Costa eufórico com a ‘bazuca’

A chegada dos primeiros dinheiros da ‘bazuca’ europeia deixou o líder socialista António Costa num estado de euforia semelhante ao de uma criança gulosa numa loja de rebuçados. O primeiro-ministro até adiou as férias para estar perto do bolo no momento da distribuição…

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A primeira transferência de fundos europeus ao abrigo do plano de recuperação pós-pandemia, no valor de 2.200 milhões de euros, chegou na passada semana a Portugal. Mas a ânsia de ver distribuída com rapidez esta primeira fatia do bolo é tanta que António Costa já assinou contratos de projectos no valor de 2.490 milhões, atribuídos a um número não especificado de entre as 16 mil candidaturas a financiamento recebidas pelo Governo até ao final de Julho.

Portugal receberá nos próximos anos um total de 16.600 milhões de euros ao abrigo de um plano de apoio à recuperação das economias europeias; desse valor, cerca de 14 mil milhões de euros serão concedidos a fundo perdido e o restante a título de empréstimo. Ao todo, a União Europeia distribuirá por todos os Estados-membros um total de 750.000 milhões de euros ao longo dos próximos cinco anos. Para conseguir fazê-lo, a própria UE tem de endividar-se na banca internacional, embora beneficiando de melhores condições e juros do que cada um dos Estados-membros individualmente.

Tanto António Costa como o ministro do Planeamento, Nelson de Sousa, adiaram as suas férias para poderem acompanhar de perto a gestão dos dinheiros da ‘bazuca’. No caso do líder socialista, trata-se também de promover mediaticamente as iniciativas em torno do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a apenas mês e meio das eleições autárquicas de 26 de Setembro.

Segundo refere o semanário ‘Expresso’, “apenas durante o mês de Julho, o primeiro-ministro esteve em dez iniciativas relacionadas com a divulgação de fundos da ‘bazuca’ – em média, mais de duas iniciativas por semana”. O afã mediático é de tal ordem que Costa voltou a “lançar” a Barragem do Pisão, no concelho alentejano do Crato, depois de já o ter feito em 2019: dois “lançamentos” em três anos, e ainda nem sequer foi lançada a primeira pedra…

Dos 2.490 milhões de euros já contratualizados ao abrigo do PRR, 1.600 milhões referem-se a projectos de “resiliência social, económica e territorial” (uma expressão do dialecto dos políticos que cobre praticamente tudo), 500 milhões a empreendimentos na área da “transição digital” (leia-se modernização tecnológica da actividade económica) e 300 milhões em “transição climática” (calão politiquês para referir normas ambientalistas).

Segundo o ‘Expresso’, em breve o Governo terá completado a distribuição de 42% do PPR, distribuídos por 35 contratos de financiamento. Inúmeros concursos de candidatura aos fundos europeus estão neste momento em curso por todo o país, envolvendo empresas, autarquias, universidades e outras organizações e instituições.

Orçamento

Enquanto acompanha com olho clínico a distribuição dos dinheiros da ‘bazuca’, António Costa aproveita a calmaria de Agosto na capital para preparar a negociação do Orçamento do Estado, cuja aprovação no Parlamento estará dependente das boas vontades dos comunistas e da extrema-esquerda. O Governo parece ter garantida a cumplicidade do PCP e do PAN, mas falta-lhe ainda chegar a acordo com o BE, partido que no passado garantiu a montagem da ‘geringonça’ mas entretanto se afastou da órbita socialista com receio de ser penalizado nas urnas pelo eleitorado mais radical.

A reforma das leis laborais promete ser um dos temas de mais difícil negociação com os extremistas da esquerda, mas Costa beneficiará da possibilidade de usar a ‘bazuca’ para atenuar aspectos mais conflituosos da crise social que se avizinha, em resultado da crise económica agravada pela pandemia. ■