Brasil e Portugal na guerra civil de Espanha

Neste momento em que a questão ideológica entra na ordem do dia mundial, em que uma nova Guerra Fria envolve o Ocidente e a aliança que sucede ao comunismo e, em especial, a URSS, que é o eixo China-Rússia e os países bolivarianos (Bolívia, Equador e Nicarágua), o ambiente assemelha-se muito ao que o mundo viveu quando irrompeu o levante dos democratas espanhóis, diante a iminência da implantação de um estado comunista no país ibérico em 1936. A jogada de Estaline, com a Rússia ainda em graves dificuldades, incluindo fome, era ousada, na medida em que acreditava que o momento da expansão do comunismo passava pela Espanha, Portugal e América Latina. O Brasil já tinha tido a Intentona Comunista, em Novembro de 1935, e em Portugal a oposição ao regime do Estado Novo estava praticamente sob domínio comunista. Os comunistas chegaram a tomar três barcos da Marinha de Portugal. 

A situação espanhola, que parecia decidida pelo regime comunista, despertou a atenção dos democratas e católicos que viram com alegria e esperança o movimento do General Franco, em Julho de 1936. 

Portugal posicionou-se logo, com evidente simpatia de Salazar pela causa franquista, convencido que a esquerda em Espanha representaria o fim do regime português em curtíssimo prazo. As identidades entre os dois homens de Estado eram evidentes, na ligação com a Igreja, na oposição ao comunismo, na luta pela preservação do regime capitalista e na garantia de direitos fundamentais de uma sociedade livre. 

Enquanto Portugal, com a adesão ao protocolo de inspiração inglesa de não participação no conflito, definido como “questão interna”, teve de camuflar o seu apoio, o Brasil adoptou uma postura singular ao manter uma representação diplomática junto dos governos de Madrid e Burgos. No Brasil, o grande apoio veio da comunidade portuguesa, então numerosa e influente, tendo no prestígio do jornal “Voz de Portugal” o intérprete da solidariedade. Uma comissão de representantes dos empresários portugueses no Brasil, liderada por Vitorino Moreira, um emigrante que chegou a director da Associação Comercial do Rio e dirigente da federação das associações portuguesas, foi a Lisboa entregar ao então presidente, Marechal Carmona, um documento de apoio e solidariedade à Espanha cristã. 

Brasileiros em combate junto a Franco foram poucos, estimados em 20, sendo que muitos portugueses morando no Brasil. Mas, para as brigadas internacionais foram muitos, especialmente comunistas militares que participaram na Intentona e viviam na clandestinidade, e outras lideranças, algumas de relevância, como Roberto Morena, que depois foi até deputado do Partido Comunista, e Apolônio de Carvalho, fundador do partido no Brasil. Mas Getúlio Vargas, muito discretamente, tinha simpatias pela causa franquista e chegou a enviar um barco de café e açúcar como doação, pedindo reserva no gesto. No pós-guerra, quando a ONU indicou que os seus membros não deveriam ter representação a nível de embaixada em Madrid, o Brasil manteve como seu encarregado de negócios um relevante diplomata, Vasco Leitão da Cunha, que já havia sido ministro da Justiça e, em 1964, ministro das Relações Exteriores, dando mostra da importância da ligação entre os dois países. Depois, em 1950, o Brasil era um dos oito países com embaixadores em Madrid, com Portugal, Vaticano, Argentina e Peru. Já a Espanha tinha como representante no Brasil o Conde Casas Rojas, que foi autor de significativo documento: a nota diplomática lembrando que a Espanha permanecia como uma barreira ao comunismo e que as restrições da ONU, inclusive ao ingresso do país – o que só ocorreu em 1955 – tinha o patrocínio da União Soviética. 

A comunidade israelita no Brasil, já com alguma relevância na economia e na sociedade em geral, também influiu na postura do Brasil, pois a maioria de seus membros que chegaram durante o conflito europeu veio com passaportes espanhóis, em número estimado de 15 mil. E nos meios empresariais com tradição no comércio entre os dois países também houve apoio efectivo, especialmente no fornecimento de produtos agrícolas. Em Portugal, a actuação do empresário Alfredo Silva foi importante no transporte de armas que chegavam de Antuérpia e eram levadas a portos espanhóis discretamente pelos navios da CUF, segundo informações da inteligência inglesa, assim como Ricardo Espírito Santo junto da banca inglesa. Salazar mandou como representante de Portugal em Burgos o influente Pedro Teotónio Pereira, que depois foi embaixador em Madrid, e Franco mandou a Lisboa, nada mais nada menos, que o seu irmão Nicolas. Impedido de ajudar de maneira clara, Portugal fechou os olhos para a formação do grupo dos Viriatos, treinados para participarem do lado democrático. 

A divisão no campo político em relação à invasão da Ucrânia tem muito do ambiente que envolveu a guerra civil e o mando de Franco até a sua morte no tabuleiro das disputas pela influência no mundo. Nixon, talvez o estadista americano de maior visão do mundo em seu tempo, justificou a acção dos EUA, quando então vice-presidente, em 1955, da integração da Espanha na ONU e demais organismos internacionais como uma opção pragmática. Durante todo este tempo o Reino Unido foi tolerante com as relações da Espanha com a Itália e a Alemanha, pois Churchill sabia que o nazi-fascismo terminaria com seus líderes e a guerra, mas o perigo seria, como foi, o comunismo.  A história repete-se, sim!

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