Porque precisamos de comboios em bitola europeia: algumas razões

HENRIQUE NETO
HENRIQUE NETO
Henrique José de Sousa Neto é um empresário e antigo deputado à Assembleia da República, eleito pelo Partido Socialista.

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Na economia portuguesa, mais de 90% das empresas são muito pequenas e desgraçadamente a esmagadora maioria são comerciais: cafés, pastelarias, restaurantes, cabeleireiros, manicures, lojas de roupa, de relógios, de imobiliário, de viagens, ourivesarias, sapatarias, alfaiates, minimercados, eletrónica, vidrarias, oculistas, farmácias, pequena agricultura, pesca artesanal, mercados de rua, mobiliário, etc. etc.
Trata-se de empresas das quais morrem anualmente cerca de setenta mil e nascem outras tantas, porque os empresários e os trabalhadores têm baixas qualificações e não encontram empregos noutras actividades. São empresas que não exportam e na sua maioria vendem produtos importados.
Porque a concorrência é muito elevada e o nível de actividade é baixo, os preços praticados são marginais e a produtividade é igualmente muito fraca, razão de as exportações portuguesas serem menos de 50% do PIB, enquanto as dos outros países europeus da nossa dimensão e também com pequenos mercados internos exportam entre 70% e os 105% da Irlanda.
Assim, com este modelo económico claramente errado, dificilmente a economia portuguesa terá um crescimento semelhante ao dos países europeus da nossa dimensão e dificilmente a pobreza, ainda muito presente na nossa sociedade, será vencida, obrigando o Estado a suportar uma dimensão excessiva de subsídios aos mais pobres o que, por sua vez, incentiva a dependência.

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A indústria é o único sector da economia que pode criar empregos para uma grande parte dos trabalhadores portugueses com baixas qualificações, que actualmente sobrevivem nas pequenas empresas comerciais, mas com melhores salários. Porque na indústria as actividades são repetitivas – montagens, embalagens, operadores de máquinas, armazéns, transportes, decorações, etc. –, ou seja, apenas as empresas industriais podem crescer e criar empregos para trabalhadores com baixas qualificações, de forma simples e com uma rápida aprendizagem. Empregos que permitem reduzir o número de pequenas empresas comerciais e dessa forma reduzir a feroz concorrência que existe nas pequenas empresas e assim melhorar os preços praticados.
Todavia, o crescimento da indústria necessita da existência de empresas grandes que modernamente são montadoras e não produtoras e que, por isso, criam à sua volta novas empresas produtoras de componentes, de sistemas e de serviços de que necessitam.
A AutoEuropa é um bom exemplo, porque com a sua fundação foram criadas em Portugal muitas dezenas de empresas industriais que hoje exportam autonomamente mais de dez mil milhões de euros anualmente, além do que fornecem à AutoEuropa.

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Logística. Presentemente, as grandes empresas industriais de nível internacional só investem em locais que lhes permitam receber de forma económica e de todo o mundo os componentes, sistemas e serviços de que precisam e não produzidos localmente, enviando para todo o mundo os seus produtos finais.
De e para os outros continentes existe o transporte marítimo, mas para a Europa o meio usado é cada vez mais a ferrovia, por ser o meio menos poluente, o que consome menos energia e porque as políticas da União Europeia vão nesse sentido. Além de que no próximo futuro dominará o transporte rodoferroviário de porta a porta, de camiões transportados para longas distâncias em plataformas ferroviárias.
Esta é uma razão relevante do sucesso do investimento estrangeiro na região espanhola de Valência, em breve servida por ferrovia de bitola europeia com ligações ao centro da Europa e com um grande porto, que é o modelo que a boa logística potencia e que o porto de Sines não pode fornecer, razão do seu fraco crescimento em relação a Valência, Algeciras e Tânger Med.

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A AutoEuropa tentou usar a ferrovia de bitola ibérica nas sua importações e exportações e desistiu. Com a bitola ibérica e sem haver comboios portugueses que possam chegar a todos os pontos da Europa e os comboios europeus a não entrarem em Portugal, as exportações portuguesas ficam dependentes dos centros logísticos espanhóis já existentes ao longo da nossa fronteira, uma tragédia de enormes dimensões porque as empresas espanholas são os nossos maiores concorrentes e porque 75% das nossas exportações têm como destino os mercados europeus.
Acresce que com os investimentos em curso na ferrovia espanhola, nomeadamente no País Basco e no Corredor do Mediterrâneo, a Espanha deixará cada vez mais de investir nas suas linhas de bitola ibérica e se as mantiver junto à nossa fronteira é apenas para permitir que as nossas exportações cheguem aos seus centros logísticos.
Sem rodeios: trata-se da criação da maior dependência da economia portuguesa da economia espanhola – os bancos, por comparação, representam uma pequena parte –, algo que os nossos antepassados evitaram através da ligação ferroviária a França sem passar por Madrid.
Acresce que os investimentos na ferrovia em bitola europeia são fortemente subsidiados pela União Europeia e, presentemente, a linha do Porto a Lisboa está a ser financiada através de parcerias público-privadas a pagar pelos portugueses ao longo de trinta anos com os juros correspondentes. ■

Notas
(1) Espero que o novo Presidente da República possa mostrar ao governo e aos portugueses a insanidade da opção feita de manutenção da bitola ibérica. (2) No tempo do governo de Durão Barroso apresentámos – eu próprio, que organizei o estudo, o Professor Veiga Simão e a empresa Bombardier – um projecto para a construção de um protótipo de uma plataforma ferroviária inovadora por ser giratória, a qual permitiria a rápida entrada simultânea de camiões nos comboios, projecto recusado pelo governo de então com o argumento de que a Espanha teria melhores condições de acesso à Europa.

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