Por morte do Marechal Óscar Carmona, a 18 de Abril de 1951, surgiu o natural problema da sua substituição na Presidência da República. Várias correntes e facções pressionavam nos bastidores. Salazar ia escutando opiniões, acabando por escolher um General, Craveiro Lopes, com uma carreira sem mácula e claramente identificado com o regime, como o atesta o cargo que desempenhava de Comandante-Geral da Legião Portuguesa. Pouco ou nada conhecido da opinião pública, era tido nos meios mais influentes, quer militar, quer civil, como alguém de grande integridade, enorme rectidão e de profunda devoção à causa pública.
Considera-se indiscutível que, na maioria dos anos do seu mandato de sete, prevaleceu uma harmoniosa relação entre ele e o Presidente do Conselho, embora carente de empatia espontânea, que duas personalidades bem vincadas e diferentes não favoreciam. Será o próprio Chefe do Governo a definir esse trato ao ministro da Presidência Marcello Caetano e por este plasmado no seu livro “Minhas Memórias de Salazar”:
“Em Belém respira-se honestidade… Não sendo homem de largos voos e tendo inteligência limitada, possui, todavia, tão boa vontade de acertar, tal interesse pelos negócios públicos, que dá gosto tratar com ele”.
Coincidem alguns historiadores na tese de que, por volta de 1956, a atmosfera que pairava na Presidência da República começará a sombrear-se.
Francisco Ribeiro de Meneses, a quem se deve uma aturada biografia política de Salazar, afirma que com a eleição de Craveiro Lopes “não se viu diminuído o descontentamento surdo existente no Estado Novo”. E acrescenta que a tensão se intensifica quando se torna claro que o Chefe de Estado, ao contrário do antecessor, “esperava influenciar o curso dos acontecimentos, estabelecendo uma boa relação de trabalho com o líder dos modernizadores, Marcello Caetano”.
Opinião respeitável, mas com a qual pouco me identifico. De facto, nos anos iniciais do mandato, como ficou dito, terá havido uma absoluta identificação do Presidente com a acção governativa. E creio que ao aceitar as funções jamais “esperava influenciar o curso dos acontecimentos”. Isso apenas acontecerá muito depois, direi mesmo só após sentir-se descartado por Salazar. Por essa altura, sim, torna-se notória a aproximação a Marcello Caetano, tido como reformista e arqui-inimigo do corifeu da ala mais conservadora, Santos Costa.
Quanto a mim, e não estarei isolado neste parecer, o factor que realmente espoletou o início da alteração da atitude presidencial foi a crescente animosidade surgida entre Craveiro Lopes e o todo-poderoso ministro da Defesa, Brigadeiro Santos Costa. Tutelando os destinos militares desde há 22 anos, este tornara-se uma figura altamente controversa no meio castrense e não só. Aparte isso, e embora tivesse sido um dos apoiantes do nome de Craveiro para a Chefia do Estado, com o tempo passou a não ocultar a “sua animosidade, até o seu desdém” para com aquele, segundo testemunha o embaixador Franco Nogueira na sua obra biográfica sobre “Salazar”, em seis volumes.
Por outra parte, o republicanismo convicto de que o Presidente dava provas indispunha a facção monárquica ainda existente e cuja influência não era despicienda. A esse sector juntava-se o desfavor dos católicos, que mantinham acesa a associação entre republicanismo e jacobismo.
E, por último, a crescente impopularidade de Craveiro, incapaz de populismos oportunistas e visto pela população em geral como distante, rígido e até sobranceiro.
Em Agosto de 1957, nos bastidores da política, começou a correr o rumor de que, em conversa informal havida entre o PR e o Dr. Mário de Figueiredo, (amigo íntimo de Salazar) Craveiro Lopes tentara aliciá-lo para uma possível e, quiçá, desejável, substituição de Salazar na chefia do Governo.
A intrigalhada foi tomando corpo até chegar ao conhecimento de Marcello Caetano. Considerou este aconselhar Craveiro Lopes, por intermédio de terceira pessoa, na necessidade de ter uma conversa franca e directa com o Chefe do Governo, clarificando o assunto, de uma vez por todas.
Segundo Craveiro Lopes, cujas palavras serão transcritas por Caetano nas suas “Memórias”, o Presidente comentou a saúde de Salazar: perante as queixas que lhe ouvia de achaques vários e da aparente e repetida vontade de se retirar da política activa, questionou Mário de Figueiredo: “tenho pensado nessa hipótese da saída do Dr. Salazar de Presidente do Conselho, em vida e não por morte… E admito que essa saída, em pleno prestígio, facilitaria talvez a evolução dos acontecimentos na medida em que permitisse ser ele próprio a apoiar o sucessor escolhido com o seu acordo”.
Ao ouvir tal ideia, naturalmente para si tão descabida como esdrúxula, Mário de Figueiredo interrompeu-o, dizendo em grande excitação, que isso seria o fim da sua influência e de quanto ele edificara e que ninguém mais lhe daria importância!….
Face à insistência de Craveiro no seu ponto de vista, Figueiredo ainda mais agitado atira forte: “no dia em que, por qualquer razão, Salazar deixar o Governo, há uma única solução a adoptar: restituir o poder ao Exército”.
Teria sido este, portanto, o diálogo havido entre os dois, o qual, para Craveiro Lopes, não se revestira de particular relevância.
Assim seria, de facto, se Mário de Figueiredo, tido e havido como emotivo e dado à calhandrice, não fosse logo reproduzi-la a Costa Leite (Lumbrales), muito próximo de Salazar e a Santos Costa, ministro da Defesa e consabido desafecto ao Presidente da República que, sem delongas, decide convocar uma reunião dos Altos Comandos.
O Presidente do Conselho, que logo fora posto ao corrente por Lumbrales, e a quem Craveiro terá trazido o assunto na primeira das suas habituais reuniões semanais, mostrando a sua indignação, tentou pôr “água na fervura”, desvalorizando o seu significado.
Naturalmente que o Presidente da República perante esta atitude ficou inconformado, para não se dizer indignado, com a manifesta “inacção neste assunto”, como desabafará com Marcello Caetano.
Na versão do Chefe do Governo, também recolhida por Caetano, “quem procedeu pessimamente, e eu já lho disse, foi o Mário (Figueiredo). Em vez de me procurar, e de me contar a conversa que ficaria entre três pessoas e eu esclareceria com o Chefe de Estado em poucos minutos, foi reproduzi-la ao Lumbrales e ao Santos Costa”. “Seja como for, criou-se um ambiente terrível ao Presidente Craveiro Lopes e logo a seguir ao grande êxito da viagem (deste) ao Brasil”.
À conta deste episódio passa a falar-se em surdina numa conspiração urdida pelo Presidente. Segundo Franco Nogueira, Salazar não acredita: “não tem inteligência suficiente para me iludir”, dirá.
Na verdade, parece inegável que, pela confluência de todos os factos descritos, o ambiente político se tornaria cada vez mais denso e desfavorável para Craveiro Lopes. Creio, por isso, que terá sido por esta altura que se terá dado a referida aproximação com Marcello Caetano. Considerado o “delfim” de Salazar, não deixava por isso de ser apontado como um dos elementos menos ortodoxos do regime, ou, sobretudo, um daqueles poucos capazes de alimentar eventuais posições discordantes.
Não é por acaso que, por finais de 1957, será entregue ao Presidente da República uma representação, subscrita por nomes grados da oposição, tais como Jaime Cortesão, Azevedo Gomes, Helder Ribeiro, Tito de Morais e outros. Já na perspectiva das eleições presidenciais do ano próximo, acusava-se o Governo de falta de liberdade para o sufrágio, de fazer um recenseamento tendencioso e de impor uma censura inaceitável. Era, em suma, o “reviralho” a mover-se aproveitando a brecha que justamente se abria.
Entrado o ano de 1958 é em Março que, na sua Agenda/Diário, Oliveira Salazar começa a registar toda a movimentação ao redor das eleições presidenciais aprazadas para Junho. A 24 daquele mês aponta uma conversa com o ministro da Presidência a quem expõe as diligências e consultas realizadas para uma decisão sobre uma eventual recandidatura de Craveiro Lopes. Logo no dia seguinte convoca uma reunião com João Lumbrales, Marcello Caetano, Albinos dos Reis, Mário de Figueiredo e Trigo de Negreiros, todos notáveis do regime, para se decidir uma solução. De acordo com Franco Nogueira, as opiniões convergiram para uma substituição do actual titular.
Dois dias depois avista-se com o Presidente, tratando da questão sucessória. Infelizmente o registo na Agenda é lacónico, apenas averbando: “em Belém. Conferência com PR (eleição presidencial)”.
Fica por saber se foi exactamente nesta ocasião e de que forma Salazar teria abordado o tema assaz delicado. No parecer de Franco Nogueira, o Presidente permanecerá convicto de contar com o apoio do Chefe do Governo.
No Conselho de Ministros, reunido a 30, o assunto será debatido, mas como ponto da agenda, juntamente com outros, v.g. o Plano de Fomento, o momento internacional e problemas ultramarinos.
O remate final acontecerá, porém, na reunião da Comissão Central da União Nacional, havida no dia 1 de Maio. O resultado não deixará dúvidas: a maioria pronuncia-se contra a reeleição e em favor do nome do então ministro da Marinha Américo Tomás.
Logo no dia imediato o chefe do Governo redige uma carta formal ao Presidente da República, a dar parte da decisão. Para os actuais historiadores, na maioria esmagadora da sinistra, a missiva é um exemplo perfeito de hipocrisia. Não direi tanto, mas reconheço ser um escrito pouco feliz e ínvio que baste… Dele respigo: “Tive a grande satisfação de não ouvir senão encómios aos serviços prestados por Vossa Excelência e palavras de justiça para as suas qualidades… A deliberação final nasceu apenas do reconhecimento de circunstâncias políticas a que pareceu conveniente atender”.
Franco Nogueira, mais benévolo, considera que Salazar sentia uma crescente relutância em abordar uma questão tão confrangedora. Por isso, conclui que ele “não terá assim sido desleal; mas não terá sido inteiramente franco”.
A rejeição que lhe é imposta terá calado fundo em Craveiro Lopes. Segundo as obras que versam o tema, são múltiplos os adjectivos que qualificam o sentimento que o possuiu: “magoado, ressentido, agastado, desiludido, amargurado”.
Creio que pela primeira vez concordo com o historiador trotskista Fernando Rosas, (para quem, habitualmente, a palavra isenção não possui qualquer significado), quando afirma: “Craveiro Lopes não só parecia, como era, efectivamente, outro homem. Poder contribuir para a respectiva substituição surgiu, assim, aos olhos de Craveiro Lopes, como um dever político a cumprir friamente e um ajuste de contas pessoal incontornável”.
De facto, assim aconteceu. O Presidente manteve a sua postura de rectidão e lealdade ao longo dos meses, até ao início da campanha eleitoral, em Maio de 1958. A partir daí, porém, “o outro homem” toldou-lhe o espírito, atirando-o para “um ajuste de contas pessoal incontornável”.
O Capitão Vicente da Silva, Ajudante de Campo de Craveiro, confirma que um grupo de militares daquela patente “foi várias vezes falar com o Presidente da República, às tantas da manhã enquanto (ele) ficava cá fora, a vigiar, numa pastelaria junto ao Museu dos Coches”. Se este enredo não configura o que se deve chamar conspiração, então não sei o que seja….
Este relato foi feito para o extenso artigo assinado pelo jornalista José Pedro Castanheira, publicado pelo semanário “Expresso”, a 26 de Junho de 1999.
Mister é dizer que este trabalho jornalístico merece louvor, pela forma como aborda a matéria e sobretudo pela colaboração complementar de outros profissionais da imprensa. Só que, lamentavelmente, o pecadilho do sensacionalismo levou a um título – “Chantagem ao Presidente – como Salazar e a PIDE humilharam e destruíram Craveiro Lopes” – cuja análise deixa muito a desejar. Lá iremos…
A despeito dos encontros furtivos com oficiais nitidamente em conjuração, o Presidente faz prova de lealdade, escrevendo uma carta a Salazar, a 3 de Junho de 1958, dois dias antes do acto eleitoral, transmitindo as reivindicações dos conspiradores que, pelos vistos, não teve qualquer efeito.
Antes da posse do novo Chefe de Estado, Craveiro Lopes, ainda em Belém, sofre um duro e cruel golpe: a morte de sua mulher, a Senhora Dona Berta, pessoa de grande afabilidade e simpatia, a contrastar com a sisudez distante do marido.
Recolhido à vida privada, Craveiro Lopes renuncia às mordomias a que teria direito, (carro, mas não Ajudante às Ordens) em mais um acto de grande austeridade, que era seu timbre.
No entanto, esta nova etapa da sua existência ficará pautada por uma atitude abissalmente contrastante com os anos de toda a sua vida anterior.
Para os seus admiradores e principalmente para todos aqueles que, vesgamente, se dedicam a denegrir Salazar, Craveiro Lopes passou a ser um alvo preferido da polícia política. Não direi o contrário. Mas a verdade é que, não obstante o regime lhe ter concedido o grau honorífico de Marechal, a 13 de Novembro de 1958, houve de imediato, da sua parte, uma nítida e sabida aproximação a núcleos militares descontentes. E tanto assim é que o iremos ver clara e convictamente envolvido na tentativa de golpe de Estado encabeçado pelo ministro da Defesa Júlio Botelho Moniz, aliás seu próximo e com quem havia tramado o golpe, aprazado para 13 de Abril de 1961. Este foi, contudo, abortado por total, absoluta e até ridícula incompetência dos elementos envolvidos.
Compreensivelmente, evitando avolumar o dissídio, não houve consequências gravosas para com os conluiados e o papel activo do ex-Presidente até será silenciado. Apesar disso, em finais de Outubro do mesmo ano, informações policiais registam a presença de Craveiro Lopes numa reunião com membros oposicionistas ocorrida em Sanfins, Valpaços.
Como se isso não bastasse, não hesita escrever, em Agosto de 1962, o prefácio para o livro “Portugal, o Ultramar e o Futuro”, do Advogado Manuel José Homem de Mello, conhecido por ser fortemente desafecto ao regime. Sem rebuços o Marechal, em texto curto, mas incisivo, escreve uma verdadeira catilinária contra certas realidades vigentes, mormente sobre a censura.
Ainda nesse ano, como o fizera no anterior, deslocar-se-á a Moçambique e a Angola para visitar os seus filhos, também militares e ali mobilizados.
Depois de regressado a Lisboa concede uma entrevista ao vespertino “Diário de Lisboa”, tido como do “reviralho”, na qual repete, mas mais contundentemente, as opiniões exaradas no citado prefácio de Homem de Mello.
Terá sido por esta altura que a montada vigilância policial detectou um verdadeiro filão contra o Marechal. Nos seus 69 anos manteria uma relação amorosa com uma senhora, 26 anos mais nova e, para mais, casada!!…
Tratava-se de uma dama, filha de mãe espanhola, ao que se dizia com muito “salero”, de nome Elizabeth Humanes Dias e a quem o “ex-venerando Chefe de Estado” não resistiu….
Elizabeth casara-se, em 1946, com um senhor de meia-idade, quando era “manicura” no “Palácio Elegante”, barbearia fina sita na Rua do Ouro.
Não entrarei nos detalhes do romance, que foi dissecado pela jornalista Valentina Marcelino, no atrás referido artigo de José Pedro Castanheira.
Para o nosso caso o que interessa é que, à época, as mentalidades não se compadeciam com as libertinagens actuais, crismadas de liberdades. Esta situação, a saber-se publicamente, arrastaria o responsável para uma severa condenação e ao opróbrio total.
Curioso será notar que o Sr. ex-Presidente dera já uma mostra de estar a atravessar o que se chama de crise de meia-idade, só que tardia…
Efectivamente, havia trocado o modesto e discreto automóvel – “Ford Prefect” – que lhe fora oferecido pelos filhos, quando abandonara a Presidência (recusando o carro oficial a que tinha direito), por um “Triumph TR3”, descapotável!…
Aqui, mais uma vez, estamos perante um caso que, sendo conhecido, daria forçosamente lugar a falatório e críticas, pela imagem nesse tempo considerada caricata ou, no mínimo, risível, de um idoso de 68 anos a conduzir uma “bomba” desportiva…
Recorrendo ao circunstanciado artigo do “Expresso”, o “escândalo” encoberto tornou-se campo fértil para a chantagem. E foi o que aconteceu. Craveiro Lopes recebeu pelo menos duas cartas a ameaçá-lo de enviarem fotos para o marido enganado. Uma, atribuída à “Legião Portuguesa”; uma outra assacada a “um casal da PIDE, dos muitos encarregados da vigilância e das escutas”, que exigia 50 contos pelo silêncio.
Ou seja, não foi a abominável polícia política a fazer a tentativa de extorsão, mas dois escroques que ali trabalhavam.
Perante a recusa do Marechal, “consta” que as provas terão sido enviadas ao cônjuge. Sem embargo, o divórcio só ocorreu depois da morte daquele. E, já agora, ficou a saber-se que a Dona Elizabeth contrairia novo matrimónio e com o próprio advogado que tratara do respectivo processo…
O jornalista Castanheira dá ainda uma achega, colocando a hipótese de “coincidência”: é que a partir deste triste episódio o antigo Presidente da República Portuguesa, de acordo com os Arquivos, “desaparece de cena” (ainda que nos bastidores), até à sua morte em Lisboa aos 70 anos, a 2 de Setembro de 1964.
E a concluir: a chantagem é um acto indiscutivelmente ignóbil. Mas que o Sr. Marechal Craveiro Lopes se pôs a jeito, ai isso pôs-se!… ■
Salazar e Craveiro Lopes: uma reflexão tardia




