O partido socialista (PS) foi refundado no estrangeiro cerca de um ano antes da “abrilada”, apoiado financeiramente pela internacional socialista.
Logo que se tornou evidente que o golpe miliar teve sucesso, os comunistas tomaram conta da ocorrência, após décadas de subversão. O PS teve de correr atrás do prejuízo. Estava em marcha o PREC (processo revolucionário em curso).
Mário Soares lutou arduamente pela democracia contra Álvaro Cunhal, o partido comunista (PC) e a esquerda folclórica, a “esquerda não democrática”, por isso foi apelidado de pai da democracia. Esta só foi possível em 25 de Novembro com os outros partidos, o “grupo dos nove” e, sobretudo, a forte reacção do povo, farto do PREC. Com Sá Carneiro, ajudou a libertar a política do controle militar. Teve ainda de gerir uma pré-bancarrota sob a batuta de Ernâni Lopes, em ambiente de grande austeridade, que estranhamente veio mais tarde a criticar quando outros foram forçados a praticá-la. Um verdadeiro animal político que acabou Presidente da República.
O PS retoma o poder com o segundo magnífico, António Guterres, oferecendo “bacalhau a pataco” (rendimento mínimo garantido), apesar de Cavaco lembrar que não se deve trabalhar sem receber, também não será boa ideia receber para não trabalhar. É um católico progressista, inteligente e bem-intencionado, mas avesso a tomar decisões. Conseguiu transformar isto num pântano, com a preciosa ajuda do “bando de Macau”, não sem antes acelerar a ocupação do Estado pelo Partido Socialista, os célebres “jobs for the boys”. Foi para a ONU, um lugar adequado às suas qualidades.
Depois chegou José Sócrates, embalado pela crescente ocupação do Estado, convenceu-se que podia ser dono disto tudo (DDT), quando era um simples serventuário do verdadeiro DDT. Ambicioso, megalómano e mentiroso compulsivo, conseguiu transformar boas ideia em negócios ruinosos por algum défice de carácter e má relação com o dinheiro público. O país caiu em pré-bancarrota (a terceira e mais grave), obrigando ao memorando de acordo de Sócrates com a “troika” de credores, que implicava forte austeridade para equilibrar as contas públicas, com aumento de impostos, maior corte na despesa e alienação de activos (TAP, etc.). Perdeu-se a sua veia reformista e sobrou a sua “reforma”, graças a familiares e amigos do coração.
A cereja no topo do bolo é o magnífico Costa. Perdeu as eleições, mas formou Governo com o apoio da extrema-esquerda (a esquerda não democrática de Soares), iniciando o PREC 2 e suas consequências. Dificilmente uma associação de forças com posições opostas em questões fundamentais como o projecto europeu, a OTAN, a economia de mercado, a propriedade, o lucro, isto é, o modo de vida ocidental, poderia dar certo, mas o cheiro do poder faz milagres. E a comunicação social elegeu o habilidoso à categoria de “hábil negociador” que tinha posto PC e Bloco no bolso, quando era o contrário. O Governo Costa 2015 ficou condicionado por eles, não podendo fazer as reformas necessária e até reverteu algumas que o anterior Governo tinha conseguido (os transportes, a TAP, as 35 horas da função pública, etc.). Foram quatro anos perdidos de propaganda, ilusionismo, meias-verdades e mentiras, como virar a página da austeridade com perda do poder de compra, recorde de impostos (sobretudo indirectos e taxas menos visíveis), orçamentos falseados pelas elevadíssimas cativações e dívida pública sempre a subir em valor absoluto para conseguir as “contas certas” exigidas por Bruxelas. O empobrecimento do país levou a ainda mais dependência, a base social que permite ganhar eleições, e Costa lá conseguiu ganhar as primeiras legislativas. Chegou a pandemia muito “temida” e o povo com medo fechou-se em casa e a economia afundou. Muito mal gerida, como seria quase inevitável dada a degradação dos serviços públicos, em particular o SNS, resultado das célebres cativações e má organização. O poder do Estado, já exagerado, saiu reforçado. Comunistas e bloquistas retiram-lhe o apoio e o Presidente da República, amante da estabilidade que afinal é estagnação, vê-se obrigado a convocar eleições antecipadas. O povo, convencido que era “aquela malandragem” que não permitia as reformas, dá ao PS de Costa a maioria absoluta. Foi então que se percebeu que Costa não tem uma ideia, uma estratégia para o país, nem arranja quem saiba governar e até tem dificuldade em gastar o dinheiro que lhe caiu do céu de Bruxelas, quanto mais aplicá-lo de forma certeira para sairmos do buraco em que os socialistas nos colocaram. Se o PS tem nos seus programas eleitorais, desde 2019, com excepção do último, a reforma da lei eleitoral, porque é que com maioria absoluta não provoca a discussão e aprovação da reforma da mesma?
O homem só sabe gerir o poder pelo poder e procurar manter a grande família socialista acomodada. Se ninguém o quiser lá fora, talvez continue pelo menos até 2026 ou tente arranjar um substituto à altura. Atrás de mim virá quem de mim bom fará, infelizmente. ■




