A estratégia imperialista de um “Estado civilizador”

Na Rússia existem 22 repúblicas autónomas e várias dezenas de grupos étnicos, religiosos e culturais que vivem submetidos à lei marcial de Moscovo. A estudiosa Veera Laine, especialista nas nacionalidades russas, antes e depois das reformas e emendas constitucionais de 2020, constatou que Vladimir Putin continua a insistir na “dimensão legal” que lhe permite justificar as suas “intervenções militares especiais”. Segundo Laine, no início da década de 2020, a liderança de Putin impôs como prioridade a centralização do poder com a introdução de alterações institucionais para evitar uma hipotética desagregação da Rússia. Proibiram-se os partidos étnicos e religiosos. As eleições dos governos locais têm sido progressivamente limitadas. A luta contra o alegado terrorismo de origem étnica tem justificado medidas policiais mais duras, mais repressivas e centralistas. Os responsáveis regionais deixaram de se chamar presidentes porque na Rússia só pode existir um presidente e esse presidente é, tão-só, V. Putin.
Anna Politkovskaya, corajosa jornalista e escritora russa que foi assassinada no dia 7 de Outubro de 2006, já tinha advertido, há anos, que Putin tinha sido reeleito em circunstâncias grotescamente antidemocráticas e, no entanto, os líderes do Ocidente, dependentes das reservas de petróleo e de gás russas continuaram a prestar-lhe deferência e vassalagem. Putin, sabendo da dependência do Ocidente dessas reservas, congeminou as invasões às autoproclamadas repúblicas populares de Donestsy e Lugansk, na região do Donbass, onde os separatistas russos armados por Moscovo iniciaram uma guerra de secessão, justificando Putin a intervenção do exército russo com o pretenso auxílio aos povos da região que, segundo as autoridades de Moscovo, estava a ser vítima de genocídio perpetrado pelos nazis ucranianos. Pelos mesmos motivos Putin invadiu a Georgia, a Chechenia, a Osetia do Sul, a Abjasia e a Crimeia apoiando os grupos étnicos separatistas pró-Moscovo.
Entretanto, os líderes ocidentais, dependentes do petróleo e do gás russo, deparam com a invasão da Ucrânia iniciada em finais do mês de Fevereiro e, finalmente, dão conta da gravidade da situação. A Comunidade Europeia, juntamente com os Estados Unidos, decidiu aplicar sanções à Federação russa que, no entanto, estão a provocar um efeito “boomerang” ao agravar as condições de vida dos cidadãos europeus e americanos. Até onde chegarão os sacrifícios da Europa Ocidental com esta invasão da Ucrânia? Até onde irá o expansionismo da Federação Russa?
Thimothy Snyder, historiador norte-americano, um dos grandes especialistas internacionais do leste europeu, comentou, num fórum que teve lugar em Nova Iorque, a nova forma de imperialismo gizado por Putin. O historiador lembrou que em 2012 Putin publicou um ensaio apresentando uma ideia que foi fervilhando na sua cabeça, ainda no tempo em que era um membro destacado da KGB. Para Putin a Rússia tem uma missão, quase messiânica, é um “estado civilizador” cuja missão histórica é “civilizar” outros povos impondo-lhes a “unidade espiritual com a Rússia”. A Ucrânia, para o presidente russo, faz parte desse “espaço vital” a que a Federação Russa tem direito e Putin nunca reconheceu, verdadeiramente, a soberania e a independência deste país, não descansando enquanto não a invadiu, estando a provocar, nos dias que correm, um estendal de mortandade, violações, deportações forçadas e destruição dantesca de cidades, vilas e aldeias da Ucrânia perante a impotência da Comunidade Europeia e da NATO, que nada mais podem fazer do que enviar armamento para os ucranianos se defenderem. Mas, até quando se vai manter esta insustentável situação que acabará por desgastar ambas as partes?
Putin, com a ajuda dos meios de comunicação social pró-governo do seu país – e não pode haver outros “media” que contradigam Putin – passou a mensagem de que não existe uma guerra que opõe o exército russo ao ucraniano, mas sim “uma intervenção militar especial para desnazificar a Ucrânia”. Ora, a verdade é que V. Putin afirmou há anos que “a maior tragédia do século XX foi o colapso da ex-União Soviética”. Para o presidente russo a independência dos países que surgiram após a derrocada russa e que estavam subjugados a Moscovo nunca deveria ter acontecido. Reconquistar a Ucrânia, ou parte do seu território, é agora uma obsessão doentia para Putin. Que consequências danosas e imprevisíveis advirão para a Comunidade Europeia se os objectivos do presidente russo (parciais ou totais) forem concretizados? A seu tempo saberemos.
A “reeducação” nos
territórios usurpados
Pelo que se percepciona nos dias que correm, as democracias liberais estão sendo ameaçadas por regimes totalitários, por regimes ditatoriais de partido único e até por partidos que, afirmando-se de democráticos, as suas práticas não condizem com o regime que apregoam. Por exemplo, a Rússia de V. Putin, diz-se democrática na sua Constituição, está inserida numa economia de mercado livre, mas a maioria das suas instituições políticas e financeiras está nas mãos de indivíduos com carreira militar ou que fizeram parte dos serviços de segurança russas, criando-se um círculo fechado entre estes ditos indivíduos que, muitos deles, se tornaram oligarcas obedientes e leais a Putin – ex- KGB – que aproveitou para se impor como presidente. Numa atitude imperialista e usurpadora, e sem consultar o povo russo – que nunca deixou de estar manietado e manipulado –, invadiu a Ucrânia, país soberano e independente, no dia 24 de Fevereiro de 2022 com a pretensão de a conquistar ou, pelo menos, de conquistar parte do território ucraniano. Até ao presente momento conquistou parte do território ucraniano e está a “russificar” esse mesmo território. Impôs a língua russa e o sistema educativo está de acordo com as orientações do ministério da educação da mãe-pátria russa, ameaçando os professores que não sigam as orientações estabelecidas. Ou seja, a Rússia pretende revisionar e “reeducar” o povo ucraniano – povo que anseia por pertencer à Comunidade Europeia – e forçá-lo, a todo o custo, a ser russo. É trágico e inadmissível que isto esteja a acontecer, tentando-se apagar a história ucraniana para servir os desígnios russos. Como seria bom que o Ocidente e os Estados Unidos derrotassem de forma implacável o autocrata Putin e o remetessem para fora do território ucraniano, vergando-o e obrigando-o a respeitar o Direito Internacional. A Rússia já tem território que sobeja. A época dos imperialismos tem de acabar. ■

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