Futebol português precisa de uma troika

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O futebol, sobretudo nos últimos tempos, tem sido diariamente notícia de capa na imprensa e de abertura nos telejornais. A bola atrai Ministros e Presidentes aos estádios, move influências de todos os géneros, em todos os quadrantes da vida social, e faz girar muitos milhões de euros. Mas pouco se fala da crise financeira profunda em que se encontra em Portugal.

Receitas minúsculas, enormes despesas, dependência quase total de expedientes de ocasião, e a maior dívida da Europa, que nunca vai ser totalmente paga – é este o cenário que os últimos relatórios da UEFA pintam do futebol nacional, que ainda pode vir a precisar de ser resgatado, à semelhança dos bancos falidos.

Portugal acorda a falar de futebol, adormece a falar de futebol. Nos últimos meses, a crise dirigente no Sporting Clube de Portugal, os numerosos escândalos que vêm sendo investigados pelas autoridades, e o campeonato do mundo de futebol encheram os meios de comunicação social.

E, no entanto, os números da UEFA mostram como a loucura do futebol em Portugal se baseia na mesma “receita” catastrófica da loucura da construção pública e da banca: dívida, simplesmente dívida. Que alguém há-de pagar, talvez, num futuro distante. O último a sair que feche a porta.

Ignorar o peso económico do futebol europeu já não é possível: se o passatempo favorito dos europeus fosse um país independente, o futebol seria a 32ª maior economia da Europa.

No total, esta modalidade rende mais de 25 mil milhões de euros anuais à economia do velho continente. Nos últimos 20 anos, as receitas do futebol aumentaram 600 por cento graças à extensa modernização do sector em toda a Europa. Excepto em Portugal.

Apesar dos muitos casos, e de o País passar a vida a falar dos jogos como se fossem casos de vida ou morte, a Liga Portuguesa de Futebol pura e simplesmente não cresce economicamente, nem consegue criar oportunidades de rendimento no estrangeiro.

As receitas médias da Liga Nacional aumentaram uns magros 19 por cento nos últimos seis anos, enquanto a taxa de crescimento subia a mais de 50 por cento em mercados igualmente pequenos como a Suíça ou a Bélgica. A Premier League inglesa aumentou em 82 por cento as suas astronómicas receitas no mesmo período de tempo.

Portugal conseguiu, graças a má gestão, não entrar no ‘top 10’ das maiores ligas da Europa, e não existe um único clube português que, segundo os dados da UEFA, tenha quebrado a barreira dos 100 milhões de euros em receitas. Até nomes tão “humildes” como o Aston Villa Football Club conseguem arrecadar mais dinheiro do que os “três grandes” portugueses.

Mas se não ascendemos ao ‘top 10’ das maiores receitas, conseguimos ascender ao ‘top 10’ das despesas, que aumentaram 17 por cento em seis anos, um dos ritmos mais velozes da Europa. Esse dado, associad à elevada dívida, significa que o futebol português se encontra, genericamente, em falência técnica.

Dívida Profunda

Dívida profunda Portugal tem a quarta Liga de futebol mais endividada da Europa: é, de longe, aquela que se encontra numa situação mais delicada quando se tem em conta a dívida em proporção aos rendimentos.

Para conseguirem competir na “corrida às armas” de jogadores e estruturas, os clubes portugueses cobriram-se de dívidas: no total, os clubes da Primeira Liga portu-
guesa deviam em 2015 quase 600 milhões de euros a vários credores, o equivalente a 165 por cento dos rendimentos anuais da Liga de Futebol.

Em termos comparativos, a maior dívida em bruto pertence indubitavelmente aos ingleses, mas representa somente 31 por cento dos rendimentos anuais. A dívida dos clubes franceses, que em bruto é menor do que a dos clubes portugueses, representa apenas 38 por cento das receitas. Em Espanha, o valor é somente 20 por cento, e os clubes alemães, apesar do elevado profissionalismo do seu futebol, apenas têm 99 milhões de euros em dívida, seis vezes menos do que o valor que os portugueses têm de calote.

Os “três grandes” representam o bruto deste valor. O Sport Lisboa e Benfica deve mais de 300 milhões de euros, o Sporting Clube de Portugal deve 133 milhões de
euros e o Futebol Clube do Porto deve 161 milhões de euros. Mas os clubes mais pequenos também se encontram em apuros. Para ir fazendo face às despesas, os clu-
bes portugueses vendem constantemente jogadores. É natural no futebol os clubes garantirem uma parte dos seus orçamentos com este expediente ocasional, mas não
é normal depender quase totalmente de uma verba que pode variar drasticamente de ano para ano. Em Portugal, no entanto, 61 por cento

das receitas dos clubes derivam da venda de jogadores, de longe o valor mais elevado da Europa, e que justifica em parte as enormes flutuações em termos de rendimentos dos
clubes. Em termos de comparação, nos clubes do país segundo classificado na lista, a Bél-
gica, apenas 38 por cento do seu orçamento derivam da venda de atletas. Em Inglaterra,
por exemplo, somente 15 por cento dos rendimentos anuais dos clubes são atribuí-
veis às transferências; na Alemanha, 21 por cento; em Espanha, 17 por cento.

Os clubes vão, assim, comprando e renegociando dívida. Enquanto este jornal segue para o prelo, o Benfica está a oferecer obrigações comprometendo-se a pagar aos investidores um juro de quatro por cento sobre os 45 milhões de euros que procura.

O Sporting, mergulhado numa crise dirigente, aguarda autorização para se endividar em 15 milhões de euros, sobre os quais pagará seis por cento de juro. A
falta deste financiamento, entretanto, já abriu alguns problemas em Alvalade, onde se notam alguns atrasos no pagamento a fornecedores.

O Porto colocou 35 milhões de euros de dívida no mercado, pagando 4,25 por cento de juro. Aquele valor, segundo o clube, vai ser injectado nas operações correntes, nomeadamente no pagamento das contas a fornecedores.

Fica claro que os principais clubes nacionais não têm meios de financiamento regulares, sendo que a grande diferença em relação aos clubes estrangeiros reside nos direitos televisivos.

Falta de ambição

Face à diminuta população portuguesa, o futebol nacional necessitaria de realizar os mesmos acordos de transmissão de direitos televisivos para os mercados internacionais que enriqueceram as outras Ligas caso quisesse estabilizar as suas contas.

O elevado crescimento em termos de receitas das Ligas europeias deve-se mais à negociação deste tipo de acordos do que apenas na exploração do mercado interno. A Premier League, a título de exemplo, está disponível para uma audiência estima-
da de 3 mil milhões de espectadores — e alguns ‘derbies’ conseguiram audiências entre 500 e 600 milhões de pessoas — apesar de a Liga operar num país com apenas 60 milhões de habitantes.

As restantes Ligas europeias estão todas a fazer acordos similares, sempre com um olho nas receitas dos direitos televisivos, na venda de camisolas e cachecóis e nas
tabelas de publicidade. Portugal, supostamente, estaria numa posição privilegiada para vender direitos televisivos. O interesse pelo futebol em todo o espaço da Lusofonia é significativo, e foi demonstrado pelas multidões que apoiaram a selecção nacional durante a sua marcha triunfal no Euro 2016, bem como pelas multidões que vibraram com a campanha lusitana enquanto esteve apurado no presente mundial de futebol.

Angola e Moçambique até se encontram quase no mesmo fuso horário dos jogos nacionais. Existe interesse demonstrado no futebol português no Brasil, na Índia e em Timor, entre várias outras regiões do Mundo. No entanto, sempre que as equipas de maior dimensão se defrontam, nas redes sociais é comum surgirem habitantes de outros países, e até mesmo emigrantes portugueses, a queixarem-se de que não têm forma legal de seguir muitos dos jogos.

Em grande parte, a crise reside na cultura dos “quintalinhos” que é prevalecente em Portugal. A Liga portuguesa é uma das poucas organizações de futebol da Europa que não negoceia conjuntamente os direitos televisivos, sendo que cada clube faz os seus acordos separadamente. Em França, por exemplo, onde reside uma grande comunidade emigrante, é necessário ter-se mais do que uma dispendiosa subscrição caso se queira assistir a jogos do Sporting ou do Benfica.

Em contraste, os jogos da maioria das principais ligas desportivas europeias são negociados pelas Ligas em nome de todos os clubes, enquanto o plano da Liga de Clubes de centralização das negociações dos direitos desportivos em Portugal cai sempre por terra.

Oportunidade falhada

A consequência natural deste fracasso organizativo é que o futebol português está a afundar-se velozmente numa crise financeira profunda, com grave prejuízo não apenas para o universo futebolístico mas também para a economia nacional.

No caso do Reino Unido, estima-se que só a Premier League criou 100 mil postos de trabalho nos últimos anos, não apenas directamente, mas também na ca-
deia de fornecimento directa aos eventos, na comunicação social e no turismo que
a modalidade gera. Esta Liga desportiva adicionou quase 4 mil milhões de euros à economia do Reino de Isabel II no ano passado, e rendeu mais de 3 mil milhões
de euros ao erário público.

Apesar de impressionante, a Premier League inglesa é apenas um dos vários casos de grande sucesso no continente, visto que a Bundesliga alemã cresceu a ponto de gerar
hoje rendimentos de quase 3 mil milhões de euros. A Liga Espanhola alcançou 2 mil milhões, e os campeonatos italianos e francês ambos superam mais de mil milhões em rendimentos anuais.

O campeonato português pouco mais gera do que uma montanha de dívidas, e
muitos casos de polícia.