Acabaremos reféns de viciados pelo poder, gente incapaz e perigosa

A distância hierárquica evidencia o modo como os que têm menos poder numa sociedade aceitam a desigualdade na distribuição do mesmo, sendo tal dimensão reflectida pelo Índice de Distância Hierárquica (IDH) que mede o nível de centralização de uma sociedade.
O IDH em Portugal é de 63.
Para se ter uma ideia comparativa, a Guatemala, a Índia e o Oeste Africano, têm, respectivamente, 95, 77 e 77, enquanto os países parceiros de Portugal na União Europeia e mais desenvolvidos, tais como a Alemanha, Suécia e Dinamarca, têm, pela mesma ordem, 35, 31 e 18. A Áustria, por exemplo, tem o melhor índice – 11. Fora da União Europeia, Israel tem 13.
No nosso país podemos identificar a seguinte realidade:
– Grotesco leque salarial (diferença entre o salário mais baixo e mais alto), podendo nalguns casos atingir valores inconcebíveis (casos há em que o Administrador ganha de 30.000 ou mais euros mensais enquanto o trabalhador com funções mais básicas pode ganhar 760 euros mensais, leque salarial de 40);
– Em 2001, o leque salarial médio na União Europeia era de 8 e em Portugal (à frente de todos os restantes países, era de 15 e, em 2008, em Portugal a percentagem de empresas com um leque salarial líquido superior a 20 era de 19,1%;
– Pouca ou quase nenhuma participação espontânea dos trabalhadores nas empresas;
– Quase inexistente envolvimento dos cidadãos em termos cívicos;
– Descrença total nos dirigentes políticos devido, entre outros factores, à diferença abissal de regalias e privilégios com o cidadão comum;
– Uso e, nalguns casos, abuso dos “galões” em situação de conflito, limitando ou eliminando a necessária equidade apreciativa e a justiça relativa;
– Incapacidade acentuada de promoção de iniciativas empresariais;
– Dificuldade na partilha de informação e no estabelecimento de relações de parceria e consórcio;
– Dificuldade de acesso dos cidadãos ao poder central do Estado e quase inexistente resposta deste às preocupações, solicitações e reclamações daqueles;
– Importância ainda bastante vincada atribuída aos títulos, sejam de ordem social, académica ou profissional (Sr. Comendador, Sr. Professor Doutor, Sr. Engenheiro ou Sr. Director);
– Tendência ainda marcada para a submissão e excessiva tolerância perante arbitrariedades, abusos e erros dos mais fortes (Estado, Patrões, Chefias, Grandes Fornecedores, etc.).
E poderíamos citar outros exemplos.
A elevada distância hierárquica (IDH alto) proporciona de forma directa e indirecta o afastamento dos trabalhadores e dos cidadãos.
Nas empresas, os trabalhadores tendem a ter uma postura de “quanto baste”, não retirando, pois, deles as organizações o necessário valor acrescentado, tão fundamental e subjacente a um conceito de contrato psicológico mais exigente.
No segundo caso, os cidadãos tornam-se quase eunucos, incapazes de mudar o “status quo”, refugiando-se nas tão tipicamente portuguesas “conversas de café” e nas redes sociais.
Com certeza já todos nos interrogámos porque somos nós portugueses apreciados e vistos como profissionais e cidadãos de valor noutros países e no nosso somos vistos como não produtivos. A distância hierárquica é uma das explicações, senão o mais importante fundamento.
Na realidade, seria impensável ver em Portugal um ministro deslocar-se de bicicleta, mas há países onde tal acontece.
Os referendos, tão usados noutros países, de que é exemplo claro a Suíça (IDH de 34), em Portugal são praticamente inexistentes.
Na Islândia e na Alemanha (neste último país o IDH é de 35) os políticos e governantes que são apanhados nas teias da lei vão mesmo parar à prisão.
Em Portugal, as suspeitas avolumam-se e aprofundam-se sobre a implicação de políticos, governantes e banqueiros em determinados casos e as penas não ocorrem ou são leves.
Em Portugal, a distância entre os mais ricos e poderosos e os mais pobres tem-se vindo a pronunciar. Basta atentar nos mais de dois milhões de pobres existentes (20% da população) e a cada vez mais inexistente classe média.
Estas vincadas desigualdades radicam numa cultura de vivência e exercício do poder pelo poder, sem qualquer noção de partilha e sem qualquer sentido social (missão).
Portugal é um dos países mais pobres da União Europeia, sensivelmente a par da Grécia (IDH de 60). Será mera coincidência o sucesso económico da Irlanda e o seu IDH de 28?
Ao contrário do que ocorre, por exemplo, nos países nórdicos, com um IDH muito equilibrado, em Portugal o exercício do poder político é unilateral, partindo-se do pressuposto de que pelo facto de o poder ter sido outorgado através de eleições livres, os governantes podem fazer o que muito bem entendem, sem atender minimamente à opinião diversa da sociedade.
Estudos já realizados constatam o elevado grau de tristeza e desmotivação geral dos cidadãos portugueses.
Urge, pois, repensar o uso do poder nos países e nas organizações.
Nestas últimas, os seus dirigentes devem adoptar comportamentos de liderança marcados por uma atitude transformacional no sentido de capitalizarem do melhor modo possível o principal activo organizacional ao seu dispor – as pessoas. É fundamental, de uma vez por todas, ultrapassar o paradoxo entre o discurso e a prática. Todos relevam a importância das pessoas, mas ninguém age em conformidade.
Nas nações, e em Portugal em particular, é fundamental que se repense e revolucione o conceito de “participação” dos cidadãos na vida pública e nas decisões relevantes sobre a vida desses mesmos países e dos seus cidadãos. É chegado o momento de perceber que votar em eleições não é garantia de nada em concreto e que até pode estar a ser, cada vez mais, um acto legitimador de uma política de afastamento entre quem decide e quem paga a factura dessas decisões.
A bem da justiça e da moral, convém que passemos das intenções à prática e que se preze o caminho da integridade e da equidade, sem o que a sociedade correrá o risco de ficar refém de uns tantos viciados e deslumbrados pelo poder, gente incapaz e perigosa. ■

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