ACP contra caça à multa

A sinalização dos novos radares que vão funcionar na capital está a levantar uma acesa polémica. A medida afecta os lisboetas, mas igualmente os muitos condutores que entram na capital diariamente.

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O Automóvel Club de Portugal (ACP) defende que os novos radares de controlo de velocidade em Lisboa devem estar devidamente sinalizados, recusando a caça a multa, enquanto a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M), normalmente com posições algo extremistas e que quer cada vez mais reduzir a velocidade em Lisboa, e no resto do país, sugere uma mistura entre equipamentos fixos e móveis.

“Os radares têm que ser uma medida de prevenção e não uma medida de punição, portanto, é muito importante que as pessoas saibam onde estão”, disse o presidente do ACP, Carlos Barbosa, manifestando-se contra os equipamentos móveis, “que são de caça à multa”, normalmente utilizados pela Polícia de Segurança Pública (PSP) e pela Guarda Nacional Republicana (GNR). “Não estou de acordo com esses radares escondidos”, salientou.

Acalmar o Trânsito

Carlos Barbosa indicou que o princípio da Câmara de Lisboa e da Polícia Municipal com a instalação de 41 novos radares fixos na cidade é de acalmia e distribuição do tráfego, tendo sido escolhidas “zonas onde há efectivamente muitos desastres ou zonas onde pode haver pessoas que aceleram estupidamente sem necessidade nenhuma”.

“De acordo com o mapa de sinistralidade da cidade de Lisboa, os radares estão bem colocados”, com alguns colocados em zonas em que não há acidentes, mas onde há corridas à noite, disse Carlos Barbosa, ressalvando que é preciso avaliar qual a velocidade que vão colocar nos equipamentos de controlo de trânsito e manifestando-se contra a decisão de reduzir o limite de velocidade em algumas vias rodoviárias.

“Os radares em toda a parte do mundo são sinalizados”, reforçou Carlos Barbosa, indicando que a sinalização tem que ser colocada em ambos os sentidos, o que nem sempre acontece nas auto-estradas, podendo existir também sinais luminosos por cima das vias rodoviárias.

Sobre o plano para a sinalização dos 41 novos radares, o presidente do ACP, que é também deputado do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa, explicou que o executivo camarário, sob a presidência de Carlos Moedas (PSD), está a trabalhar para “uma informação certa, correcta, para que as pessoas tenham efectivamente um acto de prevenção”, em vez de ter equipamentos “às escondidas” para multar os condutores que excedam o limite de velocidade.

Considerando que a Câmara Municipal tem “um excelente departamento de tráfego”, Carlos Barbosa realçou ainda que os novos radares são equipamentos modernos e tecnologicamente mais avançados, que possibilitam o controle simultâneo de velocidade em várias vias e em ambos os sentidos, enquanto os equipamentos antigos apenas permitiam controlar a velocidade numa única via.

Questionado sobre a demora na entrada em funcionamento dos 41 novos radares, que já estão instalados desde o final do ano passado, mas que continuam desligados, o dirigente do ACP respondeu que pode ter que ver com o processo de mudança da governação da cidade, já que “a câmara é um monstro muito grande a trabalhar”, mas que se antevê que “dentro de pouco tempo estará tudo a funcionar”.

Redução de velocidades

Com uma perspectiva diferente, a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M), fundada há 20 anos e que tem sempre vindo a lutar pela redução das velocidades, nomeadamente nas cidades, considera que a eficácia dos radares resulta de “uma mistura dos dois sistemas”: fixos e móveis.

“É uma mistura destes dois métodos que torna o sistema muito mais eficaz, portanto, a visibilidade dos radares é algo que não temos nada contra, mas deverá haver outro tipo de radares que estejam variáveis na cidade para também apanhar os prevaricadores que, de facto, desaceleram quando vêem um radar e, depois, tornam a acelerar”, afirmou Mário Alves, representante da ACA-M, considerando que a maior parte dos condutores cumpre o limite de velocidade quando sabe que está lá o radar.

Defendendo que deveria haver “em complementaridade” radares móveis, “que não estão tão visíveis e que vão mudando de sítio de dia para dia”, Mário Alves referiu que os equipamentos de controlo de velocidade “geralmente têm um efeito de rede, em que podem inclusivamente ter um efeito fora da sua zona de influência, porque as pessoas começam a ter algum receio de onde está o radar”. “Não é só com radares visíveis que se consegue controlar a situação”, frisou.

O representante da ACA-M alertou também que, nas últimas décadas, Portugal passou de um problema associado à condução sob a influência de álcool para “um flagelo nacional” relativamente ao excesso de velocidade em zonas urbanas, para o qual “os municípios se têm demitido de controlar”.

A instalação de 41 novos radares em Lisboa “não é só positiva, como vem já muito tarde”, mas comparando com outras cidades da Europa, por exemplo Madrid que tem 400 equipamentos de controlo de velocidade, a ordem de grandeza é “totalmente diferente”, apontou Mário Alves.

“A vacina para controlar a velocidade nas estradas é conhecida há muitas décadas, em toda a Europa fazemos acalmias de tráfego, radares e toda uma panóplia para reduzir as velocidades, para proteger peões, principalmente, e também ciclistas”, declarou o responsável da ACA-M, considerando que tem havido “falta de coragem política” para a instalação de radares, “porque muitas vezes a medida é percepcionada como não muito popular”.

Em relação à entrada em funcionamento dos radares, Mário Alves associou a demora com o facto de Portugal ser “um país extremamente burocrático, com processos de concursos públicos muito complexos”, a que se junta a mudança de executivo camarário.

“A nossa queixa de atraso não é de meses, mas é de anos. Estes radares e a sua instalação devia ter sido feita há 10, cinco anos, e não agora. De qualquer forma, saudamos esta situação”, disse.

Os 41 novos radares de controlo de velocidade de veículos, dos quais 20 em novas localizações e os restantes para substituir antigos equipamentos, resultam de um investimento de 2,142 milhões de euros por parte da Câmara Municipal de Lisboa, assumido ainda no anterior mandato, sob a presidência de Fernando Medina (PS).

A instalação dos radares ficou concluída no final do ano passado, já com Carlos Moedas (PSD) à frente do executivo camarário de Lisboa, mas os equipamentos ainda não estão em funcionamento.

No final de Março, Carlos Moedas indicou que o município está a trabalhar na sinalização para informar os condutores, sem adiantar datas para a entrada em funcionamento. ■