Recuando ao 25 de Abril, o palco sindical foi dividido pela CGTP, manifestamente comunista, e a UGT de base socialista, mas que integra ainda alguns quadros afectos ao PSD. Aliás, cabe aos sociais-democratas indicar o “nome” do presidente desta Central, enquanto o PS designa o seu secretário-geral. Neste cenário bipartido ficaram, por tradição, alguns escassos sindicatos que se assumem como independentes. Exemplo disso, o Sindicato dos Jornalistas.
Mas agora o cenário mudou. As centrais sindicais ainda são “precisas”, mas já não possuem o monopólio da contestação, tendo de dividir a rua com outros protagonistas.
O caso STOP
Na rua há mais de um mês numa greve selvagem, que prejudica alunos e pais, está o STOP, que se insurgiu contra os serviços mínimos decretados nos termos da Lei da Greve.
O coordenador do Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (STOP) já enviou um pedido às duas centrais sindicais para marcarem, o quanto antes, de preferência ainda este mês, uma greve geral.
“A CGTP condenou, e bem, este atentado ao direito à greve e nós apelámos também à UGT para marcarem uma greve geral”.
O coordenador do STOP lembrou que, sendo as duas centrais sindicais as únicas que podem marcar uma greve geral, que “o façam para quanto antes, de preferência ainda para este mês”, sendo que “foi enviado um apelo” para as duas estruturas.
No seu entender, “pode ser marcada ainda para Fevereiro, havendo essa vontade”, já que ao STOP cabe “fazer um apelo construtivo para que isso aconteça, porque todos os sectores profissionais estão a sofrer”.
“A CGTP, que se manifestou por causa dos serviços mínimos, então, que seja consequente e que marque uma greve geral para defender a escola pública, que é transversal a todas as profissões”, destacou.
Mas, também, continuou André Pestana, “porque esta greve geral devia dizer, claramente, ao Governo que deve deixar de priorizar os milhares de milhões de euros para os banqueiros e para as parcerias público-privadas ruinosas”.
Dos três pontos que saíram da reunião com mais de uma centena de representantes de comissões sindicais, um é para “afirmar que, apesar dos serviços mínimos, a greve vai continuar”, vincou o sindicalista.
Um último ponto, acrescentou, é que foi feito “um apelo aos organizadores da manifestação de docentes de amanhã, 11 de Fevereiro, para juntar as reivindicações dos não docentes”.
No entender do coordenador do STOP, “a unidade entre os docentes e não docentes é que fez do mês de Janeiro um dos maiores meses de sempre de luta na área da educação”, em Portugal.
Quem é André Pestana
O novo “patrão” dos professores tem toda a escola da extrema-esquerda. Em novo começou da JCP, a organização do PCP para os jovens. Mas mal se criou o Bloco de Esquerda “saltou” para a nova força política. Acabaria por sair integrando o MAS, um partido criado por dissidentes do Bloco que queriam uma visão mais esquerdizante para a sociedade.
Com este percurso feito, Pestana assumiu-se como um sindicalista independente, fora das duas centrais sindicais, que só “utiliza” em caso de dificuldade.
O exemplo de Pestana, de uma greve selvagem, mas de grande adesão dos professores e funcionários das escolas, pode esvaziar ainda mais as duas centrais sindicais, a braços nos últimos anos com a perda de muitos filiados.
O novo sindicalismo tem tudo para crescer numa sociedade como a portuguesa, onde os extremos políticos da direita e da esquerda ganham força.
CGTP de fora
Entretanto, a CGTP já assegurou acompanhar a luta dos professores e de todos os profissionais cujas condições de trabalho foram degradadas, mas escusou-se a comentar o pedido do STOP.
“Eu não vou responder à greve geral. A CGTP tem a sua acção e actividade. Organiza a luta dos trabalhadores e tem vindo a desenvolver a sua intensíssima luta, desde sempre, e também no último ano, com a brutal degradação das condições de vida e de trabalho a que estamos a assistir neste país, fruto de problemas estruturais e de opções dos sucessivos governos, como baixos salários, precariedade, horários longos e desinvestimento nos serviços públicos”, afirmou a secretária-geral da CGTP, Isabel Camarinha.
A sindicalista recordou que a CGTP convocou um dia de indignação e protesto – que decorreu ontem – tendo por objectivo mobilizar todos os trabalhadores, cujas condições se têm vindo a degradar, onde se incluem, conforme notou, os professores e os restantes profissionais do sector da educação.
A secretária-geral da CGTP vincou que a escola pública é um “bom exemplo” do desinvestimento nos serviços da administração pública, à semelhança do que acontece com o Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Neste sentido, Isabel Camarinha defendeu que “todos os que se identifiquem com os objectivos” que a CGTP definiu para este dia de luta “têm uma boa oportunidade para juntar o seu protesto, indignação e exigência de resposta aos problemas”.
A líder da intersindical perspectivou uma grande adesão da contestação com os trabalhadores na rua a defenderem a subida dos salários, contra o aumento do custo de vida e pelo controlo de preços, justificando ter indicadores que apontam para “um enorme número de trabalhadores em greve, acções de paralisação, concentrações, plenários”.
Isabel Camarinha vincou que os professores, “nomeadamente os que estão organizados nos sindicados da CGTP, da Fenprof, têm estado a desenvolver uma intensíssima luta”, onde se incluem greves de 24 horas em todos os distritos, que juntam “centenas ou milhares” de pessoas, bem como manifestações.
Já a UGT começou a semana a fazer-se de morta quanto os pedidos do STOP. Pelas bandas da central sindical afecta ao PS não são de esperar greves gerais. O seu silêncio é revelador disso mesmo. ■




