Pode não parecer, mas este é um tema profundamente político. Quando milhares de adolescentes colocam a saúde em risco, por influência de conteúdos não regulados nas redes sociais, o silêncio institucional transforma-se em responsabilidade governamental.
Chegámos ao Verão e, com ele, começam as dietas loucas, sem informação credível, sem acompanhamento de profissionais de saúde e muitas vezes geridas por ‘influencers’ nas redes sociais, sem formação em nutrição, sem consciência dos riscos, sem responsabilidade pelos danos muitas vezes causados.
Estas práticas podem parecer inofensivas, mas acabam, por vezes, em situações trágicas, como distúrbios alimentares, deficiências nutricionais graves ou problemas de saúde a longo prazo.
Vivemos num mundo em constante transformação. Os adolescentes de hoje estão constantemente expostos a padrões irreais de beleza A alimentação deixou de ser um ato rotineiro para se tornar um tema político, económico, ambiental e até cultural. Entre modas alimentares, preocupações e a influência das redes sociais, surge uma questão essencial: estarão estes adolescentes a fazer as escolhas alimentares conscientes e informadas?
Pergunto, querem uma boa alimentação ou seguir o que está na moda?
Hoje fala-se de dietas plant-based, alimentos de origem vegetal, carne de laboratório, agricultura biológica e jejum intermitente. As novas gerações estão a crescer num ambiente onde as escolhas alimentares são mais amplas, mas também mais confusas. Existem muitos jovens expostos a um excesso de informação mal filtrada, especialmente nas redes sociais.
Estas tornaram-se fontes primárias de informação alimentar para alguns adolescentes, ultrapassando até escolas e famílias. Os canais como TikTok, Instagram ou YouTube invadem estes adolescentes de vídeos com “dicas de alimentação”, “receitas milagrosas”, “rotinas saudáveis” e desafios nunca vistos. A questão que se coloca e que torna isto num problema, é o facto de grande parte desses conteúdos ser criada por pessoas sem formação na área da saúde ou nutrição, promovendo práticas perigosas.
Encontramos dietas extremamente restritivas, com a ausência total de nutrientes indispensáveis, jejum prolongado sem acompanhamento, que em alguns casos pode ser grave, especialmente quando não se conhece a condição física de cada pessoa, o uso de suplementos sem orientação médica e muitas vezes comprados pela internet sem saber as suas origens e uma obsessão com a “comida limpa”, a que chamam “clean eating”, que pode evoluir para distúrbios alimentares.
O que ao início parece uma tendência “saudável” pode rapidamente tornar-se uma fonte de ansiedade, distorção da imagem corporal e más decisões nutricionais.
Corpos “perfeitos”, peles impecáveis, sorrisos constantes, e uma vida que parece saída de um filme. Tudo parece feliz, bonito, sem problemas. Mas… será mesmo verdade?
Por trás dessas imagens existem filtros, edições e muitas vezes até cirurgias. A realidade é bem diferente do que se vê na tela. E o mais perigoso? Tentam vender essa ideia de “perfeição” com dietas milagrosas, produtos nem sempre ao alcance de todos e promessas ocas que muitas vezes acabam em frustrações.
Onde anda então a educação alimentar nas escolas?
Em algumas delas, continua a ser um problema secundário, e em casa muitos pais enfrentam dificuldades em competir com a influência dos ‘influencers’ e da publicidade digital.
Passemos a exemplos práticos para que os pais entendam.
Estão horas no TikTok, Instagram, YouTube… e de repente aparece uma influencer a dizer: “Com esta dieta perdi 5kg em uma semana!”. Sem médico. Sem nutrição. Só restrição, jejum, comprimidos ou “receitas milagrosas”.
Mas aqui também surge o problema. E o que não dizem?
Que estas dietas podem causar fraqueza física e que podem desencadear doenças físicas e mentais graves: ansiedade extrema em relação à comida e ao corpo, depressão com sentimento de fracasso, culpa constante e autoimagem distorcida, distúrbios alimentares como anorexia nervosa (rejeição à comida, medo intenso de engordar, perda de peso perigosa), bulimia (compulsões seguidas de vómitos ou laxantes) e ortorexia (obsessão doentia com “comer saudável”).
Muitas vezes isolam-se socialmente, param de sair, de comer com amigos, de aproveitar a vida.
Perdem a identidade, deixam-se de reconhecer ao espelho.
Este é um dos problemas nesta época do ano que poucos falam e muitas vezes é silencioso nas famílias. Pais e adolescentes precisam estar atentos.
Estas dietas extremas e não supervisionadas são controladas pelos Ministérios da Saúde e da Educação nos países nórdicos. Estes países têm estratégias eficazes para lidar com a divulgação de conteúdos falsos e enganosos.
Exemplos muito breves. Suécia, as dietas não saudáveis ou promovidas por ‘influencers’ são frequentemente reguladas por leis de publicidade.
Noruega, ‘influencers’ que promovem dietas sem base científica podem ser alvos de críticas institucionais ou controle com regulamento próprio.
Na Dinamarca existe uma das legislações mais rígidas sobre publicidade de produtos alimentares, especialmente para o público infantil. Da mesma forma que um dos focos do Ministério da Saúde está na prevenção de distúrbios alimentares, e isso inclui controlar a disseminação de dietas potencialmente prejudiciais. E já implementou impostos sobre alimentos não saudáveis como estratégia de saúde pública.
Na Finlândia, considerada a “mãe” do modelo em nutrição escolar, todas as crianças recebem uma refeição gratuita e nutricionalmente equilibrada por dia e o governo controla a saúde nutricional da população e combate ‘fake news’ nutricionais com campanhas baseadas em ciência.
Finalmente, Islândia, onde os ‘influencers’ que promovem dietas extremas estão sujeitos às regras da Autoridade de Vigilância Alimentar que regula a publicidade enganosa.
Quem sabe este alerta seja o início de uma forte campanha que faça a diferença por cá.
Fica aqui o desafio ao Ministério da Saúde e ao Ministério da Educação para controle das redes sociais e ‘influencers’ digitais. ■
INÊS MONTARGIL
Médica Dentista e membro da Direção Nacional do CDS-PP




