Neste último ano, é provável já tenhamos tido mais dias com greves nos transportes do que dias sem greves. Isto só pode significar que algo não vai bem no sector. Depois de tantos planos do Governo, tantos anúncios de investimento em transportes públicos, a verdade é que, infelizmente, em Portugal ninguém pode confiar na usabilidade do transporte público para chegar a tempo e horas onde quer que seja.
Sobre as greves, na maioria das vezes, o que está em causa são impasses nas negociações salariais e outras questões laborais que os trabalhadores contestam. Mas o que mais me impressiona é o impacto das greves no dia-a-dia das pessoas. Pessoas que nada têm que ver com a situação em si e com a eventual incapacidade para que se chegue a entendimento são os principais reféns deste impasse. O que nos leva a pensar também se efectivamente a legislação relativa ao Direito à Greve se encontra, ou não, ajustada aos dias de hoje. É justo para quem paga os seus impostos, comprou o seu passe mensal, quer simplesmente fazer o circuito casa-trabalho, trabalho-casa, ficar impedido de usar o transporte público, sem acesso a qualquer alternativa pública? A relação entre os direitos e as liberdades de uns e de outros, merecia um pouco mais de reflexão.
Para ajudar no entendimento sobre as greves no geral, decidi questionar o ChatGPT. Questionei primeiro sobre as consequências da greve: “As greves podem ter diversas consequências, tanto para os grevistas como para os utilizadores do serviço público:
1) Interrupção dos serviços essenciais, afectado directamente a população.
2) Atrasos e cancelamentos das viagens, afectando a mobilidade das pessoas e causando transtornos nos deslocamentos diários.
3) Acumular de serviços, derivado da pouca oferta.
4) Impacto económico: greves prolongadas podem ter um impacto significativo na economia com perdas financeiras para as empresas e para o país num todo.
5) Descontentamento social: as greves podem causar insatisfação entre os cidadãos que dependem destes serviços públicos, podendo levar a protestos, tensões sociais e pressão sobre as autoridades para resolver as questões em disputa”.
E será que “ChatGPT” sabe como se pode evitar uma greve? Pelo menos respondeu com sugestões. “Evitar uma greve pode ser desafiador, uma vez que a decisão de realizar uma greve está nas mãos dos trabalhadores e dos sindicatos. No entanto existem algumas medidas que podem ser adoptadas para minimizar o risco ou encontrar soluções alternativas:
1) Diálogo e negociação: estabelecer um diálogo aberto e transparente entre os empregadores e os representantes dos trabalhadores é fundamental. O objectivo é encontrar soluções que atendam às necessidades de ambas as partes e evitar conflitos.
2) Mediação: em situações de impasse nas negociações, recorrer à mediação de terceiros imparciais pode ajudar a encontrar um terreno comum. Mediadores podem auxiliar na busca de soluções aceitáveis para ambas as partes, evitando a necessidade de uma greve.
3) Arbitragem: em alguns casos, recorrer à arbitragem pode ser uma opção. Nesse processo, um terceiro imparcial analisa as questões em disputa e toma uma decisão vinculativa para ambas as partes. Isto pode ajudar a resolver as diferenças sem a necessidade de uma greve.
4) Benefícios e incentivos: oferecer benefícios e incentivos atractivos aos trabalhadores pode ajudar a reduzir a insatisfação e o desejo de realizar uma greve. Isso pode incluir melhorias salariais, benefícios adicionais, oportunidades de desenvolvimento profissional, entre outros.
5) Respeito aos acordos existentes: cumprir os acordos e contratos existentes com os trabalhadores demonstra confiança e respeito mútuo. Isso ajuda a manter um ambiente de trabalho mais estável e reduz a probabilidade de uma greve.
6) Comunicação efectiva: manter uma comunicação aberta e transparente com os trabalhadores é fundamental. Comunicar claramente as decisões, políticas e mudanças organizacionais pode ajudar a evitar mal-entendidos e descontentamento que possa levar a uma greve. Lembrando que cada situação é única e requer abordagens específicas. O diálogo e o respeito mútuo entre as partes envolvidas são fundamentais para encontrar soluções e evitar greves”.
Perguntei também ao “ChatGPT” qual a alternativa em Portugal para o utilizador, sempre que há uma greve nos transportes públicos. Curioso, que a primeira resposta foi a sugestão para encontrar “transporte privado” e isso levar-nos-ia para outro debate muito interessante também.
E a verdade é que as considerações apresentadas por um sistema de inteligência artificial, no caso a plataforma “ChatGPT”, parecem sensatas, mas serão suficientes para resolver estes impasses e consequências para os trabalhadores, para as empresas e para os utilizadores ou teremos de facto que ir mais além?
Recordo que em Março deste ano, o Partido Socialista, em resposta a um recado do Presidente da República, disse que a alteração da lei da greve “não é assunto”, e se por um lado fecham a porta ao debate, por outro também não vemos qualquer solução apresentada pelo Governo para evitar que se chegue a situação de greve.
Só em Lisboa, temos uma média de mais de 800.000 passageiros por dia útil, o que significa que cada vez que existe uma greve numa empresa de transportes públicos, estamos a afectar directamente boa parte destes utilizadores de serviços públicos. São estas pessoas a quem o Governo está a virar as costas ao fechar a porta a um debate fundamental para o país. E debater o assunto não é retirar ou limitar o direito à greve, que, como é evidente, é fundamental numa democracia, mas sim debater profundamente e encontrar equilíbrios que permitam aos trabalhadores defender os seus direitos com maior taxa de eficácia, sem que os maiores prejudicados sejam tantos inocentes, que caso queiram reclamar ou simplesmente ter voz, só o fazem a cada quatro anos, em períodos eleitorais. ■




