Desgoverno: Portugal à deriva

“A mentira, a propaganda e a irracionalidade tomaram conta do espaço público. O que cresce não é a economia, mas a pobreza, a ignorância e a desigualdade sustentadas pela bazuca europeia”

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O Presidente da República, o PS, o Governo, o Primeiro-Ministro e a Ministra da Saúde ficarão na história do País com a responsabilidade da morte anunciada de muitos portugueses. Ao escrever isto tenho a plena consciência da minha própria responsabilidade como cidadão e sei por experiência que corro o risco de me chamarem todos os nomes que têm sido usados para insultar os que não obedecem à cartilha da extrema-esquerda que gere as regras do debate público.

A democracia plena sonhada com o 25 de Abril foi morrendo aos poucos pelas mãos dos partidos políticos. É verdade que podemos falar à vontade, sem sermos presos por uma qualquer polícia política, mas não podemos escolher os nossos representantes no Parlamento e somos forçados, pela Constituição e pela lei, a aceitar um governo gigantesco de ‘boys’ sem as condições mínimas para a organização e a gestão do Estado a favor do interesse público. O nosso poder de cidadãos livres e a nossa participação na vida política foi sendo reduzido ao mínimo. A mentira, a propaganda e a irracionalidade tomaram conta do espaço público. O que cresce não é a economia, mas a pobreza, a ignorância e a desigualdade sustentadas pela bazuca europeia.

Depois da primavera dos enganos chegámos ao inverno da verdade. “Depois da farsa dos coveiros, Hamlet chamou-nos à realidade do pó humano”; depois das ilusões do sucesso português, chocámos de frente com o poder do fanatismo ideológico, do deslumbramento televisivo e da sobrevivência política, custe o que custar. A ordem é a de mudar alguma pouca coisa, para que tudo fique na mesma.

Infelizmente, como era previsível, a realidade da pandemia do Covid-19 chegou a Portugal com estrondo. Os políticos desorientados procuram agora construir a sua própria realidade e os comentadores de serviço justificam o novo ideal português do politicamente correcto, enquanto o desastre económico não chega em toda a sua dimensão e selvajaria. Infelizmente chegará, mas para que outros possam tentar remendar o que agora se descose.

Dentro de dois dias vamos ter uma eleição presidencial de resultado anunciado e com a habitual eleição do chefe. Tudo se manterá, portanto, de acordo com a estabilidade dos cemitérios. Não houve campanha eleitoral, apenas insultos, pasmaceira e a fuga desenfreada às grandes questões nacionais. Os candidatos não se perguntaram quais as causas de estarmos encurralados no carro vassoura da União Europeia; de a economia levar mais de duas décadas de estagnação; de a dívida pública e privada ser gigantesca e a crescer; de cada vez menos portugueses votarem; de a pobreza aumentar; de metade da economia dual, a parte pobre está bem de ver, desaparecer sem resposta adequada; de metade das crianças portugueses não terem futuro; de os jovens emigrarem. 

Infelizmente, na cabeça dos governantes e candidatos a governantes não passa nada, o Estado tratará de tudo isso e a bazuca vai chegar. Para os actuais poderes, político e comunicacional, resta apenas por resolver, além da pandemia, a crise ambiental, a eutanásia, o racismo, a xenofobia e sobretudo o populismo de Trump, de Balsonaro e, mais modernamente, de André Ventura. Este é o País que conhecemos, à procura de uma revolução democrática que tarda em chegar.

Entretanto, Portugal tem todas as condições para ser um País desenvolvido em que dê gosto viver. Os estrangeiros procuram-nos, muitos decidem viver a sua reforma em Portugal, a pobreza de muitos portugueses tornou-se uma atracção para alguns. A nossa costa, o nosso mar, as nossas praias, as velhas aldeias do interior, a nossa cultura, a nossa comida e, principalmente, a nossa vocação de bem receber, atraem quem nos visita. 

O povo de viajantes que somos, chegou aqui vindo de todo o lado, o mar fixou-nos, mas foi o mar que nos levou às cinco partidas da terra, por onde ainda andamos. Hoje temos por todo o mundo trabalhadores, cientistas, dirigentes de bancos e de empresas, académicos, investigadores e até futebolistas e treinadores de futebol, em que todos, pelo seu reconhecido mérito, honram Portugal. Não somos diferentes cá dentro, o mérito individual dos portugueses é o mesmo e nesta pandemia que nos está a matar, temos heróis desconhecidos que lutam pela nossa sobrevivência.

Infelizmente, também temos, sempre tivemos ao longo dos séculos, longos perío-
dos em que fomos mal governados. Nos bons governos de D. João II, do Marquês de Pombal, como em outros breves momentos de lucidez, mostrámos ao mundo que também tínhamos grandes qualidades e nos podíamos governar com sucesso, mas foram tempos que duraram muito pouco. Então, como agora, a corrupção, a má qualidade das classes dirigentes, os traidores do interesse nacional e o conservadorismo dos interesses estabelecidos, sempre se opuseram ao progresso colectivo. O centralismo de um Estado poderoso, tendencialmente autoritário e servidor das classes dirigentes, abateu-se continuamente sobre esses breves períodos de progresso e de pensamento criador. As várias inquisições e maçonarias que obscurecem o nosso passado e comprometem o nosso futuro, sempre, como agora, estiveram presentes. 

Cada inquisição tem os seus próprios objectivos de domínio das ideias e de controlo da sociedade e da liberdade do povo. Hoje é a religião do ambiente, dos chamados temas fracturantes, do progresso sem trabalho e sem esforço e das utopias de uma suposta igualdade que a experiência demonstrou ser geradora da pobreza de muitos, sob a direcção, quase sempre brutal e ignorante, de poucos. Para esse domínio são criados mitos, inimigos obscuros e fantasmas do passado. Já aderimos ao derrube das estátuas e dos símbolos da nossa história, para mais facilmente se promover o pensamento único. Destas novas inquisições da ignorância nunca surgiu a luz. 

A história dos povos ensina-nos que apenas a educação em todas as áreas do conhecimento, a cultura dos comportamentos democráticos e o domínio das competências necessárias a cada cidadão, são factores de promoção da igualdade nas sociedades modernas, no respeito das diferenças que nos caracterizam como seres humanos. Mas isso, as inquisições contemporâneas não sabem, ou não aceitam. ■