha, endividaram o país para além de toda a razoabilidade, interromperam o investimento e o crescimento económico do tempo de Cavaco Silva, deram cabo da TAP, não sabem o que fazer com o aeroporto de Lisboa, aldrabam o muito importante tema da ferrovia e criaram as condições ideais para o crescimento dos serviços de saúde e de educação privados à custa dos serviços públicos. Estes são dados objectivos, quantificáveis, não são opiniões. De facto, o único aparente sucesso dos governos socialistas de António Costa na área da gestão pública foi conseguido na Caixa Geral de Depósitos e através de um quadro oriundo do PSD.

Entretanto, a bagunça governativa continua. Soubemos pelas notícias que a ministra da Agricultura conseguiu o que muitos poucos conseguem, que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa lhe alugasse uma casa para viver no centro da cidade, por um valor que é metade do preço de mercado. Nas mesmas notícias soubemos que se alguns cidadãos, como Bagão Félix, não tivessem impedido o investimento da mesma Santa Casa no Montepio, lá teriam ido mais uns largos milhões de euros para o lixo. A Santa Casa de Lisboa representa um abono certo para muitos socialistas e sociais-democratas à vez. Quanto ao Montepio, depois da gestão danosa do senhor prior e companhia, a Associação vai continuar a ter muitas dificuldades. Os associados que se cuidem.

Aconteceu esta semana uma boa notícia – também existem –, foi publicada uma “Carta Aberta-Ferrovia, Alavanca do Desenvolvimento Económico”, assinada por mais de trinta dirigentes das principais associações empresariais e outros especialistas, que teve uma ampla divulgação e os apoios mais variados, nomeadamente dos sectores económicos. Do Governo, nada; do palavroso ministro João Galamba, o silêncio. Entretanto, a União Europeia continua a criar apoios financeiros, agora para as empresas transportadoras alargarem a aumentarem as ligações entre as principais cidades europeias e surgiu um movimento no Norte de Portugal a debater a necessidade de uma linha em bitola europeia para a ligação do Porto a Madrid. Também aqui o Governo apenas pretende aprovar o seu plano ferroviário contra a opinião da generalidade dos empresários, nomeadamente dos sectores exportadores que conhecem bem os perigos da ilha ferroviária portuguesa e da dependência nacional dos nossos concorrentes espanhóis.

Com o desaparecimento do espaço público do ex-ministro da tutela da TAP, o novo ministro João Galamba já fez a sua entrada em cena e, como é seu hábito, foi em grande: esteve cinco minutos numa reunião com os pilotos da TAP e saiu porta fora sem dizer água vai. Por sua vez, o ministro da Economia recordou, sem se saber bem porquê, que a empresa que junta a British e a Ibéria poderá ter interesse em comprar a TAP. Deveria ter explicado que essa é a pior solução, já que terminaria com o “hub” de Lisboa, que é hoje a razão principal da existência da empresa.

Agora, semana sim semana não, surgem novos locais para o novo aeroporto de Lisboa, mas o Governo continua sem fazer o que seria óbvio fazer, como defendo há anos, e que é a avaliação da capacidade do aeroporto existente ser prolongado para Norte – pista e acessos dos aviões –, afastando o barulho e a poluição da cidade, além de aumentar a sua capacidade, o que provavelmente acabaria por não justificar um novo aeroporto nos próximos vinte anos. Claro que para isso seria preciso reduzir o barulho do turismo.

Para isso e para tudo o resto, seria também preciso termos um Governo a sério, devotado ao interesse nacional, capaz de planear e de organizar, além de combater a corrupção e que valorizasse a competência e o mérito dos portugueses. Estes seriam os critérios que o Presidente da República deveria usar para decidir, ou não, avançar para novas eleições. Duvido que o faça, pelo menos com estes critérios.