Banhos de fé

Há títulos sobejamente bem escolhidos. Com efeito, o título é o primeiro elemento que nos leva a ver um filme, ler um livro ou a prestar atenção a um determinado assunto. Sem que nada saibamos do que se trata é, antes do mais, o título o que nos cativa.
Feios, porcos e maus é um deles. No nosso imaginário – e para quem não conhece a estória – abre-se uma panóplia de possibilidades, da comédia ao humor negro, da banda desenhada à crítica política. Hoje, com alguma imaginação travessa e face aos escândalos na igreja, nem a religião ficaria de fora.
Em 1976, Ettore Scola realizou uma fabulosa sátira em tom trágico-burlesco de uma família italiana que vivia, entre filhos, genros e netos, de forma comunal, num bairro de lata romano, à conta da parca reforma da matriarca inválida e senil. O pai, Giacinto, havia recebido uma indemnização de um milhão de liras por ter perdido um olho e, seguro da cobiça da restante família, escondia-a e mudava-a de sítio regularmente, dormindo de arma na mão. Um dia, Giacinto leva uma prostituta para a barraca e a família tenta envenená-lo durante o baptizado do neto. Tendo este sobrevivido, em plena ira e com fome de vingança, deita fogo à barraca e vende o terreno. O filme retrata, de forma brilhante, a sátira social, o neo-realismo e, ainda que não aborde directamente as políticas sociais ou se prenda em juízos morais, eles acabam por estar presentes na narrativa.
Será, com as devidas distâncias, um pouco como as Jornadas Mundiais da Juventude. Uma crítica mordaz à nossa sociedade, não pelo que representam, mas por aquilo que despertam nos outros: o ódio, a inveja, a incompreensão.
De facto, a esquerda não compreende (e muito menos aceita!) que mais de um milhão de jovens de várias nacionalidades se reúnam, pacificamente, num convívio, em plena partilha de experiências e emoções. Sem causas comuns, movimentos sociais ou ondas de protesto. Sem líderes de megafone, sem os holofotes televisivos e sem procurarem chocar seja quem for. Apenas porque movidos pela fé. A de cada um, sem que os outros a contestem, lhe atribuam siglas ou um + no fim. Sem criarem desacatos, sem pegarem fogo a caixotes, incendiarem viaturas, sem pilhagens e sem confrontos com a polícia. Sem provocarem seja quem for. Sem drogas ou estados de espírito alterados. Com tantos problemas como todos os outros jovens, muitos com famílias disfuncionais, com dúvidas existenciais, alguns, seguramente, com opções sexuais menos convencionais, mas todos, com uma ira interior contida e procurando respostas na fé em que acreditam, sem culpar o mundo exterior e sem se vitimizarem. Cantam, dançam e divertem-se como jovens que são. Também eles com preocupações sociais, também eles interventivos e, porventura, também eles revoltados com tanta e tanta coisa que acham mal, a começar pelo poder político. Simplesmente percebem que essas lutas podem e devem ser travadas de outras formas, pelo respeito de e para com os outros e, sobretudo, por mudanças comportamentais que devem começar neles mesmos para que possam ter a legitimidade de os pedir a terceiros.
Um dos episódios que me marcou foi o de uma jovem que, em plena jornada, entendeu desfraldar uma bandeira associada ao movimento LGBT…+. Foi abordada por dois peregrinos que, educadamente, lhe pediram para a guardar explicando-lhe que aquele não era o lugar adequado para aquele tipo de manifestações. A jovem acedeu e o episódio ficou por ali. Agora, pergunto-me se haveria essa tolerância, essa presença de espírito e esse respeito se algum jovem entendesse agitar uma bandeira do Chega num comício do Bloco de Esquerda ou esticasse o braço direito, de palma para baixo, em plena Festa do Avante. A pergunta é retórica, pois a única dúvida é o número de meses que demoraria a recuperar dos correctivos. É que, ao contrário do que apregoa, a esquerda não é tolerante, não é respeitadora e apenas pensa nos seus direitos e nunca nos direitos dos outros. A esquerda é uma vítima permanente, mesmo quando está no poder, e assim continuará a ser, por uma questão de oportunismo e conveniência e necessidade de subsistência. Um Barrabás, portanto, amnistiado pela turbe que compreende um criminoso, mas que teme quem não é subserviente a ninguém, pensa pela sua própria cabeça e aceita as consequências das suas acções.
Não houve mobilizações nas redes sociais. Não houve camionetas a levar carradas de gente. Não houve partidos, sindicatos ou movimentos a organizar marchas. Não houve tendências, dissidências ou planeamento. Não havia agendas políticas, discursos de ódio ou de revolta. E, sobretudo, não houve dedos apontados aos que, independentemente do motivo, não foram. Houve, sim, a vontade individual de cada um, superando largamente todas as melhores previsões. Um íntimo moral, não de pertença ou de presença, mas sim de presença. Com os outros ou apenas consigo mesmo.
Os espíritos livres são aqueles que não temem os juízos sociais, os que professam as suas opiniões pela profunda crença nas mesmas, mas que não as tentam impor, não fazem delas verdades universais, aceitam os seus erros e tudo fazem para melhorar. Por si, não pelos outros e, muito menos, contra os outros. Não culpam terceiros e aceitam, pacificamente, que ninguém é perfeito e que a violência jamais será solução. Não marcham, não gritam palavras de ordem, não hasteiam bandeiras, não intimidam. Cantam, dançam, convivem, partilham, são educados e preocupam-se com o próximo.
Ah! E estes tomam banho! ■

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