Entre Eduardo Lourenço, José Marinho e Agostinho da Silva (II)

Eis, desde logo, segundo José Marinho, o caso, exemplar, de algumas das teses de Sampaio Bruno – nas suas palavras: “Pode e deve dizer-se que o nosso filósofo antecipa com seu pensar ao mesmo tempo difuso e concentrado, algumas das formas mais autênticas da filosofia e dos caminhos da nossa época.”; “Como para todo o pensamento europeu desta nossa era, resultava imperioso para a filosofia portuguesa levar ao limite o sentido da negatividade. Tal foi a façanha decisiva de Sampaio Bruno.”. Quem conhece a sua obra, sabe o que Marinho entende por este “levar ao limite o sentido da negatividade”: trata-se, precisamente, de extremar a “cisão extrema” – a cisão, a “situação de extrema separatividade [do homem] em relação a Deus e à Natureza”, e a si próprio –, dado que só assim, na extremação da cisão, será possível potenciar a “união cumulativa” entre “Deus”, a Natureza e o homem.

Ainda que por outros motivos, não considera igualmente Álvaro Ribeiro que o pensamento brunino esteja ultrapassado – ao invés, defendeu que “o pensamento filosófico de Sampaio Bruno, longe de ser retardatário ou anacrónico, pertence à nova idade que contamos a partir de Kant”. A mesma consideração estende, aliás, a toda a “filosofia portuguesa” – nas suas palavras: “Afastados da Europa Central, por situação geográfica e por missão histórica, desatentos à aurora e ao crepúsculo da filosofia ‘moderna’, (da Renascença ao Iluminismo), talvez os portugueses preservassem dessa maneira uma qualidade oculta mas original; assim, o que na linha internacional parece marcha retardatária, talvez possa ser interpretado como fidelidade nobilíssima, se não como astúcia antevisora.”.

Eis, igualmente, a perspectiva de Agostinho da Silva: não devemos lamentar esse “desfasamento”, dado que é ele que nos “salvaguarda” e que pode vir, inclusive, a reorientar a Europa, todo o Ocidente – nas suas palavras: “…quando a técnica tiver esgotado todas as suas possibilidades, quando a economia protestante se verificar plenamente anti-humana, quando a centralização estatal se revelar estéril, Portugal virá de novo construir o seu mundo de paz, por maior que tenha de ser o seu sacrifício: mundo de uma paz que não surja como a Romana ou a Inglesa, do exterior para o interior, de um César para os seus súbditos, dos tribunais para os corpos; paz que se realize antes de tudo nas almas, lei que seja inteiramente não escrita e, no melhor de si, informulada; Reino de Deus que surja pela transformação interior do homem.”. Na perspectiva de Agostinho, eis, aliás, a “missão” – ou, melhor dizendo, a “acção” – pela qual se cumpririam, enfim, as Descobertas.

Agenda MIL: 5 de Junho, 21h30, via zoom: “António Telmo, Filósofo Português”; 6 de Junho, 18h, no Palácio da Independência (Lisboa): “Lusofonia e Catolicismo”; 6 de Junho, 21h30, via zoom: “Da defesa dos oceanos a um novo paradigma do mar” (para mais informações: www.movimentolusofono.org).

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