Amigos da onça…

Os “Ornatos Violeta” postularam que os monstros precisam de amigos. Costa segue um guião mais religioso e, tal como Pedro face a Cristo, nega-os. Assim o fez numa conferência de imprensa que deixou o país em suspense face à televisão, lendo um comunicado preparado ao pormenor e que apenas se destinava a, ainda enquanto primeiro-ministro em plenitude de funções, fazer a sua defesa e a de Galamba em processo judiciais em curso. Não se conteve em fazê-lo quando os visados se encontravam ainda detidos e sem possibilidade de contraditório. Pior, enquanto as medidas de coacção não haviam sido decretadas. Do meu imaginário de miúdo, no que toca à vertente cinematográfica, sempre associei os indianos ao Sandokan, a faquires, encantadores de serpentes e, claro, a exímios lutadores de espadas. Costa, o goês, traz-nos a versão dos mestres das facadas nas costas. Fê-lo com Seguro, há quase uma década e, julgando o público que se tratava de um único filme, apresenta-nos agora a sequela, com Lacerda Machado e Vítor Escária. Por este andar – e ainda a procissão vai no adro – terá mais episódios que o “Preço Certo”… De Lacerda Machado, amigo há mais de trinta anos e seu padrinho de casamento, disse tratar-se de uma infelicidade, referindo não ter amigos. Aguardamos os qualificativos se alguma vez a sua mulher ou filhos se virem envolvidos em suspeitas da mesma natureza. Das diversas hipóteses possíveis, coloco as fichas em qualquer coisa do género: “Quem? Nem sequer os conheço!”. Já quanto a Escária referiu a vergonha e apresentou um pedido de desculpas ao país. Deu, ali, a sentença de morte ao seu chefe de gabinete, o qual, deveria gozar da presunção de inocência, até porque beneficia de outro milagre socrático em que os livros de São Bento são capazes de produzir notas. Ao fazê-lo, para lá do despeito pessoal e desrespeito pela Justiça e Constituição, acabou por sublimar conhecer os contornos do processo e o envolvimento do seu chefe de gabinete. Não os conhecesse, a prudência, a cautela, o dever de lealdade e, sobretudo, a dignidade do cargo que (ainda) ocupa, mereceriam outros cuidados e referências.
No que ao comunicado diz respeito, perfeitamente vazio de conteúdo e de utilidade para o país, fica apenas a nota de que o Partido Socialista continua a ser incapaz de destrinçar funções, competências e independência dos órgãos de soberania, o que pouco espanta depois de diversos episódios de interferências, nomeações e procedimentos inaceitáveis, a começar, desde logo, pela vergonha da nomeação do Procurador Europeu José Guerra, passando pelos processos Casa Pia e Operação Marquês.
Marcelo andou mal, mais uma vez, na gestão deste dossier e o Conselho de Estado pior ainda, demonstrando não ser merecedor dos poderes, importância e dignidade que lhe são conferidos. Como é que é possível que metade dos Conselheiros entenda ser possível a continuação dos socialistas em funções, quando bem sabe que a maioria parlamentar não é de um partido, mas apenas de um homem e tal foi referido e sublinhado pelo próprio Presidente quando empossou Costa? Como é possível não alcançar o distanciamento e não ter o discernimento para perceber que existe uma manifesta crise das instituições democráticas a começar pela credibilidade do próprio Governo e Parlamento? Como é possível achar que o Partido Socialista tem quadros, competentes, sérios e impolutos para apresentar uma solução governativa num cenário de crise que os próprios criaram e face ao buraco que diariamente continuam a escavar? Lamentável não serem capazes de despir as vestes partidárias em benefício do país e pretenderem, uma vez mais, conservar o poder a todo o custo…
E se os primeiros-ministros deixam de ter amigos, os Presidentes parecem deixar de ter bom senso. Primeiro, porque não se trata de aceitar um pedido de demissão, antes de uma exoneração imediata, já que quer o primeiro-ministro, quer vários ministros se encontravam sob suspeita e/ou estavam já constituídos arguidos. Segundo, porque tais negócios em investigação judicial têm repercussões no próprio Orçamento de Estado, beneficiando de medidas, apoios, benefícios e isenções no caso da sua aprovação. Terceiro, porque nenhum mal viria ao mundo caso o Orçamento de Estado não viesse a ser aprovado, até porque o ano de 2023 foi de excedente orçamental. Ao invés, o novo Governo, seja ele qual for, terá que trabalhar com um orçamento que não elaborou, não aprovou, pelo que é lógico que apresente um orçamento rectificativo e profunda mudança dos paradigmas e opções económicas. Quarto, porque pouco ou nenhum sentido faz que a aceitação de demissões seja diluída no tempo, nomeadamente com governos envolvidos em escândalos ao mais alto nível, permitindo-lhes a plenitude de funções enquanto não formalmente demissionários, ou seja, a tomada de decisões que condicionem os processos em curso. Por último, pelos quase seis meses de “vacatio” que consagra entre a demissão do primeiro-ministro e a nomeação de um novo Governo, em manifesto prejuízo para o país e do qual apenas o Partido Socialista beneficia, nomeadamente Pedro Nuno Santos, candidato à liderança e putativo vencedor, permitindo-lhe limpar a imagem e gerir uma candura como se não tivesse sido ele responsável por alguns dos piores momentos governativos desta legislatura. Os ex-ministros, ao que parece, não têm memória, como, aliás, ficou bem demonstrado no caso Alexandra Reis.
Quem sai também muito chamuscado em todo este processo é o Governador do Banco de Portugal. Inflamado por um convite de Costa, tratou de dar uma entrevista ao “Financial Times” – que ninguém lhe pediu e da qual se poderia ter escusado – garantindo ter sido convidado também pelo Presidente da República. Não está em causa o erro de percepção. Está em causa a desnecessidade da informação, até porque a solução já havia sido recusada por Marcelo, e, sobretudo, a sua independência e credibilidade enquanto Governador. Os anos no Governo, e o convívio próximo com Costa, trouxeram-lhe o pecado da soberba, que não conseguiu disfarçar. Mais do que o ridículo de veicular um convite que na verdade nunca o foi e de uma solução liminarmente vetada, é a manifesta incapacidade de percepção, quer do cargo que ocupa, quer daquele que se propunha vir a aceitar, sem garantir, sequer, que teria condições para o fazer.
Daqui resulta que a única pessoa séria no meio desta embrulhada toda, entre Belém, São Bento, a Praça da Liberdade e o Largo do Rato, era mesmo a senhora que limpava o gabinete de Vítor Escária… ■

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