Autópsia à governação Costa

António Costa teve uma educação marxista, mas cedo verificou que no PCP não iria longe e construiu a sua carreira política no Partido Socialista, guiando-se através das diferentes tendências, umas vezes mais à direita e outras mais à esquerda, mas sempre com o objectivo de criar uma base de apoio suficientemente forte para chegar ao topo e cedo viu na “geringonça” um meio de acesso ao poder.
Foi irrelevante para ele saber se a “geringonça” seria uma solução política promotora do crescimento da economia e do desenvolvimento do país, limitando-se, com a ajuda de Pedro Nuno Santos, a levar a cabo uma permanente negociação de base ideológica com os seus parceiros, portadores de opções políticas e económicas desajustadas do tempo e do espaço da União Europeia.
Nesse processo, António Costa acumulou decisões de base ideológica como a nacionalização da TAP; a bitola ibérica na ferrovia; a redução apressada e irresponsável das horas de trabalho dos funcionários públicos; o fim das parcerias na Saúde e um Serviço Nacional de Saúde consumidor de recursos; mas que compromete a saúde dos utentes, tudo pela via da rigidez ideo-
lógica defendida pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, mesmo que isso tenha custado milhares de mortos durante e após a pandemia, a meias com a estagnação provocada pelo modelo económico errado, mas que sobreviveu à “geringonça”.
A sobrevivência de António Costa no poder durante oito longos anos não seria possível sem uma forte máquina de propaganda, criadora de factos políticos nos telejornais sem quaisquer preocupações de verdade, o que lhe permitiu: (a) a ocupação de todos os cargos de gestão da administração pública e do Estado por membros da grande família socialista, bem como em algumas empresas privadas, como a EDP; (b) a unidade de interesses criada entre a família socialista, que passou a falar a uma só voz; (c) uma grande parte da comunicação social dominada por comentadores comprados pelo dinheiro e pela glória da visibilidade pública; (d) uma forte relação com o mundo dos negócios, envolvendo interesses de curto prazo; (e) a utilização do poder para alavancar relações proveitosas para os participantes políticos e empresariais; (f) permitir o crescimento da corrupção, primeiro entre membros da família socialista e depois em máfias de grupos organizados, como é o caso ocorrido no Ministério da Defesa e no caso “Influencer”.
Acresce que durante os últimos oito anos António Costa cometeu erros de gestão imperdoáveis, que contribuíram para o fraco crescimento económico e para o empobrecimento dos portugueses. Vejamos alguns: (1) nacionalização da TAP; (2) aceitação passiva dos encargos resultantes das parcerias público-privadas de José Sócrates; (3) adopção da bitola ibérica na ferrovia; (4) fim das parcerias em hospitais do SNS; (5) fecho antes de tempo das centrais a carvão e da refinaria de Matosinhos; (6) aprovação do SIRESP, uma negociata conhecida, primeiramente recusada e depois aprovada pelo ministro António Costa;(7) recusa durante anos de fechar Figo Maduro e o correspondente alongamento da pista do aeroporto Humberto Delgado; (8) aposta no mercado interno e ausência de investimento estrangeiro na indústria; (9) a redução das horas de trabalho na função pública; (10) a escolha errada da generalidade dos colaboradores e governantes, no geral portadores de uma relação difícil com a moral e a ética; (11) compra dos helicópteros “Kamov”; (12) condução ideológica da pandemia com o custo de milhares de mortos; (13) mortos nos fogos de 2017 provocados pela incúria e ignorância dos nomeados por António Costa.
Há mais, mas para demonstração chega. Entretanto, um caso espantoso a necessitar um estudo à cabeça de muita gente, é o facto de cerca de 80% dos portugueses acharem bem que António Costa se vá embora e, ao mesmo tempo, os socialistas se prepararem para escolher um de entre dois dos mais fiéis colaboradores de António Costa, os quais aceitaram alegremente todos os erros descritos e se preparam agora, se os deixarem, para repetir a dose. Razão por que já escrevi várias vezes que a política portuguesa é digna de um manicómio, o que não posso deixar de recordar na presente conjuntura.
Acontece ainda que os dois candidatos aparentemente preferidos dos socialistas, nestes dias que já levam de campanha, continuaram a difícil relação de António Costa com a verdade e a realidade. Mais, tenho visto nas televisões milhares de socialistas a bater palmas a algumas das mais delirantes propostas dos dois candidatos, que se preparam para continuar os erros descritos e para acrescentar alguns outros da sua própria autoria.
Agora, a grande questão que tira o sono aos comentadores de serviço, parece ser qual dos dois candidatos do PS ganhará a contenda para se candidatar a primeiro-ministro. Pessoalmente vejo a coisa desta forma: José Luís Carneiro não engana, representa a estrita continuidade de António Costa, de cuja máquina tem o apoio, ou seja, um sósia daquele que 80% dos portugueses acham positivo vá para a reforma. Alguém mais sábio do que eu que explique o fenómeno. Pessoalmente, prefiro Pedro Nuno Santos, porque se chegar a primeiro-ministro vai ser muito mais divertido e porque com qualquer um dos dois Portugal é um caso perdido, então mais vale que, em vez de chorar, nos possamos divertir.
Um pouco mais a sério, acredito que Marcelo Rebelo de Sousa vai ter uma vida mais complicada a partir de Março do próximo ano, na medida em que não estou a ver uma solução política estável. Gostaria de me enganar, mas a probabilidade é pequena.
Notas: António Costa acaba de dar na CNN uma entrevista delirante de um país desconhecido, em que a realidade e a verdade estão ausentes. Por exemplo, falar que dívida pública decresceu quando durante os oitos anos da sua governação aumentou 70.000 milhões de euros, é surreal. Como surreal é falar dos sucessos da Saúde e da Educação, enquanto revelou saber que não será condenado pela Justiça. Será que o juiz Ivo Rosa ainda está disponível? Acabou a culpar Marcelo Rebelo de Sousa pelo seu Governo de maioria absoluta se ter desintegrado com 14 demissões, pelos amigos que escolheu e pela corrupção que não viu ao longo dos anos. O caso do Ministério da Defesa é porventura o mais eloquente. Vejamos agora o que os portugueses que votam habitualmente nos deputados escolhidos por António Costa e restante família farão em Março próximo. ■

- Advertisement -spot_img
- Advertisement -spot_img

Últimos artigos