Portugal é hoje um país à deriva, sem direcção certa e vivendo de impulsos contraditórios. Não é uma novidade, de facto, como País de Navegadores, apenas no século XV fizemos bom uso do princípio de que não há bom vento para quem não sabe para onde vai. Foi com esta consciência que em 1995, numa estadia no Japão, tomei conhecimento da estratégia japonesa de poucas palavras e de forte conteúdo, de 1946 e de 1956, que me impressionou e que me levou, com a ajuda do saudoso Professor Veiga Simão e do dr. Jaime Lacerda, a escrevermos uma síntese estratégica publicada em 2003 como parte da Carta Magna da Competitividade da AIP.
Foi o mesmo impulso que pouco depois me levou a escrever o livro “Uma Estratégia Para Portugal”, onde republiquei essas sínteses estratégicas, as do Japão e a nossa proposta para Portugal. Talvez valha a pena, depois de tantos anos passados, voltar atrás e recordar o que considero, sem falsa modéstia, serem dois marcos, porventura históricos, do Japão e de Portugal.
Japão 1946
“No futuro, a tecnologia representará o papel principal na economia japonesa. O sentido principal da reconstrução da economia japonesa é na direcção da democratização da economia e na elevação dos níveis tecnológicos”.
Japão 1956
“O período do após guerra terminou. O aumento do investimento através da inovação tecnológica será o elemento principal do crescimento económico”.
Portugal 2003
Síntese estratégica
“O futuro de Portugal depende da capacidade de conjugar, a diversos níveis, os desafios e vantagens decorrentes da sua participação na EU com as oportunidades que podem resultar do desenvolvimento das suas relações extracomunitárias com os EUA e com os países da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa).
O novo modelo económico (no contexto da União Europeia e da globalização) deve ter um enquadramento flexível e privilegiar o desenvolvimento e modernização dos sectores produtores de bens transaccionáveis (produtos e serviços susceptíveis de concorrência nos mercados internos e externos) desejáveis nos mercados externos em virtude das suas características de inovação, tecnologia e valor.
O factor humano qualificado, culto e motivado, a produção científica e tecnológica organizada e o acesso rápido, fácil e barato ao mundo através de telecomunicações, de sistemas de informação e transportes são os recursos essenciais.
A criação de vantagens competitivas nos mercados europeus tradicionais e a diversificação das relações comerciais e de investimento impõem relações mais intensas da economia e do sistema científico e tecnológico com mercados e parceiros exigentes.
Em suma: Um forte empenho da sociedade portuguesa na economia do conhecimento baseado num crescimento sustentado, na qualidade e na inovação e orientado para aumentos significativos da produção de bens e serviços transaccionáveis”.
Tal como no Japão, cada palavra da síntese portuguesa foi debatida aprofundadamente e durante muito tempo. Feliz ou infelizmente, não conseguimos usar a economia de palavras da estratégia japonesa, mas as condições histórias e a cultura dominante também eram diferentes. No caso do Japão em 1946 a palavra tecnologia bastava, tinham perdido a guerra devido à superioridade tecnológica dos Estados Unidos, mas em1956 surgiu a palavra inovação, inovação tecnológica, porque já não lhes bastava a tecnologia entretanto recebida da América.
É para isso que serve uma estratégia: para fazer com que um povo e uma economia possam convergir num determinado objectivo e evitar, como no mau futebol, chutar para o lado em que se está virado.
Hoje, se olharmos para cada palavra da síntese estratégica portuguesa com a nossa realidade, a diferença é chocante:
1 Em vez da sociedade do conhecimento, temos pobreza e ignorância e o ensino mais importante que é o dos primeiros anos de vida das nossas crianças acentua a desigualdade.
2 Em vez de concorrência, o Governo persiste claramente em que a bitola ibérica na ferrovia evita a concorrência internacional. Não é um acaso, é a política proteccionista do Estado;
3 Em vez da produção científica e tecnológica, temos mais de 90% das empresas portuguesas muito pequenas e quase exclusivamente nas áreas do comércio e a actuarem apenas no mercado interno;
4 Em vez de mercados exigentes, privilegiámos durante algum tempo o Brasil, a Venezuela e a Líbia, para agora não sabermos o que privilegiar;
5 Em vez de bens transaccionáveis, muitas das grandes empresas do regime vendem serviços internos protegidos da concorrência internacional;
6 Em vez do “acesso fácil e barato ao mundo”, temos as telecomunicações entre as mais caras da Europa e uma ferrovia caseira destinada a evitar a concorrência.
A necessidade de reescrever este texto passados já alguns anos destina-se, mais uma vez, a chamar a atenção dos portugueses de que um país sem estratégia é um barco perdido sem horizonte à vista. ■




