Pagamentos não são só pagamentos. São Economia!

Bem sei que temos a fama de ser um País muito avançado nos que toca a pagamentos, mas basta sair deste cantinho à beira mar plantado para perceber que essa fama é já mesmo só fama. O mercado é cada vez mais global e a necessidade de criar soluções europeias, globais, uniformes, é uma pressão constante. Porém, Portugal tem de facto imenso talento e Portugal tem de querer fazer parte da estratégia de pagamentos europeia. Não basta andar a reboque do que a União Europeia quer fazer. Pagamentos não são só pagamentos. São Economia!
No início do mês de Junho, a cidade de Amsterdão foi o epicentro da inovação financeira global com a realização da conferência Money20/20 Europe. Em 3 dias, múltiplas sessões de debate aconteceram em simultâneo, juntando mais de 8.500 líderes de Fintechs, Bancos, reguladores e gigantes tecnológicos. Apesar dos imensos riscos e exigências, o mercado dos pagamentos continua a dar sinais de crescimento e é sem dúvidas um sector que valoriza a inovação e acelera a economia. Foram muitas as marcas da indústria de pagamentos que apostaram as suas fichas para estarem presentes neste evento, e desta vez, Portugal deu alguns sinais vitais. Contou com a presença da Instituição de Pagamentos, EuPago, bem como com a ANIPE, que foi convidada a participar numa mesa redonda sobre “Policy Exchange/Crossborder Payments”, tendo sido a Associação Nacional de Instituições de Pagamento e Moeda Electrónica representada pelo seu Presidente, João Câmara, para contribuir para a partilha de conhecimento num debate aceso entre vários “players” europeus.
Pela primeira vez, assistimos à presença de um stand da AICEP, a promover Portugal como palco receptor de Fintechs (empresas que recorrem à tecnologia para desenvolver serviços financeiros), atraindo assim investimento para o País. Poderá ter sido um primeiro passo para o nosso País querer competir e mostrar-se ao mundo como um potencial palco para se desenvolver na indústria de pagamentos electrónicos? De facto, talento por aqui não falta. São vários os Países que investem para se mostrar neste evento, competir saudavelmente neste espaço, conquistar e mostrar o que se faz de melhor em cada um do seu País. Portugal, no que tem que ver com a forma de se evidenciar, tem ainda um longo caminho a percorrer, porém esta presença foi sem dúvida um bom sinal.
Este evento destacou-se por discutir temas cruciais para o futuro das finanças digitais, com forte foco na inteligência artificial, identidade digital, inclusão financeira, e sustentabilidade.
Um dos temas centrais foi a rápida evolução da inteligência artificial generativa e o seu impacto no setor financeiro. Durante vários painéis, especialistas debateram como modelos de Inteligência Artificial (IA) estão a transformar operações bancárias, desde o atendimento ao cliente até à deteção de fraudes. Empresas como a Klarna, Revolut e Stripe partilharam casos concretos de uso da IA para personalização de serviços, automação de compliance e melhoria de avaliação de crédito. Rahul Patil (Stripe) destacou o uso crescente da IA em áreas como detecção de fraudes, abertura de contas e personalização de serviços. David Sandstrom (Klarna) revelou que o assistente de IA da empresa já gere dois terços das interações com clientes a nível global, permitindo assim melhorar simultaneamente a experiência e reduzir custos operacionais.
No entanto, também se discutiram os riscos associados ao uso desta tecnologia, nomeadamente a necessidade de regulação ética e a implementação de princípios de “IA responsável” para o setor financeiro. As vantagens da IA são evidentes, mas o risco de mau uso é também uma realidade carregada de riscos que têm que ser mitigados para dar a confiança suficiente.
Também a evolução da “user experience” foi um dos tópicos em discussão. O caminho dos pagamentos vai sendo trilhado para uma experiência do utilizador em que cada vez mais se pretende que os pagamentos sejam invisíveis – ou seja, transações sem fricção, muitas vezes integradas em experiências digitais mais amplas. Com a proliferação de dispositivos conectados e super apps, empresas como a Amazon Pay e a Adyen discutiram o futuro das carteiras digitais, que caminham para uma integração completa com identidades digitais e dados biométricos. Também o potencial dos protocolos de comunicação automática entre Bancos e Instituições Financeiras e os próximos passos com a regulamentação “Payment Service Directive 3” estiveram na ordem do dia das sessões em debate, apontando para novas estratégias de monetização e maior controlo por parte dos bancos.
Nos dias que correm, todos os serviços financeiros estão alicerçados nas ferramentas que as novas tecnologias nos oferecem. Desde logo no processo de abertura de conta – e por isso mesmo também o debate sobre a identidade digital soberana voltou à ordem do dia, com destaque para soluções baseadas em tecnologias blockchain e Web3. Reguladores europeus, juntamente com representantes da Comissão Europeia, abordaram o progresso do European Digital Identity Wallet, previsto para implementação em larga escala em 2026. Os desafios são imensos e o prazo de 2026 parece-me demasiado optimista, mas para o cumprimento das exigências a que as Instituições Financeiras estão obrigadas, a existência de uma solução de Identidade Europeia, Digital e Verificada será seguramente uma ferramenta muito bem vista, que não só acelera os processos de compliance, como reduzirá muitos custos e trará maior segurança a todos. E neste âmbito foram várias as empresas “Startups” e “scale-ups” que apresentaram soluções descentralizadas que permitem aos utilizadores controlar os seus dados pessoais, promovendo privacidade, segurança e interoperabilidade num cenário financeiro aparentemente cada vez mais fragmentado.
Também a sustentabilidade continua a dar que falar. Desde a medição da pegada de carbono de transações até ao financiamento verde, são várias as instituições que apresentam estratégias para alinhar os seus produtos com os critérios ESG (Environmental, Social and Governance). Não é um tema novo, mas continua a ser central para o mercado financeiro.
Por último, destaco um tópico que nunca falta no Money2020: a inclusão financeira e a diversidade de género e étnica na liderança das empresas de fintech. O palco “RiseUp” deu voz a fundadoras e líderes emergentes que desafiam o status quo. Sublinhou-se a importância de criar produtos financeiros pensados para populações tradicionalmente excluídas, desde migrantes até comunidades sem acesso a bancos.
Esta edição de 2025 da Money20/20 Europe consolidou-se como muito mais do que uma feira de networking e tecnologia. Foi também o momento de grandes anúncios, como: a SoftBank investiu 40 milhões de dólares na NomuPay para acelerar pagamentos entre a Ásia e a Europa; o Deutsche Bank e a Mastercard lançaram uma solução “pay by bank” para comerciantes; a Klarna testou nos EUA um cartão híbrido de débito e BNPL (Buy Now, Pay Later) em parceria com a Visa.
Mas mais do que isso. Tornou-se um fórum de decisões estratégicas, onde todo o sector se encontra e onde se definem as fronteiras da próxima década financeira.
Com o setor a evoluir a um ritmo vertiginoso, o debate equilibrado entre inovação, ética e impacto social mostrou-se mais relevante do que nunca. Portugal deu sinais ligeiros de que pretende acompanhar o debate europeu. Mas tal não basta. Este é um mercado que se desenvolve rapidamente e cujos impactos na aceleração da economia são claros e evidentes. Nos últimos anos, Portugal tem perdido oportunidades. Não mostra o que tem de bom, não promove as suas empresas, não promove o seu talento, não transpõe as Directivas europeias a tempo e horas, o regulador Banco de Portugal não é dos mais ágeis a actuar em comparação com outros Bancos Europeus, e Portugal continua a não se sentar na mesa dos crescidos, para definir a estratégia.
Ser protagonista no desenvolvimento da regulação e inovação europeia na área financeira, e de pagamentos em particular, é fundamental para que Portugal consiga acompanhar o ritmo. ■

MARIA LUÍSA ALDIM

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