Não é Polarização, é Preguiça

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Chamam-lhe polarização, como se fosse um fenómeno complexo, moderno, quase científico.
Mas não é. É preguiça — dessa que se disfarça de convicção.

Preguiça de ler para lá do título, de escutar para lá do eco, de investigar antes de odiar. O voto deixou de ser escolha e passou a clubismo: veste-se uma camisola, defende-se um emblema, repete-se um cântico. Ganha o nosso, mesmo que jogue mal, falhe o óbvio ou troque de discurso conforme o vento.

Endemoniza-se o outro sem trabalho prévio.
Não importa o que diz, o que fez ou o que propõe.
Um rótulo basta.
Pensar dá demasiado esforço e pouco aplauso.

Há quem acredite, com fervor quase religioso, que só um candidato cabe na democracia. O outro é um desvio, um perigo, uma ameaça latente — ainda que tenha sido escolhido pelas mesmas regras que os puritanos invocam com tanto zelo.
A democracia, afinal, só é virtuosa quando confirma certezas pessoais.

E depois há o pecado maior: dizer frontalmente e sem anestesia, verdades inconvenientes.
Não as falsas, não as fabricadas — mas aquelas que incomodam porque obrigam a pensar.
Essas não se discutem.
Condenam-se. Cancelam-se.
Porque a indignação exige menos trabalho do que o pensamento.
Apelidar o adversário de fascista, é obliterar a possibilidade de discutir ideias, e isto é um péssimo exercício democrático.

Ao descrédito crónico da política soma-se um ceticismo espesso, incrustado.
Tudo é sensacionalismo. Até um gesto nobre e brilhante de oferecer as lonas, para cobrir telhados devastados pelo vento, em fim de campanha, é interpretado como aproveitamento político e populismo.
Tudo é aproveitamento.
Todo o gesto é suspeito, toda a intenção um cálculo oculto.
O altruísmo genuíno — a simples vontade de ter um papel ativo na melhoria das condições do país, e das pessoas — tornou-se uma ingenuidade quase ofensiva, algo a ser desmontado com sarcasmo, antes mesmo de ser compreendido.

É mais fácil acreditar que são todos uns imprestáveis, do que aceitar que alguns, apesar de tudo, ainda tentam.
É mais confortável vestir o cinismo de lucidez, do que admitir esperança.
É mais seguro declarar falência geral, do que correr o risco de confiar.
Não estamos excessivamente divididos.
Estamos excessivamente cansados de pensar — e perigosamente apaixonados por certezas fáceis.

A democracia dá trabalho.
A preguiça, não.

Beijinhos d´O Diabo (com perigosa contraindicação para mentes preguiçosas)