A mudança de paradigma
António Costa teve o mérito de “inaugurar” algumas das maiores construções políticas da actualidade, algumas delas já replicadas em países vizinhos. Primeiro, nas vitórias por poucochinho que serviram para espetar facadas nas costas no Secretário-Geral em exercício e tomar o seu assento. Ainda que por poucochinho, António José Seguro tinha arrecadado uma vitória para as hostes socialistas. O que me parece bem melhor do que uma derrota por alguns, que foi o que Costa conseguiu. Mas logo tratou de inverter toda uma lógica e proclamou que, afinal, pode governar quem não ganha. Assim, tratou de inventar uma coisa a que se chamou “geringonça”, que mais que não é uma forma de governo a pedido, sob o lema, “quem não chora não mama”, trocando a chupeta de boca a quem estivesse a berrar mais alto naquele momento.
Claro está que isto não é forma de se governar sequer uma creche, quanto mais um país, servindo apenas para o manter na posse da chupeta. Faltava leite, fraldas, chupetas, berços, brinquedos, mantas, medicamentos, enfermeiras, enfim, faltava tudo, menos promessas, mas a culpa era sempre dos anteriores proprietários. A coisa podia não funcionar, mas o “marketing” era perfeito e logo vieram os espanhóis a copiar o modelo.
Tratou de se pôr ao fresco, quando a coisa estava ingovernável e na iminência de estourar, quando se descobriu um escândalo de troca de favores e dinheiros, de quem lhe era muito próximo, mas usando como pretexto um parágrafo do “e-mail” de um dos pais e culpando a Direcção-Geral da Educação por não aceitar outra solução. Lamentando o seu destino, começou a preparar-se para dirigir uma creche internacional, ele que, reconhecidamente, tem um notável “british accent” e um currículo de fazer inveja a qualquer gestor escolar…
O incumbente, que também teve responsabilidades na Direcção e que dela tinha sido demitido meses antes, submeteu-se ao voto dos pais, que, em reunião magna, trataram de escolher outro. A votação foi renhida, é certo, e até uma outra lista, mais radical, que advogava o racionamento do leite em pó, teve amplo apoio.
Traços largos, podia resumir-se assim o Portugal dos últimos 10 anos, até ao último domingo.
Muito mais importante do que os resultados eleitorais é tentar entender os seus porquês e as suas consequências, não no mandato que se vai iniciar, mas nos próximos dez, quinze, vinte anos…
Primeiro, compreender que o Chega não é um PRD, não resulta de cisões partidárias, sustentado em figuras de proa e no seu carisma, nem durará dois mandatos até se eclipsar por completo. O Chega representa mais de um milhão de portugueses, muitos dos quais não votavam há décadas. Ao contrário do que convenientemente se defendeu (e alguns ainda parecem querer defender), o Chega não é André Ventura. É um movimento de revolta, de inconformismo, de desgaste, de insatisfação, de alerta e é, acima de tudo, um movimento popular e não populista. E é tão racista, tão xenófobo, tão misógino como esse milhão que o sustenta, tirem-se daí as ilações lógicas… À falta de um Basta! foi um Chega!
Ganhou a sua base na abstenção, num interior abandonado, nos jovens fartos de promessas, num Algarve e nos grandes centros periféricos urbanos onde os efeitos da imigração se fazem sentir.
• Leia este artigo na íntegra na edição em papel desta semana já nas bancas •




