Governar ou representar?

Filipa Correia Vilas
Filipa Correia Vilas
Atual diretora do jornal, é advogada e mãe de dois filhos. Trocou o reboliço de Lisboa pelo sol do Algarve onde desenvolve a sua atividade profissional

Hoje assinala-se o Dia Mundial do Teatro. Em teoria, é um dia para celebrar a arte, os
atores, os textos que nos fazem pensar e sentir. O teatro, quando é sério, não é só
entretenimento, é um espelho desconfortável daquilo que somos. Expõe, provoca,
obriga a encarar verdades que muitas vezes preferíamos evitar.
Talvez por isso seja impossível não fazer um paralelismo com aquilo em que se
transformou a nossa vida política.
Há qualquer coisa de profundamente teatral — no pior sentido da palavra — na forma
como hoje se faz política. Não no sentido nobre da representação, mas na encenação
vazia. Nos discursos cuidadosamente ensaiados. Nas indignações seletivas. Nas
conferências de imprensa onde já se sabe, à partida, o que vai ser dito e como vai ser
dito.
Tudo parece coreografado. Nada parece espontâneo.
Os políticos falam, mas raramente dizem. Prometem, mas quase nunca se
comprometem. E, acima de tudo, representam proximidade, representam convicção,
representam firmeza. É uma sucessão de papéis, ajustados ao momento, ao público e
às sondagens.
O problema é que isto já não engana muita gente.
Ao contrário do teatro a sério, onde há talento, trabalho e respeito por quem está a
ver, esta versão política da representação vive de clichés e de frases feitas. É uma peça
repetida vezes sem conta, com pequenas variações, mas sempre com o mesmo fundo:
pouco conteúdo e muita aparência.
E depois há o público — nós. Durante muito tempo, aceitámos este papel de
espectadores. Uns aplaudem, outros assobiam, mas no fundo continuamos sentados, à
espera que a peça melhore.
O mais grave é que, enquanto se representa, o essencial vai ficando por fazer. Os
problemas acumulam-se, as decisões adiam-se, e a realidade — essa, que não se deixa
encenar — acaba sempre por impor-se.
Talvez este Dia Mundial do Teatro sirva, pelo menos, para isto: para nos lembrar que
há uma diferença enorme entre representar bem e fingir mal.
A política não precisa de mais atores. Precisa de menos teatro.

(Aqui tem uma gravação com o texto lido pela autora)

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