Ontem houve eleições em Espanha e a direita ganhou por pouco. Ficou à frente do PSOE e em terceiro lugar ficou a chamada extrema-direita, o famigerado Vox. O drama é que a esquerda, junto com a extrema-esquerda e os partidos a favor da independência basca e catalã, consegue uma maioria absoluta, apesar de esse cenário obrigar a uma “gerigonça” à espanhola. A Espanha tem 17 autonomias, o que significa 17 parlamentos, 17 governos regionais, 17 povos a pensar diferente e com diferentes aspirações. Depois, temos o governo central em Madrid, que é, por assim dizer, a primeira e a última autonomia.
Como todos sabemos, a Espanha foi inventada e criada no século XVI pelos Reis Católicos e o primeiro monarca a reinar sobre uma Espanha unida e pacificada foi um dos seus netos, o Habsburgo Carlos V, filho de Joana a Louca e de Filipe o Belo. Ele teve um dos maiores impérios da história. A origem começa no Sacro Império (Europa central), ao que acrescentou o que seria hoje o Benelux (Borgonha e Países Baixos) e depois a referida Espanha, junto com o Novo Mundo e, por altura dos Filipes, também Portugal. Foi às ordens deste imperador que foi organizada e financiada a primeira viagem de circum-navegação do mundo. O epicentro de todo este império residia em Madrid. Por isso mesmo ele dizia: “No meu império o sol nunca se põe”.
Alguns vestígios desse império gigante ainda se encontram bem presentes nos palácios e museus de Madrid. Mas onde essa postura se alojou bem fundo foi no coração dos castelhanos.
Portugal também teve um império, mas o português não tem uma postura imperial, antes pelo contrário. Às vezes, ali para os lados do BE, até parece que tem vergonha.
Castela unificou todos os reinos à sua volta, faltando apenas Portugal.
Tentaram várias vezes e até após a queda da monarquia espanhola, nos princípios do século XX, a extrema-direita, acabada de chegar ao poder, na pessoa de Primo de Rivera, e mais tarde também Franco, especulou com essa ideia.
De tal maneira que a tese de doutoramento de Franco foi precisamente “A invasão de Portugal em 24 horas”.
Dou de barato que a invasão se desse em 24 horas, a ocupação seria seguramente muito mais longa…
No final da II Guerra Mundial, num encontro entre Franco e Salazar, o Generalíssimo, meio a brincar, meio a sério, questionou Salazar sobre a questão da união ibérica, ao que este respondeu:
“Sabe Generalíssimo, já estou velho para tomar conta disto tudo”. O outro soltou uma sonora gargalhada e a conversa continuou.
Tudo isto para dizer que a Espanha e os espanhóis têm tiques imperialistas, mas, como referido, a história explica tudo.
E é por isso mesmo que as autonomias foram a reposta possível a todas essas forças que tentam separar as partes do todo.
Todos sabemos que quando foi preciso escolher entre a Catalunha e Portugal, os Filipes optaram pela primeira. E com toda a razão.
Portugal teria sido fácil de dominar, pois estava falido e sem exército, mas o fogo de uma Catalunha independente poderia ter alastrado ao resto da Espanha e esse risco eles não quiseram correr.
Quando, 20 anos mais tarde, se voltaram para nós, já foi tarde, perderam o momento.
Portugal teve tempo de se financiar, organizar e chamar especialistas estrangeiros, e em Montes Claros, em 1668, tudo ficou decidido.
O poder central, seja ele qual for, tem e terá sempre de lidar com as forças separatistas; no entanto, é interessante observar como a direita e a esquerda lidam com este fenómeno.
A direita mais radical rejeitou e combateu as autonomias, de tal forma que fizeram nascer a ETA, no País Basco, e proibiram o ensino do catalão na Catalunha, para dar apenas dois exemplos.
Com a democracia, vinda pela mão de um Rei (daí eu pensar que a democracia funciona melhor em ambiente monárquico do que em ambiente republicano) começaram as negociações e o combate foi esmorecendo.
A esquerda tem mais facilidade em fazer concessões, pois é por natureza mais tolerante e compreensiva, sendo por outro lado menos pragmática e também menos objectiva, pelo menos no Ocidente, pois no Oriente já não é tanto assim. Eu vejo a esquerda como a mãe que perdoa e compreende e a direita como o pai, que muitas vezes faz o papel do “mau da fita”. Infelizmente, alguém tem de o fazer. Esse o drama da eterna rivalidade esquerda-direita.
A Espanha não escapa a esta regra e agora, com este resultado, temos mais uma vez um impasse complicado de resolver.
O PP (centro-direita) não consegue maioria absoluta com o Vox (extrema-direita), porque este último veio dizer no final da campanha que queria reverter as autonomias. Este cenário encheu os espanhóis de medo, o que se reflectiu na inesperada subida do PSOE que, tendo ficado em segundo lugar, consegue com toda a esquerda uma maioria absoluta de deputados nas Cortes.
Portanto, ou a esquerda deixa a direita governar, ou vamos para novas eleições. Tudo isto indica uma perigosa tendência.
O terceiro cenário (“geringonça” espanhola) está nas mãos do Rei, que seguramente não vai arriscar entrar na história como o Rei de desmembrou a Espanha. Sobretudo tendo um pai que ficou na história como o Rei que devolveu a democracia aos espanhóis.
O centro está cada vez mais refém dos extremos; os moderados, que são a maioria, estão nas mãos das minorias.
Isso já era mais do que visível nas redes sociais e na comunicação social, agora está também a passar para a esfera política.
Antigamente era com golpes de Estado que as minorias chegavam ao poder, hoje é com intoxicação da opinião que o fazem, seguindo as regras da democracia. É muito perigoso que sejam as minorias a mandar.
Antigamente cantávamos “E viva Espanha”. O que será que vamos cantar daqui a uns anos? ■




